quarta-feira, 17 de junho de 2009

Francesa que relatou orgias sexuais em livro diz que ama o Brasil

A francesa Catherine Millet, 51, sempre teve sólida reputação como crítica de arte, editora e intelectual. Porém, após expor sua vida privada em dois livros, ela causou alvoroço no mundo literário. Primeiro, ela escancarou sua intimidade para o mundo em "A Vida Sexual de Catherine M." (Ediouro, 2001), no qual relata detalhes de suas aventuras sexuais, da perda da virgindade a orgias com 150 pessoas. Depois, como se lhe ocorresse o inverso do sentimento de prazer, ela mostra às pessoas a desordem dos órgãos causada pelo ciúme, em "A Outra Vida de Catherine M.", que será lançado neste ano pela Ediouro.

Millet, que disse em entrevista à Folha Online que "ama o Brasil", participa da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) deste ano, que ocorre entre os dias 1º e 5 de julho, onde discutirá seu livro e suas ideias com a psicanalista Maria Rita Kehl.

"A Vida Sexual de Catherine M." marcou a figura de Millet como uma mulher libertária, segura, generosa com seu próprio corpo. Numa linguagem propositadamente neutra, ela explica sua divisão em dois corpos: um físico, apenas para explorar o prazer, do qual fazia uso em estacionamentos, cemitérios, parques e até mesmo no escritório da "Art Press". E um corpo amoroso, reservado apenas para o marido, o escritor Jacques Henric.

O livro dividiu a crítica e levou a escritora a viajar pelo mundo. Os direitos autorais do livro foram comprados em diversos países, chegando a vender 1,2 milhão de cópias. Porém, em 2008, Millet voltou a surpreender o público francês, ao confessar ter desabado frente ao ciúme que sentia do marido.

Quer dizer que uma mulher tão liberal com sua própria sexualidade tinha ímpetos de censurar as aventuras do marido? Sim. Ao descobrir que Henric também tinha seus encontros amorosos, Millet sucumbiu. Entre revirar a correspondência do marido e segui-lo quando saía de casa, a escritora começou a ter uma permanente sensação de sufocamento e o descontrole que, reconhece ela, é provocado por um ciúme doentio e destruidor.

Numa tentativa de se fazer entender por si mesma e pelo marido, Millet narrou seu encontro com o "monstro de olhos verdes" em "A Outra Vida de Catherine M.". O resultado é uma descrição transparente sobre uma dor muitíssimo conhecida e quase incontrolável. Mais do que isso, é um enfrentamento de contradições.

Leia íntegra da entrevista concedida com exclusividade à Folha Online, por e-mail.

Folha Online - Por que a senhora decidiu aceitar o convite para a Flip? Quais são suas expectativas? A senhora conhece Edna O'Brien, a escritora irlandesa com quem debateria no evento?

Millet - Porque não aceitaria o convite de um país que amo, do qual tenho boas lembranças e que acolheu meu livro muitíssimo bem? Além disso, é uma excelente ocasião para encontrar Edna O'Brien, que é uma mulher muito audaciosa.

Folha Online - A senhora é muito reconhecida por seu trabalho como crítica de arte e como editora da revista "Art Press". Como começou sua relação com o mundo das artes plásticas?

Catherine Millet - Eu tinha apenas 20 anos quando publiquei meu primeiro artigo sobre arte, no jornal "Les Lettres Française", dirigido por Loius Aragon. Eu vinha de uma família da pequena burguesia que não tinha contato com o mundo das artes. Apesar disso, me interessei pelo assunto muito cedo. Como presente de Natal eu sempre pedia livros de arte.

Folha Online - Depois da publicação de "A Vida Sexual de Catherine M." houve uma série de entrevistas que descreveram a senhora como alguém surpreendente: uma mulher elegante, muito clara em suas opiniões e pontos de vista, e até mesmo tímida, de vez em quando. Houve mesmo quem dissesse que a senhora era, em pessoa, uma verdadeira contradição com a Catherine Millet retratada no livro. A senhora acredita que essa contradição exista de fato? O livro evidencia uma face desconhecida de Catherine Millet?

Millet - Felizmente somos todos repletos de contradições! Se não, seríamos personagens monolíticos ou estereotipados, como personagens de histórias em quadrinhos. Se o livro revela uma 'face desconhecida' de minha vida, isso ocorre simplesmente com o público, que podia me conhecer apenas por meio de meus textos sobre arte. Pois eu nunca escondi meu modo de vida em relação a meus amigos, nem mesmo em relação a meus colegas de trabalho. Eu não faço alarde, mas também não me escondo.

Folha Online - Por que a senhora escolheu [o pintor catalão] Salvador Dalí como objeto dos seus estudos? Existe algum tipo de ligação com essa ideia de liberdade que lhe parece tão cara?

Millet - Eu quis conhecer Salvador Dalí como um escritor. É um pintor formidável, muito célebre, mas não se conhece seus escritos, que são de uma inteligência extraordinária. Uma das coisas que me interessou em seus escritos é que ele fala com muita franqueza de sua sexualidade, de seu medo do sexo feminino, de masturbação, de seus fantasmas etc. Além disso, eu quis compreender como ele havia construído seu personagem midiático, de uma maneira narcisista, mas que ainda assumia riscos.

Folha Online - O que trouxe para a senhora a motivação para escrever "A Vida Sexual de Catherine M."? A repercussão do livro foi uma surpresa? Mudou alguma coisa em sua vida?

Eu sempre disse que quis escrever esse livro para fazer um testemunho verdadeiro da sexualidade de uma mulher. Não quis escrever um livro erótico, ou seja, escrever uma história mais ou menos idealizada, fantasiada, que pudesse excitar os leitores e as leitoras. Ao contrário, quis entregar um relato realista. Sim, o sucesso foi uma surpresa, mas não mudou muita coisa em minha vida. Exceto pelo fato de que percorri o mundo inteiro para discutir sexualidade com públicos extremamente diferentes, e isso foi muito divertido. Enfim... Posso dizer que uma coisa de fato mudou em minha vida: minha vida sexual é muito mais saudável! Talvez seja porque envelheci. Talvez seja também porque quando você escreve sua vida, ela se torna qualquer coisa da qual você não faz mais parte. Catherine M. se tornou um personagem, ela não é mais eu. Se eu continuasse a viver como ela, teria a impressão de imitá-la!

Folha Online - Atualmente qual é seu ponto de vista sobre a questão da liberdade sexual? A senhora acredita que seu livro trouxe algo de novo para o debate sobre este tema?

Millet - Acredito que, por definição, a libido ignora todos os constrangimentos, e que é ela que perturba permanentemente os sentimentos e as regras sociais. Mas claro, cada um canaliza essa energia em função de sua própria moral. Francamente, não sei se trouxe algo de novo para o debate. Digamos que, no mínimo, meus livros testemunham a experiência de alguém que tinha 20 anos na época da revolução sexual e que viveu essa época plenamente.

Folha Online - A senhora acredita que, atualmente, as mulheres estão mais preparadas para aceitar a ideia do sexo dissociada do amor ou do romantismo?

Millet - Durante os séculos, e ainda hoje em algumas civilizações, as mulheres se casaram com homens que não amavam e com os quais eram obrigadas a "fazer amor". E, frequentemente, para não cometer o pecado do adultério, elas tinham que se contentar com o amor platônico em relação a um amante. Portanto, as mulheres sabem desde sempre que há um fosso entre o amor e o sexo. Essa ideia de que as mulheres não encontrariam o prazer sexual se não fosse em uma relação amorosa é um clichê, uma invenção ideológica para certificar os homens numa época em que as mulheres são, quando muito, muito menos submissas às leis sociais e religiosas do casamento, são muito mais independentes.

Folha Online - A liberdade é algo que parece ser de extrema importância para a senhora. Como conduzi-la com o casamento, descrito tantas vezes como uma prisão?

Millet - Que definição engraçada de casamento! Pode ser que haja pessoas para quem o casamento não é uma prisão. Pode ser que algumas mulheres, por exemplo, tenham escapado de um núcleo familiar que era uma prisão e tenham encontrado maior liberdade no casamento. De minha parte, creio que é preciso em um casamento reconhecer absolutamente a liberdade do outro, o que é a coisa mais difícil de se fazer!

Folha Online - A senhora sempre confiou em sua memória para escrever? Não há nada de fictício em seus livros? É possível chamá-los de "livros de memórias"?

Millet - Eu sou extremamente escrupulosa. Se não estou certa de minhas lembranças, começo a perguntar para meus amigos para verificar os fatos. E o interesse de meu livro é que seja justamente um livro de memórias, nunca um romance.

Folha Online- "A Outra Vida de Catherine M." é quase que uma continuação de "A Vida Sexual de Catherine M.". A ideia de escrevê-lo, segundo a senhora, surgiu de uma página do próprio "... Catherine M.', que trata da questão do ciúme. Por que pareceu importante escrever uma obra dedicada ao sofrimento que o ciúme produz?

Millet - Essa é uma forma de chegar ao âmago do meu projeto. O ciúme é um sentimento intrinsecamente ligado à vida sexual. Minha filosofia libertária não me impediu de conhecer esse ciúme. Se eu queria ser honesta, tinha a obrigação de dizer isso.

Folha Online - "A Outra Vida de Catherine M." é também um livro baseado em suas experiências; foi muito difícil escrevê-lo, ou esse processo trouxe uma certa liberdade em relação ao sofrimento e ao ciúme?

Millet - Ah, foi muito mais difícil escrever "A Outra Vida de Catherine M." do que "A Vida Sexual...", porque sou muito mais pudica com meus sentimentos do que com meu corpo. Mas faço parte daquele grupo de autores que, para escrever, devem estar muito libertos daquilo que desejam contar. O tempo verbal que utilizo é sempre o imperfeito. Eu confio muito na escrita terapêutica.

Folha Online - A senhora diria que a contradição é uma das faces mais interessantes do ser humano? Como trabalha com suas próprias contradições?

Millet - Existe uma expressão em francês: "Eu ponho as cartas na mesa". É a única forma de tentar tornar as coisas interessantes. Se você negá-las, elas te devoram.

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