sábado, 15 de agosto de 2009

100 anos da Tragédia da Piedade

No dia 15 de agosto de 1909, o escritor Euclides da Cunha, o maior nome das letras nacionais, autor de “Os Sertões”, foi morto a tiros num acerto de contas com o amante da sua mulher, o cadete Dilermando de Assis. O desenlace deu-se num lugar um tanto ermo, na Estrada Real de Santa Cruz, área mais afastada do bairro da Piedade no Rio de Janeiro. Daí a imprensa, deste então, designá-lo com a Tragédia da Piedade, situação em que estiveram presentes, nos seus condimentos passionais, os elementos de um drama de proporções clássicas, digna do repertório de um Ésquilo.


Primeiros anos

Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha nasceu em Cantagalo (RJ), no dia 20 de janeiro de 1866. Passou a infância e a adolescência entre fazendas e cidades fluminenses, com tios que o criaram desde os três anos, quando perdeu a mãe.
Quando jovem, transferiu-se para o Rio de Janeiro, desejando cursar a escola Politécnica; nela matriculou-se em 1885, mas saiu no ano seguinte, ingressando na Escola Militar, onde recebeu influência positivista, de oposição às instituições monárquicas.

No Olimpo dos Republicanos

Euclides da Cunha não era somente um escritor extremamente bem sucedido, era igualmente um herói republicano. Em dezembro de 1888, ainda na época do Império - em incidente que o deixou famoso bem antes de empunhar as letras - , sendo ele aluno da Escola Militar na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, por ocasião de uma apresentação de armas, lançou sua baioneta aos pés do Ministro da Guerra de D. Pedro II, em protesto contra as vexações anteriores sofridas pelos militares. Este ato corajoso e destemido, que lhe valeu a expulsão da escola aos 21 anos, abriu-lhe as portas para que ele circulasse entre a elite da oficialidade republicana. Começou a freqüentar a casa do major Solon Ribeiro, que além de fazer do lar o abrigo dos próceres republicanos, foi o oficial que entrou na história brasileira por ser o portador da mensagem do Marechal Deodoro da Fonseca a D. Pedro II, comunicando-o da proclamação da república. Ao visitá-la pela primeira vez, Euclides da Cunha logo entusiasmou-se pela filha do major, Anna Emília, a S´Anninha como a intimavam. Ela estava então com 14 anos, e era afilhada do Barão do Rio Branco. O cadete deixou-lhe um bilhete ”Entrei aqui com a imagem da República e parto com a sua imagem.” O casamento entre o herói rebelde e a jovem musa republicana deu-se quase em seguida à Proclamação da Republica, consumando-se em 10 de janeiro de 1890. Foi, mesmo com os bons votos de todos , um enlace de infelicidades.

Fama e infortúnio

Se Euclides da Cunha foi sobejamente bafejado pela inteligência e o conhecimento de Minerva, Vênus, a deusa do amor, virou-lhe as costas. Em parte, justamente por identificar-se com a atividade da coruja, espremendo seus grandes olhos noturnos sobre livros, sobre alfarrábios, códices, registros, mapas e documentos, é que o pequeno cupido não incumbiu-se de flechar o coração de quem ele mais queria, S´Anninha. Celebrado no Brasil inteiro desde o lançamento de “Os Sertões”, em 1902, quase em seguida Euclides da Cunha começou a ser traído pela mulher. Sempre viajando, deixara-a com seus três filhos no Rio de Janeiro, morando numa pensão na rua Senador Vergueiro. Foi lá que ela, uma atraente balzaquiana, uma morena vivaz e sensual, mulher de leitura, conheceu o jovem Dilermando de Assis, com apenas 17 anos.

Quando o escritor voltou de uma viagem feita pela Amazônia, em 1906, onde fora tratar das questões de fronteiras, soube de tudo. Dilacerado entre a tentativa de manter um casamento de aparências - para não infelicitar os filhos ou manchar-lhe a reputação - , e os tormentos por sentir-se vilmente traído (Anna Emília, enquanto esposa de Euclides, chegou a ter dois filhos do amante), viu a sua vida torna-se um inferno. Ele não podia aceitar que ela, apoiada num desquite ou numa simples separação, fosse viver com um outro, ainda mais um garoto. Os tempos eram tiranicamente moralistas, exigindo dele uma atitude radical.

A tragédia da piedade

Monteiro Lobato, comentando o caso muitos anos depois, creditou-o às desgraças da Fortuna. Uma tragédia de Ésquilo, asseverou ele. Na manhã do domingo do dia 15 de agosto de 1909, Euclides da Cunha, com um pretexto banal, passou na casa de uns primos em Copacabana para conseguir uma arma. Sabedor da estação em que a mulher estava (ela, assustada com os crescente furores dele, homiziara-se na modesta casa do amante no bairro da Piedade), para lá rumou empunhando um revolver calibre 32. Percorrendo a Estrada Real de Santa Cruz, um local um tanto ermo, o marido injuriado não demorou para localizar o ninho dos amantes. Bateu palmas frente ao pequeno portão e pediu para entrar. Queria dar umas palavras com Dilermando. Anna Emília, que lá estava com o filho Solon, sentiu nos ares o cheiro do sangue. Mal a porta lhe foi aberta, Euclides, dizendo ter ido lá “para matar ou morrer”, disparou sua arma contra Dinorah, o irmão de Dilermando, um alferes da Marinha. Mais três outros foram feitos contra o amante. Campeão de tiro, o jovem Dilermando respondeu-lhe com dois balaços certeiros. Euclides, ferido com um projétil que lhe furara o peito, saindo pela porta lateral da casa, arribou nas escadas, morto. O maior escritor do país, desaparecia assim, só e duplamente humilhado, pela mulher infiel e pela destreza do amante dela.

Os anos seguintes

Após o assassinato, a imprensa nacional toma logo o partido do marido traído – escritor afamado, Imortal da Academia. Dilermando é exposto na imprensa como um vilão, e mesmo o inquérito policial tende a inverter a realidade dos fatos (o jornalista Orestes Barbosa foi dos únicos a defendê-lo), mesmo assim sem grande impacto. O fato constitui-se em um marco da parcialidade na imprensa brasileira. Em uma entrevista concedida à revista Diretrizes, de Samuel Weiner, Dilermando afirma que não conseguiria expor sua versão dos fatos “nem se pagasse”

É, apesar da gritante realidade dos acontecimentos, exposto ao júri popular, acusado de homicídio. Fartamente demonstrada, a legítima defesa resta comprovada, e Dilermando é absolvido.

Logo após sua absolvição em 5 de maio, casou-se com a viúva Anna da Cunha. Morando ambos em Bagé, sua casa torna-se agitado ponto cultural da cidade. Ali realiza a construção de muitos prédios, como engenheiro, como o Quartel General do Exército.

Em 1926, quando a mulher contava 50 anos, e com cinco filhos, separam-se.

Nova tragédia

Em 4 de julho de 1916 Dilermando sofre novo atentado, desta vez por parte de Euclides da Cunha Filho, apelidado familiarmente de “Quidinho”, que contava então com dezenove anos de idade.

Estava Dilermando num Cartório do fórum do Rio de Janeiro, quando foi por este alvejado pelas costas. Mesmo ferido, Dilermando reage, matando seu agressor – e um novo escândalo resulta em nova absolvição – deixando contudo um rastro de sangue na biografia do jovem militar.

4 comentários:

  1. Realmente Gustavo..p que matar?!
    Como julgar os três?! Não podemos...só Deus!!
    Cada um sofrendo na sua desdita..
    De um lado um jovem apaixonado, do outro um marido infeliz e de outro uma mulher ansiando viver sua paixão!!
    Oque faríamos se tivéssemos no lugar de cada um?!
    Eis oque devemos pensar qdo formos julgá-los!!

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  2. Daria um ótimo filme!!

    Admiro os três..adoro sabre mais noticias dessa historia tão apaixonante!!

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  3. Essa história é realmente chocante!e depois de tudo ela ainda fica só...
    alguem tem alguma informação sobre a descendencia deles nos dias atuais?

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