sábado, 2 de maio de 2009

O mal em todas as suas cores


Dostoievski é o escritor cristão mais admirado pelos ateus. O alemão Friedrich Nietzsche, que tinha o cristianismo na conta de uma filosofia moral para escravos, considerava o escritor russo o único psicólogo com o qual aprendera alguma coisa. Sigmund Freud também o admirava e dedicou um ensaio ao tema do parricídio na obra do escritor. Em seu conhecido ensaio O Existencialismo É um Humanismo, de 1946, o francês Jean-Paul Sartre fundamentava toda a sua filosofia em uma frase atribuída a Dostoievski: "Se Deus não existisse, tudo seria permitido". Que autores tão opostos às idéias de Dostoievski tenham admirado sua obra é um testemunho da grandeza de sua ficção. Uma nova tradução de seu último livro, Os Irmãos Karamázov (Editora 34; 1 040 páginas, em dois volumes; 98 reais), feita por Paulo Bezerra, está chegando às livrarias brasileiras. Lançado no fim de 1880 – pouco antes da morte do autor, em janeiro do ano seguinte –, o romance é uma ambiciosa palavra final sobre os temas que obcecavam o escritor desde suas primeiras obras, publicadas nos anos 1840: o bem, o mal e a trágica liberdade humana para escolher entre um e outro.

As traduções anteriores de Os Irmãos Karamázov costumavam vir de outras línguas, especialmente do francês (em 1944, o tradutor Boris Schnaiderman fez sua temerária estréia no ofício, ao verter a última obra de Dostoievski direto do russo – mas nunca quis reeditar a tradução, que considerou falha). A tradução de Paulo Bezerra baseia-se em uma edição crítica da obra de Dostoievski realizada por um time de filólogos russos nos anos 70 – buscava-se, então, corrigir os cortes realizados pelas censuras czarista e stalinista. É, de acordo com o posfácio do tradutor, "a única efetivamente integral em língua portuguesa". Bezerra também buscou respeitar o estilo "às vezes meio tosco" do original. Dostoievski não era propriamente um cultor do mot juste, a palavra exata (o que talvez explique o desprezo que Nabokov, o estilista de Lolita, nutria por Crime e Castigo e Os Irmãos Karamázov). Mas poucos o superam na criação de personagens que vivem no extremo da condição humana – humilhados, atormentados, torturados pela própria personalidade mesquinha.

Tal é o caso da família Karamázov. O pai, Fiódor, é um bêbado e um bufão que conseguiu acumular alguma fortuna graças sobretudo ao matrimônio com mulheres de melhor extração social. Teve três filhos: Dmitri (ou Mítia), do primeiro casamento, e Ivan e Alieksiêi (ou Aliócha), do segundo (e, ao que tudo indica, seria ainda o pai do criado Smerdiakóv, filho da idiota da vila). Negligente, abandonou-os todos. Violento e lascivo, Dmitri saiu ao pai – e disputa com ele os favores de Grúchenka, jovem mulher de má fama. Aliócha é um místico. Vive em um mosteiro ortodoxo, onde segue as orientações do caridoso monge Zossima. Ivan é o mais filosófico e especulativo, um livre-pensador que parece ironizar todos os sistemas religiosos ou filosóficos: flerta com o ateísmo, mas também discute teologia de igual para igual com os monges do mosteiro onde vive seu irmão mais novo, Aliócha. O narrador do romance confere a esse último a distinção de herói da história, mas Ivan é uma figura mais marcante. O capítulo mais conhecido e celebrado do romance, "O grande inquisidor", deve-se a ele. Trata-se de um poema de Ivan (ou, antes, do enredo de um poema que ele deseja escrever, já que não está em versos), no qual Jesus retorna à Terra em Sevilha, no século XVI, e acaba preso pela Inquisição espanhola.

Na famosa frase citada em O Existencialismo É um Humanismo, Sartre faz uma paráfrase meio malandra do pensamento de Ivan (e ainda o atribui ao próprio Dostoievski, que é algo como creditar a Machado de Assis as teorias sociais doidivanas de Quincas Borba). A frase não aparece daquela forma no livro. O que Ivan argumenta é que, se o homem perder sua fé na imortalidade, tudo será permitido, "até a antropofagia". Vários personagens glosam essas palavras ao longo do livro – inclusive o próprio Diabo, no meio de um delírio de Ivan –, o que faz desta uma espécie de idéia condutora da trama. Quando Fiódor, o patriarca dos Karamázov, é assassinado e Dmitri surge como o principal suspeito, essa questão moral abstrata ganha uma premência incontornável, que muito atormentará Ivan.

Dostoievski não era apenas um crente fervoroso (ainda que torturado): também foi um exaltado nacionalista russo, sempre desconfiado de qualquer inclinação "européia" (no pólo oposto da paisagem intelectual russa do período, encontrava-se o cosmopolita Turguêniev, autor de Pais e Filhos). "Ele é russo demais para mim", dizia o escritor polonês-britânico Joseph Conrad. A exaltação ideológica e mística dos personagens de Dostoievski talvez tenha mesmo qualquer coisa de tipicamente "russo". Mas sua obra é também incomodamente universal. A existência do mal, que tanto angustia Ivan, forma com o bem supremo representado por Deus uma equação insolúvel. E ainda mais trágico é que o ateísmo tampouco é uma resposta.

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