sexta-feira, 1 de maio de 2009

O derradeiro livro de Alexandre Dumas é editado 180 anos após sua morte

No fim dos anos 80, o pesquisador francês Claude Schopp estava perambulando pelos Arquivos do Sena, em Paris, esperando pela entrega de algum documento. Ele não se lembra do que era. Só sabe que devia ser um papel velho revelando a identidade de um filho bastardo ou de uma amante de Alexandre Dumas (1802-1870), o célebre autor de Os três mosqueteiros. Entediado, abriu uma gaveta e deparou com uma ficha que dizia: “Alexandre Dumas (pai). As dívidas de Josefina”. Schopp é um dos maiores especialistas em Dumas e não conhecia o manuscrito ao qual a ficha se referia. Mas não se abalou. Afinal, seu objeto de estudo foi um dos mais prolíficos escritores do século XIX. Escrevia muito e de tudo – até livros de receita.

O pesquisador fez um pedido para ver o texto original. Era uma carta de Dumas ao jornal Pays defendendo suas afirmações sobre os gastos de Josefina, a primeira mulher de Napoleão Bonaparte. Mas que afirmações eram essas? Schopp foi atrás então do primeiro texto, que teria motivado essa carta. Para seu espanto, não descobriu um artigo de Dumas criticando o consumismo. Era um romance de folhetim. Mais precisamente, 118 capítulos de O cavaleiro de Sainte-Hermine, publicado em vários exemplares do jornal Moniteur Universel durante o ano de 1869, e nunca editado em livro.

A primeira mulher de Napoleão, Josefina, gastava compulsivamente.

Um texto de Dumas sobre suas dívidas levou um pesquisador a encontrar o romance perdido

O choque maior foi quando Schopp percebeu estar diante do último livro de Alexandre Dumas, escrito pouco antes de sua morte, e que fechava seu projeto de romancear toda a história da França desde São Luís (1214-1270). Para ficar nos romances mais conhecidos, os personagens de Os três mosqueteiros (1844) defendem o rei Luís XIII, no século XVII. Já o protagonista de O Conde de Monte Cristo (1844-1846) é um nobre acusado de bonapartismo durante a restauração monárquica, no século XIX. Na obra de Dumas, havia um buraco entre 1799 (ano abordado no romance Os companheiros de Jéu, 1857) e 1815 (quando começa O Conde de Monte Cristo). É um período crucial para a história francesa: o do Consulado, que estendeu os poderes de Bonaparte, e o do Império Napoleônico. O cavaleiro de Sainte-Hermine percorre justamente esse momento.

Claude Schopp não saiu alardeando a descoberta. Ficou enfurnado por 15 anos desenrolando microfilmes do Moniteur Universel, juntando pedaços do folhetim, checando as informações com que Dumas havia sido displicente. E elaborando um final. O escritor havia morrido antes de concluir a história, mas deixou um plano de como ia terminá-la. Schopp se deu a liberdade de imitar o estilo fluido de Dumas e arrematou o episódio incompleto.

Em 2005, O cavaleiro de Sainte-Hermine foi lançado na França, onde teve mais de 65 mil exemplares vendidos. Agora chega ao Brasil pela editora Martins (tradução de Dorothée de Bruchard, R$ 98). Suas 1.048 páginas podem assustar, mas a deliciosa prosa de Dumas é um convite a devorá-las. A aventura do herói, Hector de Sainte-Hermine, é repleta de batalhas, coincidências burlescas, paixões terríveis e bastidores do poder. O romance, como anunciava a carta encontrada por Schopp, começa no Palácio das Tulherias, com Josefina às voltas com faturas de chapéus e vestidos, implorando para Bourrienne, secretário de seu marido (por enquanto o primeiro cônsul da França), quitá-las.

Em O cavaleiro de Sainte-Hermine, Napoleão aparece tirano e glorioso

O herói aparece mais adiante. Hector de Sainte-Hermine é o último membro de uma família nobre dizimada pela Revolução Francesa. Filia-se ao grupo Companheiros de Jéu, contrário a Bonaparte, e jura fidelidade à linhagem real dos Bourbons. Diferentemente de Edmond Dantès, o Conde de Monte Cristo, Hector não é levado à vingança por ódio. Desmotivado, só busca a retaliação contra os revolucionários por obrigação da honra. Napoleão é pintado ricamente por Dumas com um misto de admiração e rancor. Não é à toa: seu pai, general do Exército Revolucionário, foi companheiro de Bonaparte quando este ainda era general. Quando se recusou a participar de uma missão, caiu em desgraça. Com a ascensão de Bonaparte, deixou de receber soldos e morreu pobre. Se O cavaleiro de Sainte-Hermine é sobre uma vingança a contragosto, é também um acerto de contas de Alexandre Dumas com Napoleão.

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