sexta-feira, 27 de março de 2009

Leilão vende cartas do escritor George Orwell por R$ 276,4 mil

Um lote de cartas de autoria do escritor inglês George Orwell do princípio dos anos 30 foi vendido nesta terça-feira por 84 mil libras esterlinas (R$ 276,4 mil) em um leilão realizado pela casa Bonhams, em Londres.
As cartas oferecem uma visão dos anos nos quais o autor viveu na casa de seus pais em Southwold (leste da Inglaterra), após retornar de sua estadia em Mianmar (antiga Birmânia), onde nasceu sua militância contra o imperialismo britânico.
Trata-se de uma época da vida de Orwell que não é bem documentada, por isso o leilão gerou grande expectativa, e as cartas foram vendidas pelo dobro do lance inicial, informou a Bonhams em comunicado.
As cartas escritas pelo autor de "1984" e "A Revolução dos Bichos" eram dirigidas a seus amigos Eleanor Jacques e Dennis Collings, e nelas ele fala da elaboração de seus primeiros livros.
Collings era o filho do médico da família de Orwell e Eleanor Jacques era uma vizinha, e com ambos manteve uma relação muito próxima durante os anos nos quais viveu na casa dos pais.
Os conhecedores da vida de Orwell dizem que ele queria iniciar um relacionamento amoroso com Eleanor Jacques, mas ela acabou se casando com Collings em 1934.
George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair, nasceu na Índia britânica em 1903, e escreveu dois dos romances mais famosos do século 20: "A Revolução dos Bichos" (1945) e "1984" (1949), obras na qual expressou sua rejeição ao totalitarismo.
Orwell morreu em 1950, em Londres, vítima de tuberculose.

segunda-feira, 23 de março de 2009

O enigma dos 4 livros



Em um monastério medieval, um homem está escrevendo. Seus instrumentos: um pergaminho de pele de ovelha e uma pluma. O resultado de seu trabalho será um objeto único e precioso, um tesouro digno de ser guardado a sete chaves e contemplado com espanto e admiração por gerações de estudiosos. Um livro.

Essa cena se repetiu inúmeras vezes ao longo dos séculos. Nos primórdios, em vez de pergaminhos usava-se argila ou tábuas de madeira com cera. No lugar da pluma, um estilete. Mas o resultado era o mesmo: uma obra literária de personalidade única. A realidade mudou apenas em 1498, quando o alemão Johannes Gutenberg inventou o tipo móvel. Mudou, mas pouco. As obras surgidas na infância da tipografia estavam longe de ser itens populares. Eram vendidas por fortunas a aristocratas bibliófilos e ricos membros da Igreja.

Foi apenas no século 19, após a Revolução Industrial, que o livro se incorporou ao dia-a-dia. Antes disso, durante milênios e milênios, cada livro era considerado uma relíquia. Não é por acaso, portanto, que algumas obras mantenham até hoje a aura de mistério

1. Os Livros do Destino

Eram os últimos anos do século 6 a.C. quando uma viajante entrou pelos portões de Roma e pediu uma audiência com Tarquínio, governante da cidade. A estrangeira trazia 9 livros que continham "revelações divinas". Pediu 300 peças de ouro pelo lote, provavelmente escrito em folhas de palmeira ou papiro, já que não havia pergaminhos na época. Tarquínio recusou. Irritada, a desconhecida queimou 3 livros e ofereceu os restantes pelo mesmo preço. Proposta negada, ela destruiu outras 3 obras e repetiu a pedida. Impressionado, Tarquínio consultou seus sacerdotes e comprou os livros sobreviventes. Em seguida encerrou os volumes numa cripta subterrânea sob o Templo de Júpiter Capitolino – o mais importante da cidade.

Esse relato foi narrado por diversos historiadores antigos. Lactâncio, que viveu no século 3 d.C., afirmou que a desconhecida era Sibila de Cumas, sacerdotisa do deus Apolo, que tinha o dom da clarividência. Seus livros estariam repletos de profecias. Hoje, sabe-se que a maior parte da história não passa de lenda. O que não resolve o mistério. Por exemplo: havia, de fato, uma coleção de obras misteriosas nos subterrâneos do Templo de Júpiter. Era conhecida como Libri Fatales, os "Livros do Destino", ou Libri Sibillini, os "Livros da Sibila".

Escritos em grego, os volumes só podiam ser manuseados por sacerdotes conhecidos como quindecemviri, ou "os quinze homens", e sob ordem expressa do Senado. Revelar seu conteúdo rendia a pena de morte. Os livros eram consultados sempre que uma calamidade se aproximava. Interpretando os versos, os sacerdotes encontravam a solução para o problema e prescreviam construções de templos, orações ou sacrifícios humanos. A enigmática coleção foi destruída em 83 a.C., quando o Templo de Júpiter ardeu em chamas. De seu conteúdo, restaram apenas alguns poucos versos.

A origem dos Libri até hoje intriga historiadores. Para o francês Raymond Bloch, as obras foram escritas pelos etruscos – povo que habitava a Itália antes de Roma ser fundada – e traduzidas para o grego. Há quem opine que tudo não passava de embuste. "Os livros podem ter sido forjados pelo próprio Tarquínio, que usaria as profecias para justificar suas decisões", escreveu a espanhola Concha de Salamanca no Dicionário del Mundo Clásico.

A história dos Libri não acabou com o incêndio do templo. Até o século 4, escritores forjaram cópias da coleção para propagandear o cristianismo: os versos traziam previsões, "escritas séculos antes do nascimento de Jesus", que falavam sobre a vinda do Messias. As farsas circularam pela Europa durante séculos e foram reunidas num único volume pelo editor Servatius Gallaeus, na Holanda. Isso em1689.

2. Delírios de São Tomás

Um casal de gêmeos siameses é embalado por um pássaro azul gigante. Enquanto isso, dois cavaleiros cruzam lanças montados em feras monstruosas: o primeiro usa um elmo feito de raios de sol, o segundo tem 3 rostos semelhantes às fases lunares. Mais adiante, uma criança nua, com a cabeça estraçalhada, arranca pedaços do tórax e os oferece a um companheiro. Sob as asas negras de um corvo, um macaco sorridente toca violino.


Não, leitor, essas cenas não estão em um quadro de Salvador Dali. As imagens acima fazem parte dos tesouros gráficos do Aurora Consurgens – em latim, "Aurora que Surge", escrito entre os séculos 13 e 15, um dos livros mais obscuros da Idade Média. Grande parte do seu mistério gira em torno do nome do autor. De acordo com tradições medievais, esse seria o último livro escrito por são Tomás de Aquino, um dos maiores pensadores do cristianismo.

Considerado incompreensível pela maioria dos estudiosos, Aurora pertence a um gênero há muito desaparecido: o tratado alquímico. A alquimia era uma espécie de ciência primitiva, que misturava química, filosofia, astrologia e misticismo. Seus praticantes dedicavam-se a uma tarefa digna de contos fantásticos: encontrar a fórmula da "pedra filosofal", substância capaz de converter metais em ouro e de prolongar a vida. As imagens podem ser vistas como metáforas para os processos de transformação – um animal macho e um animal fêmea juntos, por exemplo, poderiam simbolizar a união do enxofre com o mercúrio, substâncias que os alquimistas consideravam opostas.

Durante centenas de anos, o Aurora foi uma das obras mais raras do mundo ocidental. Suas cópias limitavam-se a manuscritos esparsos. Até que no início do século 20 uma reprodução foi casualmente descoberta por um bibliófilo famoso: o psicólogo suíço Carl J. Jung, que ficou hipnotizado pelas imagens fantasmagóricas e interpretou os símbolos alquímicos do Aurora como alegorias do inconsciente humano. Jung levava a sério a versão que atribuía a obra a são Tomás. Para ele, o livro era uma transcrição das últimas palavras do filósofo, pronunciadas em seu leito de morte no mosteiro de Santa Maria della Fossa-Nuova, na Itália. A hipótese é apoiada nos relatos de alguns biógrafos que afirmam que o santo morreu em estado de perturbação mental, assombrado por delírios místicos e visões do além. "À primeira vista, o Aurora parece um texto esquizofrênico, com múltiplos sentidos divergentes", diz Gelson Luis Roberto, presidente do Instituto Junguiano do Rio Grande do Sul. "Mas um olhar mais cuidadoso revela que, talvez, trate-se dos últimos estertores de uma mente brilhante."

3. O Enigma de Veneza

Os livros impressos no século 15 são conhecidos como incunabula – de incunabulum, em latim, "berço" ou "princípio". Raros, frágeis e belos, são objeto de desejo de qualquer bibliófilo. Em dezembro de 1499, chegou às estantes de Veneza um dos incunabula mais estranhos e controvertidos. A obra tem biografia tão intrigante quanto o título da capa: Hypnerotomachia Poliphili, que numa tradução aproximada do grego significa "A Luta Amorosa de Poliphilo em um Sonho". A autoria é desconhecida – apenas o editor é conhecido: Aldus Manutius, o primeiro impressor profissional da Itália.

O Hypnerotomachia tem uma característica célebre: as magníficas ilustrações em litogravura. "O livro representa uma revolução na história da tipografia. É uma obra de arte", diz o empresário e bibliófilo José Mindlin, um dos poucos sul-americanos que contam com um exemplar na prateleira. Mas o que fez mesmo a fama do livro é o fato de ser um dos mais complicados de todos os tempos. Escrito numa mistura de latim, italiano, grego, hebraico, árabe e imitações de hieróglifos egípcios, a narrativa mistura pesadelos sanguinolentos, aventuras intricadas e devaneios eróticos, entremeados por comentários sobre literatura, arte e música. O enredo é um labirinto: durante um sonho, Poliphilo parte em busca de sua amada, Polia, atravessando bosques, ruínas e cidades bizarras. Nesse cenário delirante, depara com deuses, ninfas e dragões. Um texto do século 16 sugeriu que a narrativa obscura e as ilustrações enigmáticas eram partes de um código alquímico. No best seller O Enigma do Quatro, publicado no Brasil em 2005, os autores tentam encontrar significados ocultos nos jogos de palavras do livro. Sobre a misteriosa identidade do autor, existem apenas pistas. Por exemplo: alinhadas, as letras iniciais de cada um dos 38 capítulos formam a frase "Poliam Frater Franciscus Colonna Peramavit" – em latim, "O irmão Francisco Colona amava Polia loucamente". Sabe-se que na época havia dois Franciscos Colonna: um aristocrata romano e um monge dominicano – este, o maior suspeito. De acordo com os anais dominicanos, por volta de 1500 ele solicitou um empréstimo para ajudar na publicação de um livro. Na década de 1990, a estudiosa francesa Liane Lefaivre sugeriu nova hipótese: o autor seria Leon Battista Alberti, espécie de artista multimídia do Renascimento, que era pintor, músico, arquiteto, filósofo, poeta e lingüista. Com um currículo desse calibre, Alberti bem que poderia ter escrito o livro mais complicado da literatura ocidental.

4. O Doutor Fantástico

A aura de mistério que cerca os Libri Fatales ou o Aurora Consurgens é alimentada pelo anonimato. Já as Opera Omnia Paracelsi ("Obras Completas de Paracelso") entraram para o panteão dos enigmas pelo motivo oposto: as lendas e controvérsias que cercam a figura de seu autor. O suíço Theophrastus Philipus Aureolus Bombastus, mais conhecido como Paracelso, é um dos autores mais esquisitos na história. Era médico, químico e astrólogo; baixinho, enfezado e beberrão. Viajou com uma pequena trouxa de roupa pela França, Suécia, Rússia. Há quem diga que ele foi até a China, que estudou os segredos dos sábios de Constantinopla.

Paracelso fez fama transcrevendo suas experiências. Para ele, o Universo tinha demônios, espíritos e bruxas. Magia e ciência se cruzavam. E o mundo guardava uma doutrina secreta, passada a cada geração por magos persas, sacerdotes egípcios e alquimistas medievais, que ensinava a transformar metais, prever o futuro e tratar doenças incuráveis. Os inimigos esbravejavam, mas não conseguiam resolver a contradição: parecia inexplicável que a ciência maluca de Paracelso funcionasse tão bem – ele conseguia curar mais gente do que seus críticos.

A maior parte dos seus escritos foi reunida na coleção Omnia Opera, publicada no século 16. Desde então, sua fama oscila de louco a visionário. "Ele é uma figura controvertida, no limite entre a ciência e o obscurantismo", diz Jorge de Carvalho, antropólogo da Universidade Nacional de Brasília. Essa combinação de cientista moderno e feiticeiro medieval ainda é um enigma – e as páginas de seus tratados continuam tão intrigantes e perturbadoras quanto 5 séculos atrás.

domingo, 22 de março de 2009

Samizdats - A literatura Russa Cladestina.


Durante o regime Stalinista, vários textos foram proibidos ou censurados pelo regime comunista. Para tentar escapar da censura imposta pelo regime surgiu o Samizdat, termo russo que significa auto-publicação. Os Samizdats eram meios que muitos autores russos utilizaram para distribuir, clandestinamente, textos proibidos pelo regime Stalinista, sendo a única alternativa para publicar obras de autores estrangeiros e nacionais censurados pela cortina-de-ferro.

As técnicas utilizadas para a produção dos Samizdats variavam, sendo feitas, em sua maioria, desde pequenas tiragens em papel carbono (feitos a parti de originais manuscritos ou datilografados.), até grandes impressões em editoras semi-profissionais. Os Samizdats foram durante muitos anos os únicos meios de acesso as obras de vários escritores russos do início do século XX como, por exemplo, Mikhail Bulgakov e Vladímir Bulovski e, com o tempo, o termo passou a ser utilizado como sinônimo de "Literatura Clandestina ou Proibida".

Vladimir Bukovsky definiu Samizdat assim: "Eu mesmo crio, edito, censuro, publico, distribuo e posso ser preso por causa disto".

sábado, 21 de março de 2009

Anton Tchekhov - O mestre do conto

Ao findar o século XIX, a Rússia debatia-se nas garras de terrível reacionarismo. A vida do povo era triste, carregada, sem esperanças. Profunda apatia pesava sobre as classes intelectuais, cansadas e desiludidas das lutas políticas. Uns se lamentavam sem cessar; outros se entregavam a uma existência de completa indiferença...

Foi nessa Rússia que surgiu um escritor cujas obras ganharam enorme repercussão. Chamava-se Anton Pavlovitch Tchekhov, era médico e, apesar de sofrer do peito, levava uma vida agitadíssima.

Nascera em Taganrog, em 1860. De origem humilde, filho de ex-servos, teve a infância marcada por preconceitos relacionados a sua origem. O pai, marcado pelo estigma de um ex-servo, educou os filhos de forma autocrática, habituando-os a obedecer. Deu-lhes no entanto o acesso à educação. Possibilitou aos filhos a frequência de um dos melhores liceus da cidade. Tiveram aulas de música e francês.

Na escola, não foi um bom aluno. Chegou a reprovar. Um padre que lhe deu aulas de religião chamava-o com menosprezo de "Cech"onte (cech significa servo). A mensagem: tu não passas de filho de servo. Mais tarde, quando publicava os primeiros contos em jornais, Tchekhov usou o pseudónimo "Antosa Cechonte" com ironia.

A partir dos seus treze anos, ficou fascinado pelo teatro da cidade, que dado o pouco dinheiro que tinha não frequentava tantas vezes como queria. Como era proibida a entrada a crianças não acompanhadas de adultos e sem a autorização do liceu, chegou a "disfarçar-se" de adulto, usando uma barba postiça.

Nessa época, o pai, arruinado financeiramente, foi obrigado a se mudar para Moscou com a família. O então adolescente Tchekhov ficou sozinho em Taganrog para terminar o ginásio, sustendo-se com aulas particulares.

Em 1879, terminado o ginásio, o jovem Tchekhov transferiu-se por sua vez para Moscou, onde a família vivia na maior pobreza, tendo chegado a certe época a dormir no chão.

Ele matriculou-se na Faculdade de Medicina de Moscou, sustendo-se e ajudando a manter a família como colaborador em várias publicações periódicas, para as quais escrevia historietas, crônicas e “cenas” que tinham de ser, por encomenda dos editores, breves, leves e “fácies de ler”.

Isso se deu na época de grande repressão política que se seguiu ao assassinato do , em 1881, do tsar Alexandre II por terroristas “populistas”, com o endurecimento da censura, das perseguições, deportações e das violências policiais. Esse momento, um dos mais tristes da história russa, foi paradoxalmente aquele em que a produção literária do jovem escritor foi mais “alegre”.

Essa enxurrada de historinhas divertidas trouxeram uma imensa popularidade a ele, e durou até a pouco depois de sua formatura em medicina, profissão que chegou a exercer durante alguns anos, como médico responsável por uma clinica rural. Mas logo a pujante vocação literária do jovem médico manifestou-se com força irresistível e Tchekhov “traiu” (na suas próprias palavras) a medicina, para se entregar de corpo e alma a literatura.

Entre 1885 e 1887 o escritor começou a deixar de lado o “trabalho apressado” e “miúdo” para dedicar seu enorme talento a uma “obra pensada”, de temática “séria”, da qual não mais se afastou e que iria revelar um dos maiores e mais importantes contistas e dramaturgos da era moderna. Que acabaria por influenciar toda a literatura e dramaturgia ocidental.

Tchecov inventou uma nova forma de escrever contos: “um mínimo de enredo e o máximo de emoção”. Suas histórias eram o contrário das histórias intrigantes, de desfecho inesperado, que predominavam entre os praticantes do gênero, ele preferia criar atmosferas, registrando situações abertas que não se encerravam no fim dos relatos. É o que chamamos hoje de conto moderno. Com uma visão de mundo ora humorística, ora poética, ora dramática, Tchecov captou momentos ocasionais da realidade, fatias de vida, pequenos flagrantes do cotidiano, estados de espírito da gente comum. A genialidade de sua arte está em transformar uma série de incidentes laterais e de pormenores aparentemente insignificantes da existência individual em representações perfeitas do destino humano.

Em 1898, ele casou-se com uma célebre atriz do teatro russo e, em 1904, atacado pela tuberculose, veio a morrer na Alemanha, para onde fora em busca de melhora em seu estado de saúde. Tinha então 44 anos.