quinta-feira, 18 de junho de 2009

Machado de Assis a serviço da censura


O dever manda arredar da cena dramática todas aquelas concepções que possam perverter os bons sentimentos e falsear as leis da moral.” A frase é do mais respeitado escritor brasileiro, mas não consta de nenhum de seus livros, contos ou artigos em jornais. A pérola moralista faz parte de um parecer emitido pelo Conservatório Dramático Brasileiro, órgão oficial do Império responsável pela censura de peças de teatro. Datado de 1862 e assinado por Joaquim Maria Machado de Assis, o documento condenou ao anonimato o aspirante a escritor J.R. Pires de Almeida e sua peça Os Espinhos de uma Flor, que jamais foi encenada.

Machado de Assis, na época um jovem jornalista, trabalhou como censor dos 22 aos 24 anos e emitiu pareceres sobre 16 peças de teatro. Sempre com uma lâmina afiada, às vezes, limitou-se a barrar expressões chulas e diálogos picantes. Em outros momentos, sugeria mudanças no enredo. Na peça Mistérios Sociais, do português César Lacerda, o personagem principal teve de ser trocado. No original, o protagonista é o ex-escravo Lucena, que mantém um romance com uma baronesa. “Nas condições de uma sociedade como a nossa, esse modo de terminar a peça deve ser alterado”, escrevou Machado.

Esses e outros 3 mil pareceres estão sendo identificados e catalogados pela Biblioteca Nacional.

Peças Condenadas

Peças condenadas - Os Nossos Íntimos, comédia em quatro atos do francês Victorian Sardou

Cortes do Machado - “O caderno em que está escrita a comédia parece haver saído de uma taverna, tal é seu aspecto imundo e pouco compatível com a decência do Conservatório Dramático”

Peças condenadas - As Conveniências, do brasileiro Quintino Francisco da Costa

Cortes do Machado - “Tais doutrinas proclamam-se no drama, tal exaltação se faz da paixão diante do dever, que é um serviço à moral proibir a representação desta peça”

Peças condenadas - A Mulher que o Mundo Respeita, comédia do jornalista paulista Verediano Henrique dos Santos Carvalho

Cortes do Machado - “É um episódio imoral, sem princípio nem fim. Pelo que respeita às condições literárias, ser-me-á dispensada qualquer apreciação: é uma baboseira, passe o termo”

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