sexta-feira, 3 de julho de 2009

[Grandes Autores] Rimbaud: o gênio precoce


Deitado numa barca ao pé do velho moinho da cidadezinha francesa de Charleville, o rosto contra a água, o adolescente Arthur Rimbaud parece querer escutar o que o rio está dizendo. O rio pode não ter dito nada, mas o estudante de 17 anos logo se faria ouvir. E para sempre. Inspirado pelo tema do Navio Fantasma (a lenda do holandês que erra pelos mares e encontra redenção no amor, um assunto reincidente na poesia desde o Romantismo) e por uma série de obsessões particulares – o mar, a evasão, a eternidade –, Rimbaud estava matutando o poema O Barco Ébrio, um delírio fantástico e musical que anteciparia a literatura do século 20 e que seria um dos textos mais analisados, comentados e destrinchados da história das letras. O jovem Rimbaud diante do rio, pensando no poema, é uma cena comparável àquela de Isaac Newton recebendo uma maçã na cachola e se inspirando nisso para criar a Lei da Gravidade. Um desses momentos que inauguram o futuro.

O cidadão francês Jean Nicolas-Arthur Rimbaud nasceu em 20 de outubro de 1854 e morreu 37 anos mais tarde, em 10 de novembro de 1891. O poeta Arthur Rimbaud nasceu lá por volta dos 15 anos e “morreu” aos 19. A partir daí seria Rimbaud, o aventureiro, o traficante, o mártir. Foram várias vidas em uma. Ou melhor: uma vida vivida sob múltiplas formas.

É mesmo um enigma: como é que alguém escreve O Barco Ébrio e outros poemas fundamentais (além das prosas de Uma Temporada no Inferno e As Iluminações), dá uma banana à literatura e desaparece quase sem deixar rastro? Quando morreu, mutilado e agonizante de dor num hospital de Marselha, Rimbaud quase já não era mais lembrado pelos seus contemporâneos. Sua obra teve que esperar algumas décadas para reingressar na corrente sanguínea da literatura francesa e a partir daí aparecer para o mundo. Mas o que houve entre o abandono da poesia e a morte aos 37 anos?

Assim que completou O Barco Ébrio, Rimbaud despachou o poema para Paris. O destinatário era o poeta de 27 anos e recém-casado Paul Verlaine (1844-1896), que começava a aparecer no cenário com seus versos musicais. Entusiasmado, Verlaine convocou Rimbaud para a Cidade-Luz, na época a capital literária do mundo, com seus cafés, uma infinidade de revistas e um clima cultural que atraía exilados de todas as nacionalidades, idiomas e tendências políticas e sexuais.

O encontro dos dois autores foi muito mais que poético: Rimbaud e Verlaine formaram um dos casais mais famosos da história da literatura, e talvez o mais barraquento deles. O romance costumava terminar na delegacia, depois de muito choro, sopapo e alguma trégua. Pelo seu jovem amor, Verlaine comeu o brioche que o diabo amassou: destruiu seu casamento, viveu na sarjeta sem um tostão furado e foi preso por uma suposta tentativa de homicídio numa viagem da dupla a Bruxelas – episódios que inspiraram o filme, bem furreca, por sinal, Eclipse de uma Paixão, com Leonardo di Caprio no papel do jovem poeta que leva um tiro no punho.

Episódios quase banais perto do que viria a ser em seguida a vida de Rimbaud. Pouco depois dos incidentes com Verlaine, o jovem de 19 anos pega a mochila e parte pela Europa. Desbrava Inglaterra, Áustria, Alemanha, Itália, Suécia. Uma série de viagens continentais, quase sempre a pé, quase sempre terminando em Charleville, sob as asas da mãe. No caminho, arranja empregos como intérprete de circo, tutor, capataz. Vira Rimbaud, o andarilho.

À volta da mesa, por Henri Fantin-Latour, 1872, Rimbaud é o segundo à esquerda, tendo ao seu lado direito Paul Verlaine

A grande mudança aconteceria em 1880. Trabalhando numa firma francesa estabelecida no Chipre, Rimbaud (que a essa altura não escrevia mais uma mísera linha de verso ou prosa) parte para o Egito, na época um dos grandes entrepostos coloniais. Empregado em outra empresa francesa, é designado para abrir uma filial em Harar, na Abissínia (atual Etiópia), sob o sol escaldante da África. A viagem a cavalo pelo deserto da Somália leva 20 dias. Harar era então uma cidade meio misteriosa, dominada pelo código severo do Islã, um pedaço do mundo em que poucos homens brancos haviam se aventurado, onde o termômetro marca 30 graus centígrados no “inverno”.

Mas Rimbaud resolve diversificar sua atividade comercial. Viaja pelo deserto para comprar marfim e peles, negociando com as tribos nômades e com os donos do pedaço, sultões fascinados pelas armas de fogo. Também começa a se interessar por explorações (foi um dos primeiros europeus a atravessar a estrada de Antotto a Harar), encomenda uma máquina fotográfica e escreve artigos para revistas de geografia. Uma imagem famosa desse período é seu retrato com o rosto calcinado pelo sol ardente, a barba cerrada, o olhar severo. Parecia um “pobre bugre armênio”, como definiu um amigo que o visitou na África.

Mudando-se para Aden (no Iêmen), Rimbaud consegue fazer muito mais negócios. E se embrenha na vida local: uma de suas companhias mais freqüentes era uma mulher da tribo islâmica argoba. Aprende o árabe e um punhado de dialetos. Fascina-se por alguns aspectos da religião islâmica. O selo com que lacrava suas cartas levava uma fórmula do Corão com o nome Abdalah, “servidor de Deus”. Seu senso de justiça era admirado pelos nativos. Chamavam-lhe “a balança exata”.

Cansado de ser empregado, interessa-se pelo tráfico de armas. Parecia-lhe simples: mandava trazer de Liège (Bélgica) fuzis reformados que custavam apenas 8 francos. Revendia-os por 40. Lucro fácil. Mas as coisas não saíram como o esperado, e o comerciante francês teve que desbravar o deserto em busca de compradores, negociando armas, peles e escravos com gente esperta e às vezes amargando prejuízos em meio às instabilidades políticas da região e às pilhagens. Sem falar nos empregados, que desertavam no meio do caminho, deixando-o no meio do nada.

Por essa época começa a sentir dores insuportáveis no joelho direito, que incha dia após dia, afinando a perna e impedindo-o de se locomover (a ironia cruel disso tudo é que Rimbaud escrevera muitos anos o seguinte verso: “E não precisar das pernas / Que maravilha!”). São os primeiros sintomas do carcinoma, um tipo maligno de câncer. Resolve procurar atendimento médico na França. Manda fabricar uma padiola, contrata 16 homens e se põe a caminho de Aden para ali pegar um vapor até seu país. Uma via-crúcis, dolorosa e angustiante. Os homens derrubam-no várias vezes, a dor só aumenta e a viagem leva mais de dez dias.

Aos 37 anos, Rimbaud estava liquidado. Seu corpo apodrecia, exalava uma pestilência tenebrosa, as dores o conduziam ao limiar da loucura. Quando chegou a Marselha, em 23 de maio de 1891, os médicos logo amputaram sua perna. Mas o mal se alastrava. O comerciante Arthur Rimbaud morreu então em 10 de novembro. Apenas a mãe e a irmã acompanharam o enterro. Ninguém mais conhecia o poeta Arthur Rimbaud. E aqueles que o conheceram morreriam sem saber das razões que o levaram a abandonar a literatura. A pista pode estar numa declaração do poeta a sua irmã Isabelle: “Teria ficado doido – e, além disso, era porcaria”. Julgamento frio, objetivo e desapaixonado. Indigno de um escritor. Próprio de um comerciante.

1 comentário:

  1. Não conhecia a vida e obra de Rimbaud. Parabéns pelo trabalho. Vc também escreve? Podemos trocar uma idéia pelo msn, sou também aspirante a escritor. Abaço.

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