terça-feira, 22 de setembro de 2009

[Clássicos da Literatura] Hemingway: de amor e de guerra

Em Adeus às Armas, o escritor Ernest Hemingway narra a brutalidade do conflito com a intimidade de quem esteve nos campos de batalha.



Com 18 anos e cheio de entusiasmo, o jovem americano Ernest Hemingway encasquetou com a idéia de virar combatente na I Guerra Mundial. Conseguiu. Virou motorista de ambulância da Cruz Vermelha. Só que a sua contribuição nas frentes de batalha durou pouco. Depois de algumas semanas na Europa, Hemingway foi gravemente ferido na perna. E teve que voltar para casa, carregando na bagagem uma medalha de honra e uma rica experiência, que, dez anos depois, serviria de munição para as páginas de Adeus às Armas, livro publicado em 1929. A novela é, ao mesmo tempo, uma história de amor e de guerra, escrita bem ao estilo Hemingway: simples e apaixonante.

O livro narra o amor do tenente americano Frederic Henry pela enfermeira escocesa Catherine Barkley. No pano de fundo, revela a desilusão do combatente – e do escritor, claro – com a insana guerra. No início da trama, Henry – não por acaso um motorista de ambulância – é indiferente ao conflito que mobilizava todas as grandes potências do mundo. “Aquela guerra nada tinha a ver comigo. Parecia tão perigosa para mim como uma guerra de cinema”, diz. Mas, depois que conhece Catherine, ele começa a questionar a hostilidade à sua volta. Como observador da luta do homem contra o homem, o tenente põe no seu caldeirão de questionamentos até mesmo a existência de um Deus que olha pelo mundo.

Contra tal brutalidade, só o amor. Assim Henry e Catherine se refugiam na paixão, sempre interrompida pela realidade dos campos de batalha: ora Henry é ferido, ora é recrutado de volta ao front. Sempre sob o ponto de vista do tenente, Adeus às Armas descortina a crueldade da guerra. Com maestria, Hemingway pinta um quadro do conflito desprovido de disfarces e rebuços, por meio de sua prosa simples e direta, a marca registrada do gênio da literatura americana. Ganhador do Nobel de Literatura de 1954, o escritor quer “mostrar” em vez de “contar” o horror das frentes de luta.

Hemingway recorre também às imagens da natureza para contrapor o amor do jovem casal à carnificina anárquica das trincheiras. A chuva, que está presente em quase todo o desenrolar da novela, muitas vezes é um presságio de uma tragédia. Em um dos momentos mais emocionantes da narrativa, a batalha de Caporetto, a chuva cai incessantemente. O autor descreve a retirada histórica das tropas italianas, após a vitória esmagadora do exército alemão e austro-húngaro em outubro de 1917: “Chovia constantemente e o exército de Bainsizza afastava-se do platô onde grandes vitórias haviam sido ganhas na primavera daqueles anos”. Em outro momento, escreve: “Eu não havia devidamente calculado o extraordinário vulto da retirada. Uma zona inteira da Itália movia-se, acompanhando o exército”.

A descrição de Hemingway é tão emocionante que até mesmo italianos que participaram da retirada de Caporetto declararam que alguém só poderia ter escrito com tal emoção se tivesse sofrido na pele a humilhante derrota da Itália. Mas, na verdade, nem tudo o que está em Adeus às Armas é autobiográfico. Assim como Henry, o escritor americano foi ferido em combate e, sob cuidados de uma linda enfermeira, acabou se apaixonando. Mas as semelhanças terminam por aí. Na vida real, a enfermeira era americana e se chamava Agnes von Kurowsky. Segundo biógrafos de Hemingway, a enfermeira e o autor tiveram um rápido affair, terminado por carta. O autor de clássicos como Paris É uma Festa e O Velho e o Mar também não testemunhou a histórica derrota italiana. Na época, já trabalhava como repórter no jornal Kansas City Star.

Adeus às Armas

Ernest Hemingway

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