quarta-feira, 22 de julho de 2009

A discreta sensualidade de Machado de Assis


Criador de uma rica galeria feminina, Machado de Assis não costumava tratar do sexo em termos francos – mas tinha lá seus fetiches, como se vê na galeria abaixo:

Olhos

"Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. (...) Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca."
Esses são os olhos de Capitu, de Dom Casmurro — exemplo mais célebre da mulher de olhar dúbio. Também Sofia, em Quincas Borba, tinha os "olhos mais belos do mundo"

Busto
"O corpinho apertado desenhava naturalmente os contornos delicados e graciosos do busto. Via-se ondular ligeiramente o seio túrgido, comprimido pelo cetim."
Lívia, em Ressurreição. O busto, o colo dos seios são o que de mais francamente "sexual" a mulher podia expor então

Cintura e cadeiras
"Ela, em verdade, estava nos seus melhores dias; o vestido sublinhava admiravelmente a gentileza do busto, o estreito da cintura e o relevo delicado das cadeiras."
Sofia, de Quincas Borba. A cintura fina era o padrão de beleza na época – daí os espartilhos e coletes de barbatanas

Mãos
"As mãos, a despeito de alguns ofícios rudes, eram curadas com amor, não cheiravam a sabões finos nem águas de toucador, mas com água do poço e sabão comum trazia-as sem mácula."
Capitu, em Dom Casmurro. A pele imaculada aqui é um indicador social: ainda que pobre, Capitu cuida para que as mãos não revelem seus "ofícios rudes"

Braços
"Não estando abotoadas, as mangas, caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muito claros, e menos magros do que se poderiam supor. (...) As veias eram tão azuis, que, apesar da pouca claridade, podia contá-las do meu lugar."
Conceição, do conto Missa do Galo. Os braços nus são um fetiche de Machado – não por acaso, autor de outro conto intitulado Uns Braços

Pés
"Lucinda sabia que tinha um pé formoso, esguio, leve, como devem ser os pés dos anjos, um pé alado, quando ela valsava e deixava entrevê-lo todo no meio dos giros em que se deixava ir."
Do conto D. Mônica. A ponta das botinas era só o que se entrevia do corpo feminino escondido pelos longos vestidos

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