sábado, 21 de março de 2009

Anton Tchekhov - O mestre do conto

Ao findar o século XIX, a Rússia debatia-se nas garras de terrível reacionarismo. A vida do povo era triste, carregada, sem esperanças. Profunda apatia pesava sobre as classes intelectuais, cansadas e desiludidas das lutas políticas. Uns se lamentavam sem cessar; outros se entregavam a uma existência de completa indiferença...

Foi nessa Rússia que surgiu um escritor cujas obras ganharam enorme repercussão. Chamava-se Anton Pavlovitch Tchekhov, era médico e, apesar de sofrer do peito, levava uma vida agitadíssima.

Nascera em Taganrog, em 1860. De origem humilde, filho de ex-servos, teve a infância marcada por preconceitos relacionados a sua origem. O pai, marcado pelo estigma de um ex-servo, educou os filhos de forma autocrática, habituando-os a obedecer. Deu-lhes no entanto o acesso à educação. Possibilitou aos filhos a frequência de um dos melhores liceus da cidade. Tiveram aulas de música e francês.

Na escola, não foi um bom aluno. Chegou a reprovar. Um padre que lhe deu aulas de religião chamava-o com menosprezo de "Cech"onte (cech significa servo). A mensagem: tu não passas de filho de servo. Mais tarde, quando publicava os primeiros contos em jornais, Tchekhov usou o pseudónimo "Antosa Cechonte" com ironia.

A partir dos seus treze anos, ficou fascinado pelo teatro da cidade, que dado o pouco dinheiro que tinha não frequentava tantas vezes como queria. Como era proibida a entrada a crianças não acompanhadas de adultos e sem a autorização do liceu, chegou a "disfarçar-se" de adulto, usando uma barba postiça.

Nessa época, o pai, arruinado financeiramente, foi obrigado a se mudar para Moscou com a família. O então adolescente Tchekhov ficou sozinho em Taganrog para terminar o ginásio, sustendo-se com aulas particulares.

Em 1879, terminado o ginásio, o jovem Tchekhov transferiu-se por sua vez para Moscou, onde a família vivia na maior pobreza, tendo chegado a certe época a dormir no chão.

Ele matriculou-se na Faculdade de Medicina de Moscou, sustendo-se e ajudando a manter a família como colaborador em várias publicações periódicas, para as quais escrevia historietas, crônicas e “cenas” que tinham de ser, por encomenda dos editores, breves, leves e “fácies de ler”.

Isso se deu na época de grande repressão política que se seguiu ao assassinato do , em 1881, do tsar Alexandre II por terroristas “populistas”, com o endurecimento da censura, das perseguições, deportações e das violências policiais. Esse momento, um dos mais tristes da história russa, foi paradoxalmente aquele em que a produção literária do jovem escritor foi mais “alegre”.

Essa enxurrada de historinhas divertidas trouxeram uma imensa popularidade a ele, e durou até a pouco depois de sua formatura em medicina, profissão que chegou a exercer durante alguns anos, como médico responsável por uma clinica rural. Mas logo a pujante vocação literária do jovem médico manifestou-se com força irresistível e Tchekhov “traiu” (na suas próprias palavras) a medicina, para se entregar de corpo e alma a literatura.

Entre 1885 e 1887 o escritor começou a deixar de lado o “trabalho apressado” e “miúdo” para dedicar seu enorme talento a uma “obra pensada”, de temática “séria”, da qual não mais se afastou e que iria revelar um dos maiores e mais importantes contistas e dramaturgos da era moderna. Que acabaria por influenciar toda a literatura e dramaturgia ocidental.

Tchecov inventou uma nova forma de escrever contos: “um mínimo de enredo e o máximo de emoção”. Suas histórias eram o contrário das histórias intrigantes, de desfecho inesperado, que predominavam entre os praticantes do gênero, ele preferia criar atmosferas, registrando situações abertas que não se encerravam no fim dos relatos. É o que chamamos hoje de conto moderno. Com uma visão de mundo ora humorística, ora poética, ora dramática, Tchecov captou momentos ocasionais da realidade, fatias de vida, pequenos flagrantes do cotidiano, estados de espírito da gente comum. A genialidade de sua arte está em transformar uma série de incidentes laterais e de pormenores aparentemente insignificantes da existência individual em representações perfeitas do destino humano.

Em 1898, ele casou-se com uma célebre atriz do teatro russo e, em 1904, atacado pela tuberculose, veio a morrer na Alemanha, para onde fora em busca de melhora em seu estado de saúde. Tinha então 44 anos.

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