
Duas publicações começam a recolocar em circulação no Brasil a obra de Heinrich Heine (1797-1856), poeta e prosador alemão que andava meio esquecido por aqui. O Rabi de Bacherach (tradução de Marcus Mazzari; Hedra; 128 páginas; 14 reais) traz, além da obra incompleta de ficção que lhe dá título, três artigos contra o ódio racial que o autor escreveu em 1840, por ocasião de perseguições contra a comunidade judaica de Damasco (parte, então, do Império Otomano), com o apoio direto do cônsul francês. Já Navios Negreiros (tradução de Priscila Figueiredo e Luiz Repa; SM; 80 páginas; 30 reais), além do célebre poema de Castro Alves, estampa em nova tradução a balada de Heine que, provavelmente vertida para o francês, inspirou o texto abolicionista do bardo baiano.
Depois do reinado, ainda no começo do século XIX, de Schiller e, sobretudo, de Goethe, foi a figura de Heine que imperou, décadas a fio, na lírica de língua alemã. Personagem de transição entre a era romântica, com sua ênfase na imaginação individual sem peias, e o realismo, com suas preocupações centradas no estado presente da sociedade, Heine sempre habitou regiões fronteiriças de todo tipo. Nascido na Alemanha, optou por passar grande parte da vida adulta na França, a arqui-inimiga de seus compatriotas. Judeu numa Europa que fazia temporariamente de conta que aceitava sem maiores restrições os integrantes, pelo menos os assimilados, de seu povo, ele, mesmo após se converter ao cristianismo por razões de conveniência, sentia as barreiras que lhe eram impostas, minguando aqui para recrudescer adiante. Perfeitamente em casa no seu mundo já moderno, não deixava de ser pungido pela nostalgia de tempos mais definidos, menos instáveis. Era dotado ao mesmo tempo de uma ironia natural e de talento para a lírica mais pura, quase capaz de passar por popular ou folclórica (o que de fato aconteceu quando, no século seguinte, os nazistas, depois de tentar apagar-lhe as baladas mais famosas das antologias, atribuíram-nas à tradição anônima). Heine combinou esses dois elementos - lirismo e sarcasmo - em um amálgama com o qual pouquíssimos se mostraram capazes de rivalizar.

Chamado, com justiça maliciosa, de o maior jornalista da poesia alemã, ele usou, na lírica, os recursos que o tornavam um polemista temível. Na sua prosa, na qual a ficção é rara, fez sucesso com narrativas de viagem, críticas, comentários políticos. Malgrado seus frequentes laivos elitistas (que fizeram dele a leitura favorita da imperatriz austro-húngara Elizabeth, conhecida como Sissi), Heine, em especial nos anos 1830 e 40 - à medida que rompeu com diversas tradições, adotou causas progressistas e conheceu o jovem Karl Marx -, tornou-se, até certo ponto, se não o pai, pelo menos o avô do engajamento que, em outras mãos, renderia algumas páginas notáveis e toneladas de lixo ilegível. Entre seus melhores herdeiros diretos, encontram-se conterrâneos futuros seus, como Bertolt Brecht e Hans Magnus Enzensberger.
Não deixa de ser interessante que, por acidente editorial, ambos os lançamentos abordem e defendam duas causas que logo se interligaram: a abolição da escravidão (no poema O Navio Negreiro) e a emancipação dos judeus (nos ensaios sobre ódio racial). Vistas então pelo poeta como simbólicas do progresso da humanidade rumo à conquista de seus direitos, hoje elas seriam claramente definidas como duas faces do antirracismo. A primeira, graças ao empenho dos abolicionistas, resultou em sucesso. A segunda sofreu um revés traumático no século XX, com a invenção, pela direita europeia, do antissemitismo racial, e, mais recentemente, vem conhecendo retrocessos devido à pura e simples traição da esquerda contemporânea, que se aliou ao que há de pior no islamismo fanático, politizado e racista. Ressuscitasse hoje, Heine, olhando ironicamente ao seu redor, não deixaria de constatar que seus escritos continuam atuais.
As naus da vergonha











