segunda-feira, 27 de julho de 2009

Literatura engajada

Grandes escritores sempre lutaram por justiça, igualdade e liberdade, certo? Nem todos. Alguns dos maiores nomes da literatura do século 20 abraçaram a causa errada e escolheram o lado escuro da força.


O francês Louis-Ferdinand Céline, um dos maiores mestres do romance contemporâneo, era nazista. O americano Ezra Pound, modernista que redefiniu o conceito de poesia, era fascista. Jorge Luis Borges, o primeiro latino-americano a influenciar europeus e americanos, apoiou ditaduras militares em seu país, a Argentina, e no Chile do general Pinochet. Jorge Amado, durante décadas o principal nome da literatura brasileira, louvou o sanguinário líder soviético Josef Stálin (e antes disso foi redator do jornal nazista Meio-Dia).

Estranho? Para a maioria das pessoas, escritores são caras com mentes privilegiadas e cadeira cativa na Liga da Justiça. Em seus livros defendem minorias, invocam os princípios democráticos e lutam – com unhas, dentes e estilo – pela liberdade de expressão. Mas no turbulento século 20, em que as idéias estavam em ebulição, muitos deles foram colocados à prova. Alguns passaram no teste com galhardia, seguindo o exemplo do francês Émile Zola, que tomou o partido do capitão Dreyfuss em meio a uma conspiração anti-semita na França no século 19. Gente como o dramaturgo irlandês Samuel Beckett, que conjurou contra a ocupação nazista em Paris durante a Segunda Guerra. Ou o filósofo Jean-Paul Sartre, que pregou o fim do colonialismo europeu na África, nos anos 60. Causas justíssimas das quais ninguém teria coragem (ou cara-de-pau) de subtrair uma vírgula.

Mas há outros cujas escolhas políticas e ideológicas parecem contradizer a noção do escritor como “campeão da justiça”. E abraçaram causas equivocadas e infames. Deram apoio a duvidosos líderes políticos. Justificaram regimes genocidas e ajudaram a sustentar estados autoritários. Foram, sob certo ponto de vista, escroques consumados.

Como artistas cuja sensibilidade e percepção da vida alcançaram níveis estratosféricos em suas obras conseguiram mergulhar tão baixo no lodaçal do racismo, da opressão, da injustiça e da legitimação do assassinato estatal? Por que eles ao menos não ficaram quietinhos em suas escrivaninhas, produzindo as obras-primas que o mundo esperava deles? Não há resposta. Até porque, pelo menos nas obras desses autores, não há evidências dessas escolhas temerárias.

Às vésperas da Segunda Guerra (1939-1945) e do plano nazista da “Solução Final” – que condenou à morte judeus, ciganos, homossexuais e deficientes físicos e mentais –, o francês Louis-Ferdinand Céline (1894-1961) exalava a pestilência do racismo em seus escritos. Autor de Viagem ao Fim da Noite, um dos romances mais influentes da história das letras, Céline publicou Bagatelas por um Massacre (1937) e Os Belos Trapos (1938), dois panfletos que estão entre os textos mais odiosos da história. Sem cerimônia, o escritor chama os judeus de “esterco” e “lixo a ser varrido do chão da história”. Em 1943, no auge do genocídio na Europa, Céline reeditou o primeiro texto acrescido de fotografias. Era sua declaração de apoio ao holocausto.

Médico de formação (e bom médico, que tratava com zelo a população pobre de sua vizinhança), Céline apoiou o trabalho sujo dos invasores nazistas e fez parte do grupo de franceses que aplaudiu Hitler e os campos de concentração. Preso na Dinamarca, após a guerra, só pôde voltar à França em 1951, onde morreria esquecido dez anos depois.

Ezra Pound (1885-1972) não conheceu um único dia de sossego em vida. Celebrado como um dos poetas mais importantes do modernismo em língua inglesa, fez parte da “geração perdida” – aquele grupo de artistas americanos que ajudou a sacudir a Europa depois da Primeira Guerra –, trocando figurinhas com Ernest Hemingway e com o irlandês James Joyce.

Ele estava em Roma quando subiu ao poder o ditador fascista Benito Mussolini e ficou fascinado pelos ideais de ordem e autoridade do fascismo. Pound colaborou, no início da Segunda Guerra, com revistas anti-semitas da Itália e do Japão. Fez mais. Entre janeiro de 1941 e julho de 1943, fez um bico como locutor radiofônico para o governo de Mussolini. Durante os sete minutos de transmissão (pelos quais recebia 17 dólares), Pound amaldiçoava os judeus e louvava Il Duce e o Führer. Dizia coisas pavorosas, alimentando o ódio racial e conclamando os italianos à destruição das raízes judaicas da Europa.

No pós-guerra, Pound comeria a pizza que o diabo amassou. No final de abril de 1945, foi preso em casa por dois soldados da resistência italiana e encaminhado para Gênova, onde seria interrogado pelas autoridades americanas, que o haviam indiciado por traição em 1943. Firme em suas convicções, comparou Hitler à mártir francesa Joana D’Arc. Após os interrogatórios, foi encaminhado ao campo de prisioneiros de Pisa. Encarcerado numa jaula de 3 metros quadrados, sob o sol e ao relento, Pound virou um fiapo de gente e teve que ser encaminhado para um sanatório, depois para um hospital nos Estados Unidos. Libertado no final dos anos 50, nunca mais faria grandes livros.

Com antepassados entre oficiais que ajudaram a tornar a Argentina independente, Jorge Luis Borges (1899-1986) acreditava ter motivos sólidos para apoiar os militares quando estes tomaram o poder em 1976. Além do amor livresco pelos relatos de grandes batalhas nos clássicos gregos, nas sagas escandinavas e até mesmo em Os Sertões, de Euclides da Cunha (de quem era fã), Borges odiava os líderes populistas como Juan Domingo Perón, que rebaixou o então funcionário da biblioteca pública Miguel Cané a mero fiscal de coelhos e galináceos do mercado municipal de Buenos Aires nos anos 40. Humilhação que calou fundo no coração do escritor.

Mas foi durante a década de 70 que Borges – já reconhecido mundialmente por livros como Ficções e O Aleph e saudado como um dos mestres do conto moderno – despertou o ódio da esquerda e provocou estupor em seus leitores quando, além de elogiar a quartelada em seu país, foi ao Chile receber, das mãos do sanguinário general Augusto Pinochet, um prêmio por sua contribuição à literatura. Perto de outros autores que flertaram com o Mal, porém, Borges é um amador. Grande parte de seus admiradores perdoou-lhe ainda em vida a adesão à caserna, por se tratar mais de reação à humilhação do passado que convicção política.

“Convicção” e “política”, aliás, eram palavras corriqueiras no vocabulário do baiano Jorge Amado (1912-2001). Comunista convicto e, mais que isso, stalinista, o criador de Dona Flor e seus Dois Maridos e de outros retratos apimentados da vida na Bahia tinha verdadeiro fascínio pela figura do ditador soviético Josef Stálin (1879-1953) – um tirano feroz que condenou à morte milhões de pessoas e aprisionou, torturou e fez desaparecer centenas de escritores e artistas de seu país. Num de seus livros, Jorge Amado chamou Stálin de “sábio dirigente dos povos do mundo na luta pela felicidade do homem sobre a Terra”. Uau!

Tem como piorar? Em 1940, quando Stálin surpreendeu meio mundo ao firmar com Hitler um pacto de não-agressão, deixando assim a Polônia nas mãos dos nazistas, o Partido Comunista Brasileiro designou Jorge Amado para a direção do jornal nazista Meio-Dia. Em pleno país tropical, com toda nossa mistura de raças, nosso dengo e nosso ziriguidum, o pai de Gabriela, Cravo e Canela tocava um jornal que estampava louvações ao líder nazista e propagandeava a vida sob os coturnos do III Reich. A seu favor, Jorge Amado abandonaria a militância no PCB em 1955, depois da morte de Stálin e quando começaram a transpirar as muitas evidências da sanha homicida e dos desmandos truculentos do líder da antiga União Soviética. Pulou do barco a tempo.

Tão paradoxal quanto Jorge Amado, o cronista e dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980) era mesmo um oceano de contradições. Criador do teatro brasileiro moderno a partir de Vestido de Noiva (1943) e com várias peças censuradas por causa de seus personagens imersos numa espiral de desejo, culpa e vingança, Nelson pessoalmente era careta, moralista e conservador. Até aí, nada de mais: o artista não precisa ser uma cópia de sua obra. Mas a porca torceu o rabo a partir de 1964, quando ele começou a ridicularizar a esquerda e a louvar os presidentes militares (principalmente Médici, que gostava e entendia de futebol, assunto maioral na obra de Nelson) em crônicas que até hoje encantam pelo estilo fulgurante e pelo ponto de vista sempre original.

Nelson viveu um doce namoro com a turma verde-oliva de Brasília até 1979, quando descobriu que seu filho (também chamado Nelson), preso como milhares de outros jovens brasileiros, tinha sido torturado na prisão. Abalado com a evidência tão próxima e brutal de algo que sempre negara em suas crônicas, Nelson pai catou milho e datilografou, em junho de 1979, uma carta ao presidente João Baptista Figueiredo, o último general no Alvorada. Emocionada e franca, a carta (publicada no Jornal do Brasil) é um apelo à anistia, que viria no fim daquele mesmo ano e que ajudaria a começar a ruir as fundações do regime autoritário no Brasil. Nelson morreria um ano e meio depois, com sua obra teatral louvada por leitores de todas as colorações políticas.

2 comentários:

  1. Paulo,
    bela postagem. É interessante tentar ver a parte inescrupulosa que muitos escritores também tinham.

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  2. Oi gustavo, fico feliz de ver que você se tornou meu primeiro leitor assíduo do Blog e que está gostando das matérias que venho postando aqui.

    Também fiquei um pouco impressionado em descobri esse "podres" dos autores, especialmente do Borges, que eu esperava um pouco mais.

    De toda forma, temos que lembrar que eles são humanos e, como tal, também são cheios de defeitos e qualidades.

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