quarta-feira, 24 de junho de 2009

Cientistas pesquisam o verdadeiro Robinson Crusoé

Gerações de crianças ficaram hipnotizadas pelas explorações de Robinson Crusoé, mas poucas pessoas têm consciência da figura da vida real que inspirou o clássico. Agora, 300 anos após ter deixado sua ilha-prisão, cientistas descobriram como o verdadeiro Crusoé conseguiu sobreviver.

O que era aquilo? Um fogo queimando em uma ilha deserta do Pacífico Sul? No dia seguinte, o capitão do navio pirata inglês Duke, enviou um grupo armado para ilha para investigar. Quando os homens retornaram, trouxeram duas surpresas: um grande número de lagostas e uma criatura em farrapos.

A figura que subiu a bordo do Duke no dia 2 de fevereiro de 1709 aparentemente era humana, mas tão selvagem quanto um animal, descalça e coberta com pele de cabra. A criatura, extremamente agitada, só era capaz de gaguejar poucas palavras, quase incompreensíveis a princípio, mas suficientes para torná-la imortal.

Em seu romance, primeiramente publicado em 1719, Daniel Defoe batizou o náufrago de "Robinson Crusoé". Mas o verdadeiro Robinson chamava-se Alexander Selkirk. Era escocês, sétimo filho de um sapateiro de uma aldeia perto de Edimburgo. Ele tinha passado quatro anos e quatro meses em Más a Tierra, ilha varrida pelo vento no arquipélago de Juan Fernandez, a 650 km da costa do Chile. Ele estava tão só quanto um ser humano pode estar. Para Selkirk, não havia o "sexta-feira", personagem que Defoe criou em seu romance.

Diferentemente de seu equivalente literário, Selkirk não era um náufrago. Seu capitão simplesmente o abandonou após uma longa briga. Ele deve ter olhado em espanto enquanto seu navio partia no horizonte. Entre os poucos itens que manteve estavam alguns artigos de roupa, uma faca, um machado, um revólver, aparelhos de navegação, uma panela, tabaco e uma Bíblia.

No 300º aniversário de sua volta para a sociedade, os cientistas agora podem pintar um quadro claro da existência de Selkirk na ilha. Eles acreditam saber como e onde ele morava, parcialmente por meio de seus objetos recém descobertos. Sua vida após ser resgatado também pôde ser reconstruída, fornecendo um retrato do verdadeiro Robinson que nem sempre é enaltecedor -mas ainda assim típico dos marginais que partiam para os mares naqueles tempos.

Selkirk era um pirata bêbado, violento e de pavio curto. Nascido em uma família problemática, fugiu para os mares quando tinha apenas 17 anos. Trabalhando em navios privados no Mediterrâneo e no Caribe, ele roubava espanhóis e franceses. Apesar de não ser burro e ter subido para a posição de navegador, seu temperamento era precário. Selkirk aparentemente sempre teve dificuldades para lidar com outras pessoas, o que talvez tenha sido precisamente a razão para que aguentasse seu confinamento solitário na ilha com tanto sucesso.

David Caldwell, 57, é arqueólogo do Museu Nacional Escocês de Edimburgo. Seu campo em geral é história escocesa, que ele estuda do conforto de seu escritório. Entretanto, quando Daisuke Takahashi, fanático por Robinson Crusoé, pediu-lhe que viajasse com ele para a ilha do pirata abandonado, foi uma oferta que não pôde resistir.

O entusiasta Takahashi tinha obtido fundos da National Geographic Society para sua expedição, mas precisava de um verdadeiro acadêmico como seu parceiro. Caldwell certamente era bem qualificado. Duas das relíquias mais famosas de Selkirk estavam na coleção de seu museu: um recipiente para água que o pirata pode ter esculpido ele mesmo, e um baú do Norte da Itália, que Selkirk teria capturado no Mediterrâneo, segundo Caldwell.

Os dois homens passaram mais de um mês na ilha, que foi oficialmente rebatizada de ilha Robinson Crusoé em 1966. Ainda é um local silencioso que hoje abriga cerca de 600 pessoas, na maior parte pescadores de lagostas. Tem duas ruas de terra e duas dúzias de veículos. Não tem restaurantes nem bares. Cruzeiros ocasionalmente lançam âncora em Robinson Crusoé, na rota das ilhas Galápagos para a Terra do Fogo.

A ameaça espanhola
Caldwell e Takahashi recentemente descreveram suas descobertas na revista acadêmica "Post-Medieval Archaelogy". Eles escavaram em um ponto que Takahashi, que tinha visitado a ilha antes, acreditava ser o acampamento de Selkirk: uma clareira bem protegida em um morro vulcânico, quase 300m acima do nível do mar, cercada de arbustos. Selkirk escolheu não morar na praia porque era perigoso demais. Apesar de não temer canibais, como fazia Robinson Crusoé no romance, os espanhóis eram uma ameaça. Eles o teriam matado ou escravizado.

A equipe logo descobriu os restos de um baú de munição espanhol. Os espanhóis tinham ocupado a ilha em 1750 para impedir que seus inimigos continuassem a usá-la como porto seguro. Entretanto, Caldwell encontrou duas antigas fogueiras mais antigas abaixo da câmara -e ossos carbonizados nelas.

Em torno do local, os pesquisadores encontraram buracos na terra que aparentemente tinham acomodado postes. Talvez Selkirk tivesse construído uma cabana ali, conjeturaram. Quando Caldwell peneirou a terra escavada, descobriu a maior evidência da presença de Selkirk: uma peça de bronze angular, com 1,6 cm. Ele não deu importância à descoberta a princípio, até compreender que o formato do metal se encaixava com um braço de um divisório, que era parte do equipamento de navegação de Selkirk.

Caldwell acredita que o pirata usou seu divisório como ferramenta e o danificou no processo. Um teste metalúrgico revelou que o metal poderia ter vindo de Cornwall. "Esse é o tipo de evidência forte que raramente se tem na arqueologia", disse o historiador.

Diante do acampamento, havia uma forte subida de outros 300 metros para o posto de observação de Selkirk no topo da montanha, onde provavelmente passava várias horas por dia. Se visse um barco, tinha que decidir se pertencia a um amigo ou inimigo. Deveria acender o fogo ou permanecer escondido? Eles viram alguns navios e dois deles, ambos espanhóis, aportaram na ilha -mas ele conseguiu permanecer incógnito.

Os primeiros oito meses foram difíceis para Selkirk, um pirata em busca de ouro e aventuras, que caiu em depressão. Entretanto, com o tempo, ele começou a criar um lar.

De todas as ilhas nas quais Selkirk poderia ter sido abandonado, essa era praticamente feita sob medida para um sobrevivente. Sua vida logo melhorou, estava melhor do que jamais fora e talvez do que jamais viria a ser. Ele era um prisioneiro, porém mais livre do que nunca.

O clima era ameno na maior parte do ano, em geral seco, não havia animais perigosos nem venenosos e havia riachos de água doce. Focas gordas descansavam na praia, lagostas e variedades de peixes ocupavam as lagoas e plantas comestíveis prosperavam na ilha, inclusive morangos silvestres, agrião, uma forma de pimenta e uma planta com gosto de repolho. A única coisa que não havia era sal, como disse mais tarde àqueles que o resgataram.

Cabras, gatos e ratos
Selkirk não foi a primeira pessoa a morar ali. Em 1575, exploradores espanhóis trouxeram cabras para a ilha, e navios subsequentes trouxeram gatos e ratos, assim como rabanete e nabo. Selkirk domou gatos selvagens para que pudessem defendê-lo contra os ratos que mordiam seus pés à noite. Entretanto, um rebanho de cabras selvagens tornou-se sua maior fonte de divertimento.

Caçar cabras tornou-se um esporte para Selkirk. Ele aprendeu a correr mais do que elas e jogá-las no chão enquanto corriam. Ele soltou muitas, mas, conforme contou, matou 500 para comer a carne e tirar a pele. Ele até registrou cada cabra que matou.

Ele deve ter satisfeito suas urgências sexuais com a masturbação, apesar de haver algum debate entre especialistas se não teria feito sexo com as cabras. Para satisfazer sua necessidade de comunicação, Selkirk lia a Bíblia, rezava, meditava e cantava hinos. Ele confidenciou que nunca fora tão bom cristão como na ilha, e duvidava que jamais o seria novamente.

Selkirk, com 30 e poucos anos, tinha saúde bem melhor do que os marinheiros que o resgataram. Metade da tripulação tinha contraído escorbuto após uma dura viagem da Inglaterra. Entretanto, Selkirk se movia com facilidade. As solas de seus pés tinham se tornado tão grossas que corria mais do que o cão do barco no terreno pedregoso de sua ilha vulcânica. No princípio, ele não conseguiu vestir sapatos -nem tolerar o rum.

Por quase três anos, Selkirk navegou pelo mundo com os piratas que o resgataram. Eles lutavam, roubavam e extorquiam seus inimigos -tudo com a bênção da Coroa, porque suas vítimas eram inimigas do país. No final de 1711, Selkirk voltou para a Inglaterra com uma pequena fortuna. Ele se tornou celebridade instantânea, trocando suas histórias por comida e bebida nos bares. O arqueólogo Caldwell acredita que foi aí que Daniel Defoe o encontrou.

Selkirk, porém, estava infeliz no mundo civilizado e sentia falta da sua ilha. Ele teria dito a um jornalista: "Agora tenho 800 libras, mas nunca novamente serei tão feliz como era na época, quando não tinha nenhum centavo". Ele bebia e brigava e casou-se com duas mulheres ao mesmo tempo. Eventualmente, ele fugiu de volta para o mar, desta vez como tenente da marinha.

Sua vida chegou a um fim abrupto aos 45 anos. No dia 12 de dezembro de 1721, ele morreu de febre amarela na costa oeste da África, e foi sepultado no mar. Robinson Crusoé já era um sucesso na época. Hoje o trabalho de Defoe é celebrado como o primeiro romance de língua inglesa.

Há um mistério de Selkirk que ainda não foi resolvido. De acordo com os relatos de suas viagens, o pirata mantinha um diário em Más a Tierra. O diário também é mencionado em uma carta de uma de suas viúvas. Mas o que aconteceu com suas notas?

O arqueólogo Caldwell tem uma teoria. Pouco após a morte de Selkirk, seus escritos caíram nas mãos do duque de Hamilton, o nobre mais rico da Escócia. Quando seus descendentes precisaram de dinheiro, no século 19, eles leiloaram as pinturas e coleções na Christie's, em Londres. O império germânico nascente foi um importante comprador no leilão.

A teoria de Caldwell sugere que, se o diário do verdadeiro Robinson Crusoé ainda existe, deve estar em algum lugar em Berlim hoje. "Especularia que está em uma prateleira esquecida na Biblioteca Estadual de Berlim - Herança Cultural Prussiana", diz Calwell.

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