sábado, 30 de maio de 2009

Primeiro romance de Juan Carlos Onetti ganha tradução para o português


Em julho, o Brasil recebe, por fim, em português, "O Poço", a primeiro romance publicado pelo uruguaio Juan Carlos Onetti (1909-1994), em 1939.

O lançamento, inédito em território nacional, faz parte das comemorações do centenário de nascimento do autor --em 1º de julho--, chamado de "escritor de escritores" por conta da singularidade de seu estilo e da qualidade que imprimiu aos escritos que ostentaram sua assinatura.

"O Poço", sobre um homem prestes a completar 40 anos que repassa suas memórias em uma noite, chega às livrarias brasileiras pela editora Planeta.
No mesmo volume (R$ 38, 168 págs.), é editada também pela primeira vez em português a novela "Para uma Tumba sem Nome", de 1959, que trata da relação entre um rapaz e uma misteriosa mulher.
Ganhador do Prêmio Cervantes, em 1980, Onetti é citado como referência por autores como Vargas Llosa --que, neste ano, lançou "El Viaje a la Ficción" (a viagem à ficção, ainda sem previsão de lançamento no Brasil), ensaio em que mergulha na obra do uruguaio.
"Sem dúvida, a autenticidade dele o torna admirável por seus pares. Mas há muito mais elementos que têm a ver com o uso da linguagem, com a criação de um mundo, que faz com que ele seja um dos grandes nomes da literatura escrita em espanhol", diz à Folha a uruguaia Hortensia Campanella, editora das "Obras Completas" do autor e uma das maiores especialistas em sua obra.
Em "O Poço", segundo ela, é possível observar "concentradas várias das linhas capitais da obra narrativa do escritor: a figura do sonhador, a atmosfera de decadência e insatisfação, um existencialismo precoce para o século 20 que pode ser associada mais com Dostoiévski do que com Sartre".
Já "Para uma Tumba sem Nome" é um "marco em relação ao ciclo de narrativas em torno de Santa María, esse território mítico que Onetti cria como sustentáculo de suas histórias". Na novela, surgem vários personagens recorrentes em textos seguintes, como Dr. Díaz Grey ou Jorge Malabia.
Visão panorâmica
Para Rogério Alves, gerente editorial da Planeta no Brasil, o lançamento simultâneo dos dois textos do autor possibilita uma "visão panorâmica interessante, é como assistir ao desenvolvimento de todo um estilo num mesmo livro".
Além desses títulos, a editora prepara ainda para julho uma reedição em novo formato e com novas capas de "Vida Breve" (1950), "O Estaleiro" (1961) e "Junta-Cadáveres" (1964).
Os lançamentos no Brasil inauguram a coleção Planeta Literário, que contará com obras não só do criador da portuária e lúgubre Santa María mas também de autores como o espanhol Juan José Millás, o colombiano Mário Mendoza e a neozelandesa Janet Frame, mais para o final do ano. O objetivo é publicar escritores de destaque da cena literária nacional ou internacional, sem restrições de região ou idioma.
Na Espanha
Onetti não reaparece inédito só no Brasil. O conto "El Último Viernes" (a última sexta-feira), doado em março pela filha do escritor, Isabel María "Litty" Onetti, à Biblioteca Nacional do Uruguai, estará no terceiro e último volume das "Obras Completas" do autor, editadas na Espanha pela Galaxia Gutenberg/Círculo dos Leitores.
"É um texto que em vida ele não publicou e permaneceu em poder da filha. Porém, ao se tornar pública sua existência, é natural que apareça nas 'Obras Completas'", diz Hortensia Campanella, que coordena desde 2006 a série com romances e textos do autor.
Também diretora do Centro Cultural de Espanha em Montevidéu, Campanella afirma que o volume terá ainda outros trechos inéditos.
"Ainda que Onetti se encarregasse de eliminar os textos que não desejava publicar, nesse volume incluímos alguns que encontrei entre seus papéis", diz Campanella.
Em sua versão original, o conto está escrito a lápis e tem cinco páginas, concluídas por volta de 1950. O material já havia sido exposto em 2006, em Montevidéu, na exposição "Onetti: una Larga Confesión" (uma extensa confissão), acompanhado de fotos, livros, documentos e objetos do escritor.
A previsão é de que o livro saia da gráfica ainda neste semestre. Na América Latina, sairá pela editora Sudamericana.
Veja trecho da tradução a seguir.
"Parei de escrever para acender a luz e refrescar os olhos, que ardiam. Deve ser o calor. Mas agora quero fazer algo diferente. Algo melhor que a história das coisas que aconteceram comigo. Gostaria de escrever a história de uma alma, dela sozinha, sem os acontecimentos em que teve de se envolver, querendo ou não. Ou dos sonhos. Desde algum pesadelo, o mais longínquo que eu lembre, até as aventuras na cabana de troncos.
Quando estava na fazenda, sonhava seguidas noites que um cavalo branco pulava em cima da cama. Lembro de alguém falando que a culpa era do José Pedro, porque ele me fazia rir antes de deitar, assoprando a lâmpada elétrica para apagá-la.
O curioso é que, se alguém dissesse de mim que sou ´um sonhador`, isso me incomodaria. É absurdo. Vivi como qualquer um, ou mais. Se hoje quero falar dos sonhos, não é porque não tenha outra coisa para contar. É porque me deu vontade, não por alguma razão especial.
Existem outras aventuras mais completas, mais interessantes, mais bem-ordenadas. Mas fico com a da cabana porque vai me obrigar a contar um prólogo, algo que aconteceu no mundo dos fatos reais há uns 40 anos. Poderia ser um plano, também, ir contando um ´acontecimento` e um sonho. Ficaríamos todos contentes."

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