domingo, 27 de setembro de 2009

[Grandes Autores] Heinrich Heine: O avô da poesia engajada

Polemista feroz, mas capaz de poemas puros, que soam como versos folclóricos, Heinrich Heine abraçou as causas mais candentes de seu tempo, em particular o combate ao racismo.


Duas publicações começam a recolocar em circulação no Brasil a obra de Heinrich Heine (1797-1856), poeta e prosador alemão que andava meio esquecido por aqui. O Rabi de Bacherach (tradução de Marcus Mazzari; Hedra; 128 páginas; 14 reais) traz, além da obra incompleta de ficção que lhe dá título, três artigos contra o ódio racial que o autor escreveu em 1840, por ocasião de perseguições contra a comunidade judaica de Damasco (parte, então, do Império Otomano), com o apoio direto do cônsul francês. Já Navios Negreiros (tradução de Priscila Figueiredo e Luiz Repa; SM; 80 páginas; 30 reais), além do célebre poema de Castro Alves, estampa em nova tradução a balada de Heine que, provavelmente vertida para o francês, inspirou o texto abolicionista do bardo baiano.

Depois do reinado, ainda no começo do século XIX, de Schiller e, sobretudo, de Goethe, foi a figura de Heine que imperou, décadas a fio, na lírica de língua alemã. Personagem de transição entre a era romântica, com sua ênfase na imaginação individual sem peias, e o realismo, com suas preocupações centradas no estado presente da sociedade, Heine sempre habitou regiões fronteiriças de todo tipo. Nascido na Alemanha, optou por passar grande parte da vida adulta na França, a arqui-inimiga de seus compatriotas. Judeu numa Europa que fazia temporariamente de conta que aceitava sem maiores restrições os integrantes, pelo menos os assimilados, de seu povo, ele, mesmo após se converter ao cristianismo por razões de conveniência, sentia as barreiras que lhe eram impostas, minguando aqui para recrudescer adiante. Perfeitamente em casa no seu mundo já moderno, não deixava de ser pungido pela nostalgia de tempos mais definidos, menos instáveis. Era dotado ao mesmo tempo de uma ironia natural e de talento para a lírica mais pura, quase capaz de passar por popular ou folclórica (o que de fato aconteceu quando, no século seguinte, os nazistas, depois de tentar apagar-lhe as baladas mais famosas das antologias, atribuíram-nas à tradição anônima). Heine combinou esses dois elementos - lirismo e sarcasmo - em um amálgama com o qual pouquíssimos se mostraram capazes de rivalizar.



Chamado, com justiça maliciosa, de o maior jornalista da poesia alemã, ele usou, na lírica, os recursos que o tornavam um polemista temível. Na sua prosa, na qual a ficção é rara, fez sucesso com narrativas de viagem, críticas, comentários políticos. Malgrado seus frequentes laivos elitistas (que fizeram dele a leitura favorita da imperatriz austro-húngara Elizabeth, conhecida como Sissi), Heine, em especial nos anos 1830 e 40 - à medida que rompeu com diversas tradições, adotou causas progressistas e conheceu o jovem Karl Marx -, tornou-se, até certo ponto, se não o pai, pelo menos o avô do engajamento que, em outras mãos, renderia algumas páginas notáveis e toneladas de lixo ilegível. Entre seus melhores herdeiros diretos, encontram-se conterrâneos futuros seus, como Bertolt Brecht e Hans Magnus Enzensberger.

Não deixa de ser interessante que, por acidente editorial, ambos os lançamentos abordem e defendam duas causas que logo se interligaram: a abolição da escravidão (no poema O Navio Negreiro) e a emancipação dos judeus (nos ensaios sobre ódio racial). Vistas então pelo poeta como simbólicas do progresso da humanidade rumo à conquista de seus direitos, hoje elas seriam claramente definidas como duas faces do antirracismo. A primeira, graças ao empenho dos abolicionistas, resultou em sucesso. A segunda sofreu um revés traumático no século XX, com a invenção, pela direita europeia, do antissemitismo racial, e, mais recentemente, vem conhecendo retrocessos devido à pura e simples traição da esquerda contemporânea, que se aliou ao que há de pior no islamismo fanático, politizado e racista. Ressuscitasse hoje, Heine, olhando ironicamente ao seu redor, não deixaria de constatar que seus escritos continuam atuais.

As naus da vergonha


Os marinheiros que, a partir de 1807, foram desviados pelo governo inglês para o bloqueio naval aos navios negreiros saídos da África eram capazes de detectar essas embarcações muito antes de avistá-las - pelo cheiro pútrido que delas emanava. Não surpreende que o navio negreiro tenha servido de emblema para dois poderosos poemas abolicionistas - do alemão Heinrich Heine, mordaz no seu retrato dos mercadores de escravos, e do brasileiro Castro Alves, pungente e exaltado na descrição do sofrimento dos negros. Desde seu início, no século XVI, o transporte de escravos excedeu-se na barbaridade: os cativos eram acorrentados em porões escuros, para travessias que duravam mais de dois meses, e exercitados sob chicote no tombadilho para se manter vivos (a dança do "turbilhão de espectros" de que fala Castro Alves). A média de mortalidade era de 15%; se alguma doença se espalhasse, a taxa subia. Os tubarões (que figuram no poema de Heine) seguiam em cardumes as naves, atraídos pelos cadáveres jogados ao mar. À medida que o bloqueio naval apertou, o cenário se agravou. Para fugir dos ingleses, os traficantes adotaram navios mais ágeis, rápidos e, portanto, menores. Os escravos iam deitados às fileiras nos porões, sem altura sequer para se sentar e cercados dos próprios excrementos. Não raro, os sobreviventes seguiam acorrentados aos mortos. Alguns estudiosos especulam que a esses horrores se deve o alto índice de hipertensão e sobrepeso até hoje verificado na população negra do Brasil e dos Estados Unidos: os que apresentavam predisposição para esses problemas se desidratavam e se desnutriam mais lentamente - e eram os que mais comumente resistiam. E, assim, cresceram e se multiplicaram nas Américas.

2 comentários:

  1. Caro Paulo,a recíproca é verdadeira!Parabéns pelo blog.Gostei muito daqui.Passo a segui-lo com atenção.Um abraço e obrigado pela visita.

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  2. Como faço para adquirir o livro NAVIOS NEGREIROS?
    conceicao1711@hotmail.com

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