quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Obra de Clarice Lispector será relançada


A editora Rocco está relançando toda a obra de Clarice Lispector com novo projeto gráfico. Agora é a vez de A Hora da Estrela (1977), o último livro da autora, que ganhou uma ampliação da bonita ilustração de capa da artista Flor Opazo. Ele conta a história de Macabéa, uma alagoana pobre que migra para o Rio. E é também um livro sobre a escrita: o narrador em primeira pessoa é um escritor que desvela ao leitor o processo de composição da narrativa. “Este romance é simples, mas ao mesmo tempo muito teórico”, diz a professora Lúcia Cherem, da Universidade Federal do Paraná (PR).

Por ocasião do Ano da França no Brasil, Lúcia se reuniu com as pesquisadoras Claire Varin, do Canadá, e Nadia Setti, da França, para fazer mesas-redondas sobre a obra de Clarice e sua recepção no exterior. Claire é uma escritora que vive no Québec e estuda os livros de Clarice Lispector desde 1979, quando se encantou por uma tradução para o francês de A paixão segundo G.H. Ela veio ao Brasil em 83, e ficou por aqui durante um ano e meio para fazer pesquisas e entrevistas para uma tese de doutorado. Aprendeu a falar português fluentemente. A italiana Nadia Setti é professora do Centro de Estudos Femininos da Universidade de Paris 8. É autora de uma das primeiras teses de doutorado sobre literatura feminina na França, país que descobriu Clarice nos anos 80. “Ela tem inúmeras possibilidades de linguagem”, diz Nadia. “Há textos filosóficos, populares, histórias de vida, crônicas...”.

“No Brasil, Clarice é um ícone. Acreditávamos que seria considerada uma escritora universal em outros lugares do mundo”, diz Lúcia. Mas o fervor não foi adiante. Segundo as especialistas, a leitura de Clarice parece ter ficado restrita aos círculos universitários. A pesquisadora Hélène Cixous, nascida na Argélia, é a grande responsável pela disseminação da obra de Clarice na Europa. “Ela colocou a escritura de uma mulher no meio das grandes escrituras”, diz Nadia Setti. Nadia foi uma das primeiras doutorandas do Centro de Estudos Femininos, fundado em 74 por Hélène Cixous. “A diferença de sexo estrutura o pensamento”, afirma.

Já Claire Varin prefere ficar distante dos meios acadêmicos. Ela escreveu dois livros sobre Clarice Lispector, um deles traduzido para o português e ilustrado com fotos maravilhosas da escritora: Línguas de fogo (Limiar). Clarice inspirou Claire a também se experimentar na ficção, que quase sempre tem um toque de suas passagens pelo Brasil. É o caso de Profession: indien (“profissão: índio”, sem tradução no Brasil) que conta a história um índio brasileiro que pediu refúgio político no Canadá. O romance é baseado num caso real de um índio que Claire conheceu no Rio de Janeiro durante a conferência mundial de meio-ambiente Eco 92. “Clarice me ensinou a audácia de ser eu mesma”, diz Claire. “Posso escrever loucuras, catar outros mundos, sentir coisas que não se veem”.

domingo, 19 de Abril de 2009

Destinos Literários: São Petesburgo


Quem ao ler um livro, nunca imaginou os cenários descritos nele? Será que na realidade, ele se parecem com os cenários que imaginamos em nossas cabeças? Essa série visa responder essas perguntas. E para começar, vamos conhecer um pouco de São Petersburgo.

São Petersburgo é a cidade onde se passa a maioria das histórias de autores russos do século XIX, como, por exemplo, Dostoiévski e Tolstói. É nessa cidade onde se passa a história de Crime e Castigo, Noites Brancas e boa parte de Guerra e Paz.

Fortaleza de Pedro e Paulo, localizada as margens do rio Neva

A cidade foi fundada em pelo tzar Pedro, o Grande em 27 de maio de 1703 e serviu de capital para o Império Russo por mais de 200 anos. Velejando pela embocadura do rio Neva, recém conquistada aos suecos durante a Guerra do Norte, o czar Pedro, o Grande, decidiu desembarcar na pequena ilha de Zayachii ostrov. Arregaçando as mangas, ele que apreciava o trabalho físico, deu início as escavações do que viria a ser a futura fortaleza de Pedro-Paulo (que, em tempos de paz, pelos dois séculos em diante, serviu como central de encarceramento dos inimigos políticos do regime). Ao redor dela, nos canais que ainda seriam abertos, o czar mandou então que erguessem uma majestosa cidade. Exigiu-a de pedra para que a presença russa no Mar Báltico fosse para sempre. Uns anos antes ele viajara para o Ocidente, visitando a Alemanha, a Inglaterra e a Holanda, impressionando-se vivamente com a prosperidade reinante. Encantou-se quando viu a assombrosa paisagem de embarcações que os estaleiros de Amsterdã estavam construindo.

Palácio de inverno


Ponte sobre o rio Neva

A Rússia tinha que deixar de ser asiática, dar um basta nos hábitos tártaros, fazer aparar ou cortar aquelas barbas imensas que os mujiques, os camponeses, usavam, imitando os patriarcas bíblicos. Era essa a razão que o levou a fundar no dia 27 de maio de 1703 a sua nova capital: São Petersburgo (homenagem a São Pedro). Através dela, transferindo o trono de Moscou, a Rússia ingressaria na Europa. Para melhor supervisionar as obras, um projeto do arquiteto francês Jean-Baptiste LeBlond, ele alojou-se numa izbá, uma casinhola, onde ficou pelos primeiros cinco anos, até 1708. O custo humano foi terrível. Dizem que boa parte dos palácios e demais prédios públicos foram erguido sobre o ossuário dos operários mortos, gente que ele arrebanhou de todos os lugares do país. Fundada, disse o historiador N. Karamzin “sobre lágrimas e cadáveres”. Pedro não viu a cidade pronta, mas a estrutura urbanística permaneceu sempre a mesma. Diderot, estranhando aquele translado de Moscou para a beira do rio Neva, comentou que “era o mesmo do que colocar o coração na ponta do dedo”. O produto final, porém, foi uma maravilha. Os russos, que a chamam de Veneza do Báltico, até hoje dizem que ela é a mais bela cidade do mundo Pode ser, mas distou longe de ser a mais feliz.


Famoso Mercado do Feno em 1900, local de várias passagens de Crime e Castigo

Último romance de Vladimir Nabokov será publicado em novembro

O último romance escrito pelo autor Vladimir Nabokov (1899-1977), chamado "O Original de Laura", será publicado em novembro, anunciou a editora Penguin.
A obra foi escrita em 138 cartões que a empresa quer reproduzir junto a uma transcrição do texto na página seguinte.
O autor, famoso pelo livro "Lolita", deixou instruções para que o romance fosse destruído depois que morresse, mas o filho de Nabokov e testamenteiro da obra, Dmitri, decidiu publicá-lo no ano passado.
A emissora pública britânica BBC informou que os herdeiros de Nabokov receberam mais de US$ 1 milhão (R$ 2,1 milhões) pelo trabalho, que será lançado em 3 de novembro simultaneamente no Reino Unido e nos Estados Unidos.
Alexis Kirschbaum, o diretor da Penguin Classics, negociou diretamente com o filho de Nabokov e afirmou que "foi uma decisão muito complicada para Dmitri, estava há décadas pensando nisso", informou a empresa em comunicado.
"O Original de Laura" está guardado em um caixa-forte de um banco suíço há mais de 30 anos, e a rejeição do livro por parte de Nobokov é semelhante à sofrida por "Lolita", obra que o autor também quis destruir, mas que acabou publicando após ser pressionado pela mulher.
O romance conta a história de um homem obcecado com a mulher promíscua e que narra esta obsessão desde que se conheceram quando eram jovens.
Kirschbaum afirmou que o livro é sombrio e engraçado, e que explora "o que significa odiar a si mesmo e querer desaparecer".

quinta-feira, 2 de Abril de 2009

[Grandes Autores] Jack London: o Escritor Aventureiro


Flora Wellman enfrentou grandes dificuldades para parir o parrudo John. Primeiro, foi abandonada pelo pai da criança, William Chaney, astrólogo, jornalista, andarilho e hippie fora do tempo — corria o ano de 1876. Depois, com a deserção de seu amante, teve de resistir às várias sugestões que recebeu para que abortasse o rebento.

Doente e debilitada, Flora casou, sete meses depois do parto, com um veterano de guerra chamado John London. Daí o sobrenome com que o jovem John Griffith entrou para a história da literatura. Criado por uma ex-escrava negra chamada Virginia Prentiss, John poderia, no fim das contas, ter se chamado Chaney, Wellman ou Prentiss. Quis, no entanto, o destino — ou ele mesmo — que John ficasse mundialmente conhecido como Jack London. 

John, ou melhor, Jack, viveu uma infância dura e infeliz em Oakland, uma região pobre de San Francisco. Na adolescência, trabalhou como e onde podia. Percorreu os Estados Unidos como marujo, a exemplo de milhares de outros desempregados no começo do século. Essa peregrinação acabou conduzindo-o à militância política. Aos 19 anos, Jack era conhecido como o Garoto Socialista de Oakland. Candidatou-se várias vezes a prefeito da cidade, sem êxito.

Em seguida, Jack trocou a política pela literatura. Em 1897, passou o inverno na região do Yukon, no Canadá, e a junção da infância sofrida, da militância política e da dureza das condições de vida no Alaska acabou criando um estilo de literatura e de vida: Jack se transformava num romancista da natureza e dos homens rudes, ao mesmo tempo em que criava para si mesmo a figura de um homem aguerrido, sempre disposto a enfrentar polêmicas.

Seu livro Chamado Selvagem, publicado em 1903, quando tinha apenas 29 anos, o levou à condição de autor mais lido nos EUA nas primeiras décadas do século. Caninos Brancos é um clássico de aventuras e O Tacão de Ferro é considerado uma premonição — o primeiro texto que prevê a ascensão do nazismo na Europa.

Jack escreve mais de 50 livros em cerca de 15 anos. No meio das viagens que fez por todo o mundo e da literatura, tentava ainda algumas incursões desastradas no mundo dos negócios. A construção de veleiros foi uma delas. Outra, sua principal dedicação no final da vida, foi o Beauty Ranch: o rancho onde veio a morrer.

Entrementes, decidiu fixar-se em Londres. Investiu suas economias numa casa que chamou de Wolf House. Em agosto de 1913, dias antes de ser habitada, a casa foi consumida por um incêndio. Nada restou e reconstruir a Wolf House foi uma fixação que o acompanhou pela vida, junto com a depressão decorrente do fracasso.

Contraditório, autodidata, Jack defendia ao mesmo tempo as idéias ascendentes do socialismo do começo do século — Lênin o citava como exemplo de escritor — e as do mais extremado individualismo. Seus personagens traziam sempre um estigma de dor e sofrimento. Carrega a legenda de beberrão e mulherengo, que os biógrafos modernos tentam apagar, construindo em seu lugar a imagem de lutador incansável, generoso e bom pai. Depois de cruzar o Pacífico Sul por 27 meses num veleiro, já corroído pelas doenças (entre as quais a uremia) e pelo cansaço, Jack se acomoda em Sonoma Valley, região da Califórnia onde constrói seu rancho. Estava cansado de cidades e pessoas, disse.

Em 22 de novembro de 1916, veio a morte, causada por ingestão exagerada de barbitúricos. Foi sua última polêmica, dividindo seus biógrafos entre os que acreditam na morte acidental e os que defendem a tese de morte induzida. Mesmo na morte, Jack não deixou certezas nem quietudes. Nada melhor que seu texto preferido para definir a si mesmo: "Prefiro ser cinzas do que pó. Prefiro ser um soberbo meteoro, todo átomo em magnífica explosão, do que um planeta eternamente adormecido. A verdadeira função do homem é viver, e não apenas existir. Não gastarei meu tempo tentando prolongar esse tempo, usarei esse tempo, todo o tempo, para viver".