quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

As pinturas de Clarice Lispector

Uma mostra no Rio de Janeiro traz pela primeira vez os quadros de Clarice Lispector – e uma biografia propõe novas explicações para os mistérios da escritor


A escritora Clarice Lispector comprazia-se em cultivar uma aura de mistério. Definia-se em frases como "sou tão misteriosa que não me entendo" ou "eu não decifrei a Esfinge, mas ela também não me decifrou". Seus romances talvez contenham elementos autobiográficos, mas indiretos e crípticos. Clarice não gostava de literatura confessional. É no aspecto biográfico (mais do que na inexistente qualidade artística) que reside o interesse de um pequeno e pouco conhecido conjunto de dezesseis pinturas sobre madeira realizadas por Clarice, que será exposto ao público pela primeira vez neste mês, no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro. Todos os quadros foram pintados em 1975 e ficaram guardados desde sua morte, em 1977, na Fundação Casa de Rui Barbosa. Testemunham um período especialmente difícil para a autora. Um ano antes, ela fora demitida do Jornal do Brasil, no qual escrevia crônicas semanais, e estava preocupada com sua situação financeira. Embora ainda não soubesse do câncer que a mataria dois anos depois, sua saúde já estava debilitada. Aos 54 anos, escritora consagrada, ela se dizia cansada da literatura e declarava que pretendia parar de escrever, talvez para sempre. Ao longo desse ano, pintou freneticamente. São obras abstratas, algumas sombrias, outras muito coloridas, todas com nomes trágicos: Medo, Explosão, Tentativa de Ser Alegre ou Caos da Metamorfose sem Sentido. Sobre Medo, escreveu que fora aconselhada a não olhar para o quadro, porque lhe fazia mal: "Eu conseguira pôr para fora de mim, quem sabe se magicamente, todo o medo-pânico de um ser no mundo". A pintora diletante supervalorizava sua produção – os borrões de Medo, afinal, só apavoram pela feiura. Mas um biógrafo da escritora acredita que os quadros tenham pistas para os traumas mais profundos e ocultos da autora de A Paixão Segundo G. H.
A relação de Clarice com a pintura é analisada em detalhes pelo americano Benjamin Moser em Why This World (Por que Esse Mundo?), biografia lançada em agosto nos Estados Unidos e na Inglaterra. Moser lembra que em dois romances – Água Viva, de 1973, e o póstumo Um Sopro de Vida – as personagens centrais são artistas plásticas, e há títulos de quadros que foram usados pela autora nas obras que pintou depois. Ele destaca que Clarice trabalhava seguindo com o pincel as nervuras da madeira. Assim, ao mesmo tempo em que cobria o quadro de tinta, ela ressaltava sua textura original. "É uma maneira de pintar oposta ao trompe-l’oeil, recurso que dá ao espectador a impressão de estar diante de um objeto que não existe. Ou seja, também nos quadros de Clarice existe a tensão entre real e inventado que marca sua produção literária", diz Moser.
Clarice já foi objeto de pelo menos três biografias no Brasil, mas Por que Esse Mundo?, que será lançada no país em novembro, traz algumas novidades interpretativas. Moser sustenta que a autora foi muito mais influenciada por sua origem judaica do que ela própria admitia. Os estudiosos brasileiros sempre acentuaram a marca do exílio na vida de Clarice, cuja família fugiu da Ucrânia para o Brasil, chegando aqui em 1922, pouco depois do nascimento da escritora. Mas o biógrafo americano acredita que ela nutria um misticismo ligado à tradição da cabala judaica, aspecto de sua formação cultural que ainda não teria sido suficientemente estudado no Brasil.

Na origem da família residiria, também, um detalhe trágico. Com evidências um tanto especulativas, Moser afirma que Mania, mãe de Clarice, foi estuprada por soldados russos, e que a paralisia progressiva que a levou à morte, em 1930, foi causada por uma sífilis contraída nessa violação. Essa afirmação ousada é baseada em duas circunstâncias. A primeira é histórica: nas perseguições a judeus na Ucrânia, os estupros eram comuns, e os casos de sífilis, muito frequentes. A segunda vem da ficção de Elisa Lispector, a irmã mais velha de Clarice. Moser fala de "uma estranha lacuna" em No Exílio, romance autobiográfico de Elisa. A autora revela que, em 1915, sua casa havia se transformado em refúgio de mulheres e crianças. No meio da noite, ouviram-se tiros, e sua mãe resolveu sair, sozinha, para ver o que estava acontecendo. "Ela decidiu salvar suas filhas e as outras pessoas que buscaram abrigo em nossa casa", escreveu Elisa, para depois contar que Mania voltou exausta e afundou-se, muda, numa cadeira. No livro Clarice, uma Vida que Se Conta, da pesquisadora da Universidade de São Paulo Nádia Gotlib, há uma nota de rodapé na qual a autora credita ao médico Henrique Rabin a hipótese da sífilis contraída num estupro. Ela diz, entretanto, que não há como confirmá-la. É provável que nunca se saiba o que de fato aconteceu na Ucrânia, antes que a família partisse para o Brasil. A hipótese de que Mania tenha sido estuprada carrega conse-quências trágicas para Clarice: a futura escritora teria sido concebida justamente para livrar sua mãe da paralisia. Segundo crença difundida entre os ucranianos, a gravidez teria o poder de curar doenças nas mulheres. Se isso é verdade, o fracasso nessa missão marcaria Clarice pelo resto da vida. Numa crônica publicada em 1968 no Jornal do Brasil, ela comenta: "Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdoo

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

[Curiosidade Literária] O romance mais longo da história


Em Busca do Tempo Perdido, do escritor francês Marcel Proust (1871-1922), é considerado o livro mais longo de todos os tempos. Tem 9 609 000 caracteres, contando os espaços entre as letras. Proust escreveu o primeiro volume, dos sete que compõem a série, em 1912. Dono de uma saúde frágil, passou boa parte da vida estudando e freqüentando os salões da aristocracia francesa, retratada em sua obra. O último volume foi adaptado para o cinema pelo diretor chileno Raoul Ruiz. Tempo Redescoberto (1999) teve no elenco nomes de peso, como as atrizes Catherine Deneuve, Emanuelle Béart e o ator John Malkovich.

sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

Primo Levi e Alexander Soljenítsin: Os dois lados de uma mesma moeda

Eu sempre me perguntei: qual a diferença entre um comunista e um capitalista quando estão a apontar uma arma para sua cabeça? Alexander Soljenítsin e Primo Levi viveram os dois lados da mesma moeda e provaram que, no final, capitalistas e comunistas são mais parecidos do que imaginamos.

Mussolini


Primo Levi nasceu em Turim em 1919, dentro de uma família judia liberal. Em 1934, ele entrou para o Massimo d'Azeglio liceo classico, uma escola secundária especializada no estudo dos livros clássicos. A escola era conhecida por seus professores anti-Fascistas, entre eles Norberto Bobbio e, por alguns meses, Cesare Pavese, que mais tarde se tornaria um dos mais conhecidos romancistas italianos. Muitos biógrafos diziam que Pavese foi o professor de italiano de Levi - e, por isso, uma de suas maiores influências intelectuais. Este mito foi refutado por Thomson, biógrafo definitivo de Levi.

Levi terminou a escola em 1937 e entrou para a Universidade de Turim, onde estudou química. Em 1938, o governo Fascista aprovou uma série de leis raciais que proibiam cidadãos judeus de freqüentar escolas públicas. Como resultado destas novas diretrizes, Levi, apesar de seu desempenho, teve dificuldade em encontrar um orientador para sua tese. Mesmo assim, ele conseguiu se formar em 1941, com méritos. Seu diploma, no entando, foi marcado com a expressão de raça judia. As leis raciais também impediram que Levi encontrasse uma ocupação permanente na faculdade, depois de formado.

Em setembro de 1943, depois que o governo italiano assinou o armistício com os Aliados, o ex-presidente Benito Mussolini foi resgatado da prisão pelos alemães. Ele passou a comandar um pequeno estado ítalo-germânico no norte da Itália, conhecido como República Social Italiana. O movimento de resistência italiano se tornou muito ativo nesta zona ocupada parcialmente pelos alemães. Levi, assim como vários de seus colegas, se juntaram aos partisans, que atendiam pelo nome de Movimento Justiça e Liberdade. Sem o menor treinamento militar, ele e seus companheiros foram feitos prisioneiros pela milícia fascista. Assim que os milicianos descobriram que ele era judeu, enviaram-no para um campo de prisioneiros em Fossoli, perto de Modena.

Em 11 de fevereiro de 1944, os prisioneiros do campo foram transportados para Auschwitz. Levi ficou onze meses no chamado campo da morte, até ser libertado pelo Exército Vermelho. Dos 650 judeus italianos mandados para Auschwitz com Levi, apenas vinte sobreviveram.

Levi sobreviveu por causa de uma conjunção de fatores. Ele sabia um pouco de alemão, por causa das publicações sobre química que lia; ele percebeu rapidamente que precisava a todo custo passar despercebido, sem chamar a atenção nem dos guardas nem dos prisioneiros. Sua experidência profissional também foi de grande ajuda: em novembro de 1944 ele passou a trabalhar como assistente no laboratório de Buna, que pesquisava um novo tipo de borracha sintética. Assim, ele conseguiu ao menos se manter aquecido dentro do laboratório. Logo depois da libertação do campo, ele foi acometido por escarlatina. Isso também salvou sua vida, porque os demais prisioneiros foram evacuados do campo pelas forças da SS no que ficou conhecido como marcha da morte.

Embora tenha sido libertado em 27 de janeiro de 1945, Primo Levi não voltou a Turim antes de 19 de outubro daquele ano. Depois de ficar algum tempo num ex-campo de concentração soviético, se recuperando, ele embarcou numa longa jornada até sua casa, na companhia de outros italianos, prisioneiros de guerra na Rússia. Durante esta jornada, ele passou pela Polônia, Romênia, Hungria, Áustria e Alemanha.

Literatura


Assim que voltou à Itália, Levi se tornou um químico industrial na fábrica SIVA. Ele começou a escrever sobre suas experiências no campo de concentração e sobre sua jornada de volta à pátria, que lhe renderam dois livros, hoje considerados clássicos: É isso um homem? (Se questo è un uomo) e A Trégua (La tregua). É isso um homem? foi rejeitado por Einaudi, a aclamada e comunista casa editorial de Turim. Uma pequena editora, De Silva, lançou o livro em novembro de 1947, numa edição de 2000 cópias. Apesar de uma crítica positiva escrita por Italo Calvino no jornal L'Unità, apenas 1500 cópias foram vendidas. Levi teve de esperar até 1958 para que Einaudi republicasse o livro, numa edição revisada e expandida.

A Trégua foi lançado em 1963, quase 16 anos depois de seu primeiro livro e no mesmo ano em que Levi ganhou o Premio Campiello. Comumente publicado junto com É isso um Homem?, A Trégua conta a sua longa jornada depois da libertação de Auschwitz. O livro alavancou a reputação de Levi. Ele passou a contribuir regularmente com artigos para o jornal La Stampa. Mas ele não queria ser reconhecido apenas como memorialista. Ele queria ser conhecido como escritor de ficção. Infelizmente, seu trabalho menos conhecido é justamente uma coleção de histórias de ficção científica de cunho extremamente pessimista, intitulada Vizio di Forma.

Ele também escreveu duas outras obras memorialísticas: Momentos de Reparação e O Sistema Periódico. Momentos de Reparação trata dos homens que ele observou durante a prisão no campo de concentração. O Sistema Periódico é uma coleção de pequenas histórias, a maioria episódios de sua vida mas também dois contos ficcionais que ele escreveu antes de ser enviado a Auschwitz, todos relacionados, de algum modo, aos elementos químicos. Na Real Academia de Londres, em 19 de outubro de 2006, O Sistema Periódico foi considerado o melhor livro de ciência jamais escrito.

Levi se aposentou de seu cargo como gerente na SIVA em 1977 e se dedicou a escrever em tempo integral. Dos livros produzidos durante este período, o mais importante é também o último, Os Afogados e os Sobreviventes (título da tradução portuguesa: Os Que Sucumbem e Os Que Se Salvam), uma análise do Holocausto na qual Levi explica que, apesar de não odiar os alemães, ele não os perdoou jamais. Seu conto mais famoso foi publicado na coletânea A Chave-Inglesa (1978).

Morte

Levi morreu em 11 de abril de 1987, depois de cair no vão da escada interna do prédio de três andares onde vivia. Especula-se, até hoje, que ele tenha se suicidado. Na época, Elie Wiesel disse que "Primo Levi morreu em Auschwitz quarenta anos depois." Embora muitos parentes argumentem que a queda foi acidental, a maioria dos biógrafos tende a acatar a idéia de suicídio.


Auschwitz - A indústria da Morte Nazista


Em maio de 1941, as tropas alemãs invadiram a URSS. Em 4 semanas de combates, foram feitos 3 milhões de prisioneiros – 2 milhões morreriam antes de 9 meses na prisão. Segundo o historiador britânico Robert Gellately, autor de The Specter of Genocide (“O Espectro do Genocídio”, inédito no Brasil), a invasão da URSS alterou os rumos da guerra no leste, iniciando a guerra de aniquilação, ou vernichtungskrieg, termo utilizado por Hitler para explicar que o objetivo alemão seria destruir completamente o Estado comunista. Para os nazistas, a aniquilação dos soviéticos era justificável: primeiro por causa das crenças racistas, que viam na mistura do comunismo com o judaismo a pior raça possível – eram numerosas as comunidades judaicas na URSS. Depois, do ponto de vista prático e logístico, o desfecho das vitórias que fatalmente aconteceriam elevaria sobremaneira a quantidade de prisioneiros sob os cuidados da Alemanha, tornando-se inviável garantir sua sobrevivência


A invasão da URSS revelou outro aspecto que teria desdobramentos trágicos nos territórios ocupados: o anti-semitismo. A presença de um grande número de comunidades judaicas no país sempre foi apregoada pelos nazistas como prova da conspiração entre bolcheviques e judeus, que teria sido responsável pelos males que assolaram a Alemanha após a 1ª Guerra. “Os judeus começaram a ser sistematicamente perseguidos na Alemanha em 1933, bem antes da guerra. Mas foi nos territórios soviéticos que o anti-semitismo se manifestou numa vertente até então inédita: o extermínio sistemático”, diz Robert Gellately. O britânico Christopher Browning concorda: “O plano nazista para liquidação dos judeus desenvolveu-se por etapas, durante a 2ª metade de 1941, e não era consensual em toda a cúpula nazista. Até a invasão da URSS não se pode afirmar que havia o objetivo de realizar o extermínio”, diz. Segundo ele, o aumento brutal do número de prisioneiros, que superlotou campos e guetos, e a percepção de que a vitória na URSS não seria rápida, fez os nazistas concluir que deportar judeus para o leste consumia homens, armamentos e recursos demais.

Em 31 de julho de 1941, Hermann Goering, um dos homens mais poderosos da cúpula nazista e próximo de Hitler, encomendou ao general Reinhard Heydrich da SS a elaboração de um plano completo de “solução final da questão judaica”, que se tornaria o Protocolo de Wannsee, apresentado à cúpula nazista em Berlim no início de 1942 numa reunião que teve como anfitrião Adolf Eichman, do Ministério Central da Segurança. Antes mesmo do encontro em Wannsee, porém, os primeiros trens de deportação de judeus para os campos de extermínio já haviam partido em 15, 16 e 18 de outubro de 1941, de Viena, Praga e Berlim, respectivamente.

Os superlotados guetos poloneses tornaram-se a primeira escala da viagem de centenas de milhares de judeus rumo aos campos de extermínio. Em janeiro de 1942, os primeiros 2 500 judeus de Lodz foram enviados para Chelmno, um pequeno campo na Polônia, dirigido por Herbert Lange, um dos líderes do Programa de Eutanásia de Adultos. Imediatamente ao chegar, os prisioneiros foram obrigados a se despir e levados até uma casa sem janelas. Atrás deles as portas foram lacradas. Um caminhão encostou junto a uma das laterais do prédio e o escapamento foi conectado a uma rede de canos que levava o monóxido de carbono para dentro da casa. Depois de algumas horas, a maioria estava morta. Aqueles que resistiram foram fuzilados. Operações semelhantes estavam sendo feitas em diversos campos na Polônia, como em Belzec, por exemplo, onde morreram os judeus do gueto de Lublin.

Em julho de 1942, Himmler anunciou que todos os judeus sob autoridade do Governo Geral – que era como chamavam a Polônia ocupada – deveriam ser evacuados até o fim do ano. Uma meta e tanto, já que havia 2 milhões de judeus na Polônia, 400 000 só no gueto de Varsóvia. O impacto da notícia em Auschwitz foi tamanho que Rudolf Hoss passou a realizar duas e não mais uma reunião semanal. Todas às terças e sextas, pontualmente às 9 horas, ele juntava seu pessoal para discutir a administração do campo, garantir o ritmo das obras em Birkenau e coordenar a chegada dos novos prisioneiros. Num desses encontros foi decidida a construção de novas câmaras de gás. Adaptadas a partir de duas velhas casas, as chamadas “casinha vermelha” e “casinha branca” tornaram-se, na prática, duas caixas de tijolos com portas e janelas lacradas e apenas duas aberturas: uma na frente por onde os prisioneiros entravam caminhando e uma saída na parte de trás, por onde os corpos eram retirados. Outros campos poloneses, como Treblinka, Sobibor e Belzec, tornaram-se genuínas fábricas de morte. Treblinka, o maior deles, ficava a 100 km de Varsóvia e lá 900 000 pessoas foram mortas. Muito menor que Auschwitz, o campo todo tinha apenas apenas uma plataforma de trens, meia dúzia de barracões e um enorme complexo de câmaras de gás, com capacidade para 2 000 pessoas ao mesmo tempo. O comandante de Treblinka, Franz Stangl, mandou plantar flores, pintou as plataformas em tons vivos e colocou placas com os horários de chegada e partida dos trens, como se aquilo fosse uma estação de verdade. Disfarçou as câmaras de gás em salas de banho, para que os prisioneiros permanecessem calmos, sem reclamar, sem tentar fugir ou provocar confusão. A oferta do banho tinha, ainda, um objetivo muito prático (e muito cínico). Nus, os corpos depois de mortos não precisavam ser despidos, o que poupava as roupas para serem reaproveitadas. Entre os prisioneiros enviados para lá, 99% estavam mortos duas horas após desembarcar do trem.

A escalada de mortes causava um desafio logístico: livrar-se de tantos corpos. Em Auschwitz, no início, eles eram enterrados, mas com o verão o cheiro se tornava insuportável. Em setembro de 1942, Hoss visitou o campo de Chelmno e lá conheceu um método de cremação único e muito eficiente. Ele contou que o coronel Paul Blobel tinha mandado abrir valas de 3 x 3 metros e 4 metros de profundidade. A um metro do fundo, instalava barras de aço transversais. Depois, despejava gasolina no buraco. Sobre as barras ele depositava os corpos intercalando-os com lenha, para que queimassem completamente. As cinzas caiam pelo vão entre as barras, liberando a grelha para que pudesse ser usada novamente. Quando elas atingissem a altura das barras de aço, bastava manejar a estrutura para cima, até que toda a vala ficasse repleta de cinzas. Humanas.

Em março de 1942, embora mais de 1 milhão de judeus já estivessem mortos, cerca de 80% de todos os que morreriam durante a guerra ainda estavam vivos. Durante os 12 meses seguintes, a porcentagem se inverteria. Em maio de 1943, apenas 20% de todos os judeus que morreram no Holocausto ainda estavam vivos.

Até o início de 1944, 550 000 pessoas já haviam sido mortas em Auschwitz. A essa altura, os Aliados sabiam o que ocorria lá e nos demais campos poloneses. Os prisioneiros passaram a conviver com a esperança (e com a desilusão) ao verem e ouvirem aviões aliados sobrevoar o complexo. Em agosto, a unidade da IG Farben em Monowitz, a apenas 6 km de Birkenau foi destruída por um ataque britânico. Os prisioneiros se perguntavam por que as linhas de trem ou as câmaras de gás não eram bombardeadas. E essa é uma das grandes questões da guerra que continuam sem resposta.

Com americanos e ingleses pelo ar e o Exército Vermelho pelo chão, o ritmo de mortes em Auschwitz caiu. Se em julho foram 10 000 execuções por dia, nos meses seguintes o número chegou a menos de 1 000. Hoss, então, resolveu eliminar o maior número de prisioneiros possível. No dia 2 de agosto, 21 000 ciganos foram ao crematório 5. Imaginando que seriam os próximos, os sonderkommando se rebelaram – em 7 de outubro. Atacaram os guardas e tentaram fugir, mas foram capturados e só não acabaram todos mortos porque havia 4 000 cadáveres para serem queimados. Para puni-los, Hoss decidiu alinhá-los e fuzilar 1 em cada 3. Sobraram apenas 92.

Em janeiro de 1945, veio a ordem para que se esvaziasse o campo. Documentos, plantas e telegramas foram queimados e crematórios e câmaras de gás, explodidos. Os soviéticos haviam interrompido as linhas e os trens não chegavam mais ao campo. Por isso, os últimos 50 000 prisioneiros que restavam foram obrigados a andar por 35 km, em meio à neve e sob - 20 ºC. Quem parou ou atrasou a marcha foi morto no caminho. O Exército Vermelho chegou a Auschwitz em 27 de janeiro. Não havia muito mais gente a libertar – apenas 1 200 prisioneiros fracos e doentes que haviam sido abandonados. Em 30 de abril, Adolf Hitler se matou num porão de Berlim. Em 5 de maio, a Academia Naval de Murwick, em Flensburg, norte da Alemanha, território ainda controlado pelos nazistas, foi sede da última reunião da SS. Rudolf Hoss esperava que uma derradeira e heróica ação fosse anunciada. Mas o marechal Himmler despediu-se do grupo e recomendou que todos aproveitassem o colapso do 3º Reich para sumirem no meio da multidão. Hoss então trocou sua farda de oficial por um traje comum da Marinha e se misturou a outros marinheiros em Sylt, uma ilha de veraneio sem nenhum valor estratégico. Himmler foi capturado dias depois e se matou engolindo cápsulas de cianeto de potássio.

Com o nome de Franz Lang, Hoss empregou-se numa fazenda em Gottrupel, norte da Alemanha. Acabou denunciado pela esposa, que havia sido presa e estava sob ameaça de deportação para a URSS. Preso enquanto dormia num estábulo, Hoss foi levado ao Tribunal de Nuremberg. O julgamento levou 3 semanas – tempo que aproveitou para escrever suas memórias, de onde as declarações reproduzidas nesta reportagem foram retiradas. A sentença – morte na forca – foi cumprida em 16 de abril de 1947, num pátio quase vazio em Auschwitz.

Em 1963, os 22 últimos acusados por crimes em Auschwitz foram julgados: 17 saíram condenados, 6 à pena máxima de prisão perpétua. Ao todo, 8 000 homens da SS trabalharam em Auschwitz. Sete mil sobreviveram à guerra. Oitocentos foram julgados. A 90% deles, nunca foi imputado qualquer crime.

Como era o dia a dia em Auschwitz?

"Arbeit macht frei” – ou “o trabalho liberta”. Era essa a inscrição na entrada do maior campo de concentração nazista. Erguido em 1940 nos subúrbios da cidade de Oswiecim, na Polônia, ele tinha três partes: Auschwitz I, a mais antiga; Auschwitz II-Birkenau, que reunia o aparato de extermínio; e Auschwitz III-Buna, com cerca de 40 subcampos de trabalho forçado. As primeiras vítimas do nazismo foram poloneses, seguidos de soviéticos, ciganos e prisioneiros de guerra. Em 1942, o campo voltou-se para a destruição em massa dos judeus. Lá, cerca de 1,5 milhão de pessoas morreram, a maioria em câmaras de gás. Em Auschwitz, os presos eram obrigados a usar insígnias nos uniformes conforme a categoria – “motivo político” era um triângulo vermelho; “homossexual”, um rosa. Muitos foram usados em experimentos médicos. No final da guerra, prevendo a vitória dos aliados, os alemães começaram a destruir crematórios e documentos enquanto evacuavam os prisioneiros. Os que não conseguiam andar foram deixados lá e liberados pelo Exército Vermelho em 27 de janeiro de 1945. Hoje, Auschwitz é um museu que preserva a memória do maior genocídio da História.


1. Seleção dos “capazes”

Os prisioneiros chegam em trens de gado e são selecionados por médicos. Os aptos ao trabalho entram numa fila e são tatuados com um número de registro. Velhos, doentes, grávidas, crianças e a maioria dos judeus vão para outra fila, direto para a câmara de gás. Os “capazes” tomam banho de desinfecção (contra tifo), raspam o cabelo e deixam seus pertences

2. Trabalho escravo

Os presos trabalham pelo menos 11 horas por dia para impulsionar a máquina de guerra alemã. Constroem prédios do campo de concentração e estradas e produzem carvão, borracha sintética, produtos químicos, armas e combustíveis em indústrias como a Krupp e a IG Farben. Embora não haja números oficiais, vários morrem de cansaço durante as obras

3. pão e sopa no almoço

A cozinha do campo prepara rações de comida três vezes ao dia, que em geral incluem um pedaço de pão, café e sopa de batata. Quem faz pouco esforço físico recebe cerca de 1 300 calorias diárias. Os que trabalham pesado ingerem 1 700. Após algumas semanas, essa dieta de fome leva à exaustão, deterioração do corpo e até morte

4. Entre ratos

Em Auschwitz I, cerca de 20 mil presos dormem em pavilhões de tijolo. Os treliches são em número insuficiente, e um preso dorme sobre o outro. Não há banheiro nem calefação – mesmo com temperaturas abaixo de zero. Em Birkenau, os alojamentos são blocos de madeira e tijolos feitos sobre o solo úmido. Cerca de 700 pessoas ocupam cada um

5. Espera congelante

Durante as assembléias de contagem, os presos ficam horas no frio, muitas vezes sem seus uniformes (calça comprida, camisa listrada e boina) esperando os nazistas decidirem quem será mandado à câmara de gás. Intelectuais, políticos e outras pessoas consideradas perigosas são fuzilados no Muro da Morte, nos fundos do bloco 11, ou enforcadas

6. Matemática sinistra

Em geral, o destino de 70% dos prisioneiros é a câmara de gás. A maior parte das vítimas é trancada nua em locais fechados – os nazistas diziam que elas iam tomar banho. Dentro deles, uma tubulação expele ácido cianídrico. A morte chega, no máximo, em 10 minutos. Os corpos são depois queimados num dos cinco crematórios – juntos, podem queimar 4 765 corpos por dia


Stalin


Alexander Soljenítsin nasceu em Kislovodsk, pequena cidade do sul da Rússia, na região localizada entre o Mar Negro e o Mar Cáspio, filho póstumo de Isaac Soljenítsin, um oficial do exército czarista, e de sua jovem viúva, Taisia Soljenítsina. O seu avô materno havia superado suas origens humildes e adquirido uma grande propriedade na região de Kuban, nos sopés da grande cadeia de montanhas do Cáucaso. Durante a Primeira Guerra Mundial, Taisia fora estudar em Moscou, onde conhecera seu futuro marido. (Soljenítsin relataria vividamente a história de sua família em suas obras "Agosto de 1914" e "A Roda Vermelha".)

Em 1918 Taisia se encontrou grávida, mas pouco depois receberia notícia da morte de seu marido em um acidente de caça. Esse fato, o confisco da propriedade de seu avô pelas novas autoridades comunistas, e a Guerra Civil Russa sendo disputada ao redor, levaram às circunstâncias bastante modestas da infância de Aleksandr. Mais tarde ele diria que sua mãe lutava pela mera sobrevivência, e que os elos de seu pai com o antigo regime tinham que ser mantidos em segredo. O menino exibia conspícuas tendências literárias e científicas, que sua mãe incentivava como bem podia. Esta viria a falecer aos fins de 1939.

Soljenítsin estudou matemática na Universidade Estatal de Rostov, ao mesmo tempo cursando por correspondência o Instituto de Filosofia, Literatura e História de Moscou. Durante a Segunda Guerra Mundial participou de ações importantes como comandante de uma companhia de artilharia do Exército Soviético, obtendo a patente de capitão e sendo condecorado em duas ocasiões.

Prisão e início da carreira literária


Algumas semanas antes do encerramento do conflito, já havendo alcançado território alemão na Prússia Oriental, foi preso por agentes da NKVD por fazer alusões críticas a Stalin em correspondência a um amigo. Foi condenado a oito anos em um campo de trabalhos forçados, a serem seguidos por exílio interno em perpetuidade.

A primeira parte da pena de Soljenítsin foi cumprida em vários campos de trabalhos forçados; a "fase intermediária", como ele viria a referir-se a esta época, passou-a em uma sharashka, um instituto de pesquisas onde os cientistas e outros colaboradores eram prisioneiros. Dessas experiências surgiria o livro "O Primeiro Círculo", publicado no exterior em 1968. Em 1950 foi enviado a um "campo especial" para prisioneiros políticos em Ekibastuz, Cazaquistão onde trabalharia como pedreiro, mineiro e metalúrgico. Esta época inspiraria o livro "Um Dia na Vida de Ivan Denisovich". Enquanto neste campo retiraram-lhe um tumor, mas seu câncer não chegou a ser diagnosticado.

A partir de março de 1953, iniciou a pena de exílio perpétuo em Kol-Terek no sul do Cazaquistão. O seu câncer, ainda não detectado, continou a espalhar-se, e ao fim do ano Soljenítsin encontrava-se próximo à morte. Porém, em 1954 finalmente recebeu tratamento adequado em Tashkent, Uzbequistão, e curou-se. Estes eventos formaram a base de "Repartição do Câncer".

Durante seus anos de exílio, e após sua soltura e retorno à Rússia européia, Soljenítsin, enquanto lecionava em escolas secundárias durante o dia, passava as noites escrevendo em segredo. Mais tarde, na breve autobiografia que escreveria ao receber o Nobel de Literatura, relataria que "durante todos os anos até 1961, eu não apenas estava convencido que sequer uma linha por mim escrita jamais seria publicada durante a minha vida, mas também raramente ousava permitir que os meus íntimos lessem o que eu havia escrito por medo que o fato se tornasse conhecido".

Morte
Soljenítsin morreu em Moscou em 3 de agosto de 2008, segundo seu filho, em conseqüência de uma insuficiência cardíaca aguda.

Gulag - A indústria da Morte Comunista


GULAG, acrônimo russo para Administração Principal de Campos, um ramo do NKVD (antecessor do KGB) dedicado ao controle dos campos de trabalho escravo soviéticos. Por extensão, o termo é também usado para descrever a rede de campos sobre os quais o GULAG presidia.

Junto com as galés comuns e as zonas de exílio administrativo, os campos constituiam o núcleo do sistema soviético de repressão. Os internos, homens e mulheres, normalmente passavam por um breve período de detenção e interrogatório antes de serem sentenciados in absentia a um período fixo de 8, 10, 12 ou 25 anos de trabalhos forçados. Eles podiam esperar que suas sentenças incluíssem um período posterior de “exílio livre” fora do campo. A vasta maioria não viveu para ver o fim de suas sentenças. Muitos sucumbiram durante a jornada inicial em comboios penais, que os levavam em vagões de gado ou barcas fluviais para as mais distantes e inóspitas regiões do país. A expectativa média de vida dentro dos campos era de um inverno. Para todos os propósitos práticos, ser sentenciado ao GULAG equivalia a uma sentença de morte.

Os primeiros campos foram erguidos logo após a Revolução de Outubro de 1917 e foram usados na guerra civil de 1918 a 1920. No final dos anos 1920, Stalin expandiu seu comando, seus poderes, e funções com o início da industrialização forçada e da coletivização da agricultura, também à força. O sistema criou vida própria com o chamado Grande Terror, com o maior nível de encarcerações ocorrendo de 1936 a 1938. Mas o sistema de campos de trabalho escravo em massa foi mantido daí por diante, e a detenção de inocentes cidadãos soviéticos continuou a ser uma prática difundida. Durante a campanha de “deskulakização” (a destruição dos proprietários de terras), tanto quanto nos últimos estágios do Grande Terror, os serviços de segurança soviéticos tinha frequentemente recorrido a fuzilamentos em massa como os que eles fizeram na Floresta de Katyn (o massacre de oficiais poloneses capturados na Segunda Guerra Mundial). Mas o relativo declínio do Terror após 1939, junto com a crescente demanda por mão-de-obra, restaurou a primazia do GULAG.

Informações sobre o GULAG começaram a aparecer no Ocidente durante o final dos anos 1920, por alguns dos poucos que conseguiram escapar. Em 1930, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos impôs um embargo à alguns produtos soviéticos, em grande parte devido às evidências de que trabalho escravo havia sido usado em sua manufatura. Na Grã-Bretanha a Sociedade Contra a Escravidão lançou um inquérito que concluiu que prisioneiros estavam sendo usados como mão-de-obra escrava em madeireiras e exibiu sinistros relatos de suas condições de trabalho. Essas histórias foram reforçadas pelos poloneses do Exército de Anders (ex-prisioneiros de guerra, libertados graças à pressão dos Aliados ocidentais. Mais tarde, combateriam na Itália, com o 8o Exército britânico) quando eles deixaram a URSS em 1942. Eles eram o maior grupo de pessoas a chegar ao Ocidente com evidências de primeira-mão sobre os GULAG, e eles trouxeram com eles documentos do NKVD relatando o aprisionamento dos poloneses nos campos e sua subseqüente libertação. Evidências jamais vistas no Ocidente antes.

O começo da Segunda Guerra Mundial, em setembro de 1939 deu a Stalin sua chance para ocupar a Estônia, Letônia, Lituânia, Polônia oriental e a Romênia oriental, onde vasto número de detenções tiveram lugar. A maquinaria do terror erigida na URSS foi geograficamente desdobrada pelas tropas do NKVD sob a liderança de Béria.


A política repressiva soviética tinha uma brutal racionalidade subjacente. Muitas das vítimas pertenciam as elites militares, políticas, profissionais e culturais, especialmente nas áreas recém-ocupadas. Stalin tencionava remover todas as influências reais e potenciais que obstruissem a imposição da estrutura política stalinista e da ideologia comunista.

As condições nos GULAG eram inumanas. Os prisioneiros eram forçados a trabalhar numa dieta de esfomeamento e sob extremas condições climáticas. O não-cumprimento dos índices exigidos era punido pela redução das rações, e quebras menores de disciplina por espancamentos e fuzilamentos. Alexander Solzhenitsyin calculou que a taxa de morte de desnutrição, doença e exaustão durante os anos de guerra alcançou 1% por dia. Não era anormal para os poucos prisioneiros que cumpriam seu termo ver recusada sua libertação sob o argumento de que eram os trabalhadores mais produtivos.

A maioria dos prisioneiros dos campos experimentou uma piora de suas condições após a invasão alemã da URSS, em 22 de junho de 1941. A ocupação por Hitler, da Ucrânia e de partes da região do Volga criou dificuldades de suprimentos alimentícios: e a população do GULAG foi compelida a suportar o peso da crise. Mesmo a ração planejada para os prisioneiros, abaixo do mínimo para subsistência, não era totalmente fornecida. A taxa de morte nos campos duplicou em 1941 e quintuplicou em 1942 em relação ao período anterior.

O trabalho forçado era direcionado para os projetos vitais nacionais: a construção de estradas de ferro, fábricas, e aterros em áreas de clima áspero; a mineração de ouro e carvão; a derrubada de florestas. Sem trabalhadores escravos, a economia industrial comunista teria falhado muito antes de conseguir seus objetivos. Mas até mesmo Stalin e Béria tinham de reconhecer as prioridades de tempo de guerra. Sabe-se que mais de um milhão de prisioneiros foram libertados durante a guerra germano-soviética. Em alguns casos, oficiais de alta-patente reingressaram no Exército Vermelho com seus postos anteriores restaurados. De outro modo, eram alistados em unidades encarregadas das mais perigosas funções ofensivas. O declínio no número de internos nos campos foi revertido a partir de começos de 1944 quando a vitória era certa e soldados inimigos capturados e prisioneiros-de-guerra soviéticos repatriados entraram nos GULAG.

Comparações com as práticas nazistas e japonesas são instrutivas. Os nazistas não gostavam de deter alemães a não ser que fossem oponentes políticos, judeus, homossexuais, ciganos, ou indivíduos mentalmente perturbados. Os japoneses reprimiam seus compatriotas apenas em caso de comprovada delinqüencia política ou moral. Stalin foi o único líder de guerra que manteve milhões de seus próprios cidadãos privados de meios de vida sem fornecer quaisquer razões para sua repressão.

O fantasma dos campos de concentração ainda não acabou; atualmente, países de orientação “comunista”, como a Coréia do Norte, continuam a usá-los.

Como era o dia a dia em Kolyma, o mais cruel dos Gulags Stalinistas?

Prisioneiros políticos viraram parte da força escrava que movimentou a economia da ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, principalmente durante a década de 50. O sistema de campos de trabalhos forçados ficou conhecido como gulag (glavnoe upravlenie lagerei, ou administração central dos campos). Sua origem, na verdade, é bem anterior à URSS do comunista Josef Stálin – tem precedentes na Rússia dos czares, desde o século 17. Mas foi com o stalinismo que o conceito se expandiu.

Os presos (ou zeks) geralmente iam parar no gulag acusados de espionagem ou traição. Lá, eram “recrutados” para minas, pedreiras, indústrias têxteis e químicas, uma série de ocupações. Embora não visasse a execução sumária, no gulag morria-se de fome, frio, tifo, exaustão (mais por negligência) – mas também houve extermínio. Dos 28,7 milhões de pessoas que passaram pelos campos de 1929 a 1953, há registro de 2 749 163 mortes. O número, porém, pode ser maior, já que documentos oficiais desapareceram.

Dos 476 complexos comandados pela polícia russa, os de Kolyma, na Sibéria, figuram entre os mais brutais – estão para o gulag como Auschwitz para o holocausto.

1. Viajando como gado

Os presos chegavam famintos e fracos após até três meses de viagem amontoados em vagões de gado e, depois, em porões de navios cargueiros. Ficavam dias sem água ou comida. À noite, mulheres eram atacadas pelo “bonde de Kolyma”, estupradores que subornavam guardas para entrar nos porões femininos, contam sobreviventes no livro Gulag. Muitos zeks morriam no trajeto.

2. Fila para o trabalho

Em filas de cinco, os zeks eram contados no pátio e tinham os pêlos e cabelos raspados para se livrarem de piolhos e percevejos. Ganhavam camisa e calça de verão, casaco, calça de inverno, botas de feltro e roupa de baixo – mas nunca havia itens suficientes. A seleção para o trabalho ocorria com eles nus no pátio, após serem classificados pela saúde, origem social e condenação.

3. Amanhecer às 3h30

O dia começava antes das 3h30. Um toque de sirene tirava os presos dos beliches coletivos – antes do trabalho, eles tomavam kasha (mingau de trigo). A quantidade de comida do dia dependia do cumprimento da meta de trabalho. Quem atingia a difícil cota ganhava 550 g de pão, 75 g de trigo ou macarrão, 15 g de carne e 500 g de batata. Os demais conseguiam metade da ração.

4. Jornada de 12 horas

Os presos trabalhavam no mínimo 12 horas por dia, com intervalos de 5 minutos às 10h e às 16h e uma hora de almoço ao meio-dia. Presos comuns tinham uma folga por semana e os de regime severo, duas ao mês. Eles só podiam largar o batente quando a temperatura caía a 50 graus negativos. Com dedos congelados, eram comuns os acidentes: mais de 60 mil por dia no gulag.

5. Banho a cada dez dias

Toda noite os presos faziam fila no pátio para a contagem. No tempo livre, podiam sair dos alojamentos lotados (1,5 m2 por pessoa) até a sirene tocar, indicando a hora de dormirem as cinco horas diárias. Muitos iam para as filas do banho, obrigatórios a cada dez dias. Cada zek tinha uma caneca de água quente e outra de água fria para lavar-se, além de 200 g de sabão por mês.

6. Canibalismo lá fora

Fugir era quase impossível. Segundo a jornalista Anne Applebaum no livro Gulag, guardas tinham ordens de atirar para matar quem atravessasse o arame farpado e entrasse na “zona da morte”. Há relatos de poucos presos que conseguiram fugir e levaram um outro zek desavisado para servir de alimento – sim, praticaram canibalismo porque não havia comida fora dos campos.

ONG denunciará García Márquez por apologia à prostituição infantil


O Nobel de Literatura Gabriel García Márquez será denunciado por apologia à prostituição infantil por causa do projeto de adaptação para o cinema de seu romance Memórias de minhas putas tristes, anunciou a ONG Coalição Regional Contra o Tráfico de Mulheres e Meninas na América Latina e Caribe (CATW-LAC).

A ONG acusa o escritor de, ao ceder os direitos do livro para o filme - que começa a ser rodado em breve -, "massificar a mensagem e reivindicar poeticamente como natural essa atividade (a prostituição), o que leva à normalização do fenômeno e o faz ser considerado lícito".

"O suposto filme faria uma apologia da prostituição infantil, corrupção de menores e violação de uma menina de 14 anos. Isso coloca em grave risco todas os meninos e meninas pobres da América Latina e Caribe", explicou Teresa Ulloa, diretora da CATW-LAC.

O romance narra a vida de um homem de 90 anos que decide presentear-se com uma noite de sexo com uma adolesente de 14 anos

quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

Escritora alemã Herta Müller vence o Nobel de Literatura 2009


A escritora Herta Müller, 56, é a vencedora do prêmio Nobel de Literatura em 2009. O anúncio foi feito na manhã desta quinta-feira (8), na sede da Academia Sueca, em Estocolmo. Müller é a 12ª mulher a vencer o Nobel de Literatura, que premia autores desde 1901.

"Estou muito surpresa e ainda não acredito", disse a escritora em comunicado divulgado por sua agente na Alemanha. "Não posso dizer mais nada neste momento."

Herta Müller tem apenas um livro publicado no Brasil, "O Compromisso", lançado em 2004 pela editora Globo com tradução de Lya Luft.

O livro conta a história de uma ex-operária da indústria têxtil que, com certa regularidade, é chamada para prestar depoimento ao major Aldu, da polícia secreta da Romênia, durante o regime totalitário de Nicolae Ceausescu (1918-1989). O ditador governou o país entre 1974 e 1989. Durante o anúncio do Nobel, a escritora foi definida como "alguém que, com a concentração da poesia e a franqueza da prosa, retrata a paisagem dos desfavorecidos".

A escritora nasceu em Nitzkydorf, Romênia, em 1953, dentro de uma família da minoria alemã nesse país. Sua estreia na literatura em 1982, com uma reunião de contos intitulada "Niederungen", que foi imediatamente censurada pelo governo comunista na época.

Em 1984, uma versão de seu livro de estreia foi publicada na Alemanha e o trabalho, que descreve a vida em um pequeno vilarejo de língua alemã na Romênia, virou febre entre os leitores. Em seguida, a autora lançou "Oppresive Tango" na Romênia. Por conta das críticas ao governo do país, Müller e seu marido emigraram para a Alemanha em 1987.

Pelo título de Nobel de Literatura, a escritora receberá a quantia de US$ 1,4 milhão (cerca de R$ 2,7 milhões).

As indicações são feitas por professores, escritores já laureados e membros das academias de letras do mundo inteiro. A tradição é manter o segredo sobre os votos, mas neste ano a professora dinamarquesa de literatura Anne-Marie Mai revelou ter indicado o músico Bob Dylan.

PERSEGUIDA PELA SECURITATE

Mueller, cuja mãe passou cinco anos num campo soviético de trabalhos forçados e que foi ela própria perseguida pela polícia secreta romena, a Securitate, depois de negar-se a servir de informante, fez sua estreia literária em 1982 com uma coletânea de contos.

A obra em questão, "Niederungen", foi censurada na Romênia. Nela e em seu livro "Drueckender Tango" (Tango Opressivo), publicado dois anos depois, Mueller escreveu sobre a corrupção e repressão no vilarejo de Nitzkydorf, de idioma alemão, onde ela nasceu.

Suas obras sensíveis e repletas de insights refletem a vida sob o governo de Ceausescu, deposto e executado em 1989. Mueller deixou a Romênia em 1987 com seu marido Richard Wagner e hoje vive e trabalha em Berlim.

Os ganhadores do Nobel de Literatura nos últimos anos têm sido sobretudo europeus, e algumas pessoas vêm criticando a Academia por ter uma visão mundial demasiado estreita. Mueller é a 12a mulher a receber o Nobel de Literatura.

Declarações feitas no ano passado pelo então secretário permanente Horace Engdahl, que disse que os norte-americanos não participavam do "grande diálogo" da literatura, tinham motivado especulações de que este ano o comitê pudesse premiar um escritor norte-americano.

Corretores de apostas viam o romancista israelense Amos Oz como favorito para receber o prêmio este ano, e os americanos Joyce Carol Oates e Philip Roth eram vistos como alguns de seus principais rivais.

terça-feira, 6 de Outubro de 2009

Viagem de Guimarães Rosa ao grande sertão rendeu obras da literatura


Algumas viagens entram para a história. Outras entram também para a literatura. Foi o que aconteceu com o escritor João Guimarães Rosa, quando, em maio de 1952, se lançou numa empreitada pelo sertão mineiro que marcaria sua vida e sua obra. Acompanhado de oito vaqueiros e levando 300 cabeças de gado, percorreu em dez dias os 240 quilômetros que separam Três Marias e Araçaí, na região central de Minas Gerais, sua terra natal. Trazia amarrada ao pescoço uma caderneta, onde anotava tudo que via e ouvia – as conversas com os vaqueiros, as sensações, as dificuldades e tudo que brotasse daquele mundo que ele reencontrava depois de anos vivendo como diplomata no exterior.

As cadernetas, hoje parte do acervo do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, foram reunidas em dois diários, que Rosa chamou de A Boiada 1 e A Boiada 2. As anotações seriam utilizadas como elementos de suas próximas obras – entre elas, Corpo de Baile (lançado em 1956), Tutaméia (de 1967) e Grande Sertão: Veredas (1956).

No dia 16 de maio, o escritor chegava à fazenda Sirga, de seu primo Francisco Moreira, em Três Marias. Três dias mais tarde, a boiada partiria para a viagem, fazendo seu pouso em várias fazendas e vilarejos da região. Rosa fez questão de acompanhar o dia-a-dia dos vaqueiros em tudo, comendo da mesma comida – carne-seca, toucinho, feijão e arroz com pequi – e dormindo nos mesmos locais. Em Barreiro do Mato, por exemplo, teria dormido dentro de uma grande forma de rapadura, um enorme tacho côncavo, e em vários outros locais passou a noite em colchões de palha de milho, comuns naquela época. Já próximo a Cordisburgo, cidade em que nasceu e etapa final da viagem, a comitiva teve um encontro com uma equipe da revista O Cruzeiro, que cobria a viagem do já famoso autor de Sagarana, lançado em 1946.

As obras de Rosa possuem uma infinidade de referências diretas e indiretas à viagem de 1952. A principal delas está em Corpo de Baile, mais especificamente na novela “Uma Estória de Amor”, inspirada na vida de Manuel Nardy, um dos oito integrantes da comitiva. Ele aparece transfigurado no personagem de Manuel Jesus Rodrigues, o Manuelzão. As semelhanças vão além do nome: estão em acontecimentos da vida do vaqueiro.

Outro vaqueiro que se destacou durante a viagem foi João Henrique Ribeiro, o Zito. Embora não tenha ficado tão famoso quanto Manuel, era Zito quem seguia o tempo todo ao lado do escritor. Assumiu as funções de guia e de cozinheiro da tropa e tirava quase todas as dúvidas de Guimarães Rosa. Embora não tenha resultado na criação de um personagem, a relação entre Zito e o escritor também teve seu destaque na obra. A perspicácia do vaqueiro chamou tanto a atenção de Rosa que, anos mais tarde, ele o homenagearia em Tutaméia, lançado no ano da morte do escritor. Em um dos quatro prefácios, Guimarães Rosa transcreve trechos de conversas com o vaqueiro e elogia sua inteligência e criatividade.