domingo, 1 de novembro de 2009

Cartas de T.S. Eliot desmentem fama de marido cruel e insensível


Uma série de cartas inéditas que o poeta e prêmio Nobel de literatura Thomas Stearns Eliot escreveu nos anos 20 comprovam sua preocupação com a mulher doente e desmentem a fama de marido cruel e insensível, pelo menos até a sua internação psiquiátrica.

As cartas divulgadas na edição dominical do "The Sunday Times" mostram um Eliot desesperado com o avanço dos problemas médicos de Vivien, com quem o autor de "The Waste land" (A Terra Inútil) casou-se em 1915, aos 26 anos.
Em uma delas, enviada ao romancista e crítico John Middleton Murry, Eliot conta que sua mulher tinha passado mal durante três dias e que ele teve a sensação de que sua mente tinha deixado o corpo.
Eliot deixou registrada sua própria angústia: "matei deliberadamente meus sentidos, me matei deliberadamente, para poder seguir com esta vida que é só externa".
A fama de marido insensível que terminaria internando sua esposa em um asilo psiquiátrico ficou presente na obra teatral "Tom e Viv", de Michael Hasting, de 1984, e que levaria depois ao sucesso no cinema com Willem Dafoe no papel de Eliot e Miranda Richardson como Vivien.
As cartas, compiladas com ajuda da segunda mulher do poeta, Valerie, foram publicadas nesta semana.
Eliot, funcionário do banco Lloyds de Londres, continuou trabalhando, mesmo sem gostar, porque precisava do dinheiro para sustentar a sua mulher doente enquanto escrevia poesia e se ocupava da revista literária "The Criterion".
O responsável pela publicação das cartas, John Haffenden, disse não ter certeza sobre se de fato são textos de Eliot, embora tenha afirmado que "essas e outras cartas deixam explícito seu desespero e angústia".
Há cartas da própria Vivien, em que ela revela ao poeta sua preocupação e seu amor. Em uma delas, datada em 1925, Vivien pede desculpas por deixá-lo louco.
Um mês depois, Vivien escreve dizendo que amava e sempre amaria o marido.
Segundo o editor das cartas, tanto Eliot como sua mulher estavam doentes, mas o certo é que o poeta e seu cunhado terminaram internando-a em um centro psiquiátrico, no qual permaneceu de 1938 a 1947, um ano antes do poeta ganhar o prêmio Nobel.
Eliot nunca a visitou, embora tenha mantido o casamento.
O segundo lote de cartas será publicado em dois anos, e uma das principais revelações, segundo o editor, é que Eliot, considerado um anti-semita, tinha amigos judeus.
A correspondência com seus amigos, o acadêmico americano Horace Kellen, mostra que durante a Segunda Guerra Mundial o poeta ajudou refugiados judeus.
"Não há provas de anti-semitismo algum na correspondência que examinei", explica Haffenden.
Esse episódio não convence Anthony Julius, que escreveu um livro explorando os sentimentos anti-semitas na obra de Eliot e concretamente em poemas como os titulados "Gerontion", Burbank With a Baedeker: Bleistein With a Cigar" e "Sweeney Among the Nightingales".

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