domingo, 22 de Novembro de 2009

Viúva de autor de "O Pequeno Príncipe" falsificou cartas para ficar com herança

O livro "Les Mystères de Saint-Exupéry" (os mistérios de Saint-Exupéry, em tradução livre), recém-lançado na França, está causando polêmica por revelar que a mulher de Antoine de Saint-Exupéry falsificou cartas com a assinatura dele para ficar com a herança do autor de "O Pequeno Príncipe".
Consuelo Suncín (1902-1979), que era de El Salvador e inspirou o personagem da rosa no livro mais famoso de Saint-Exupéry, "não era querida por boa parte da família de Saint-Exupéry e ficou com medo de ficar sem nada", diz o autor do livro que traz a revelação, o jornalista Jean-Claude Perrier.

Segundo ele, depois que Saint-Exupéry desapareceu sobre o Mediterrâneo em 1944 --ele também era aviador--, Consuelo "falsificou cartas para fazer todos acreditarem que ela era sua herdeira universal". Descoberta a fraude, a mãe de Saint-Exupéry, Marie, quis evitar um escândalo na época e propôs a Consuelo dividir os direitos em partes iguais.
A tentativa de falsificação permaneceu como um segredo da família de Saint-Exupéry por 60 anos. Perrier, considerado conhecedor da obra de Saint-Exupéry na França, usou em sua pesquisa documentos que estavam com Antonio Martínez Fructuoso, motorista, secretário e último amor de Consuelo.

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

Bebidas, orgias e muita chuva: o fim de semana que deu origem aos maiores clássicos do terror


Entre 15 e 17 de junho de 1816, uma tempestade deixou cinco amigos ingleses presos na mansão Villa Diodati, às margens do lago Genebra, na Suíça. Fechados na casa cercada de vinhedos e com vista para montanhas nevadas, começaram a ler contos de terror em voz alta. Quando se cansaram, resolveram escrever suas próprias histórias de fantasmas. Acontece que aquela não era uma casa qualquer - já tinha abrigado o poeta John Milton e os pensadores Rousseau e Voltaire. E esta turma também não estava para brincadeira. Seu líder era George Gordon Byron, o lorde Byron, o mais famoso poeta romântico da literatura britânica. A seu lado estavam o médico e escritor John William Polidori, o poeta Percy Shelly, sua namorada Mary e a meia-irmã dela, Claire Clairmont. Em três dias de verão suíço, esses colegas de farra criaram dois dos maiores personagens de terror já inventados: o doutor Frankenstein, com sua criatura feita de pedaços de cadáveres, e lorde Ruthven, antecessor direto do conde Drácula moderno.

Para alguns dos presentes, a proposta de Byron não foi muito longe. John Polidori começou a escrever o caso de uma mulher que espia por um buraco de fechadura e tem a cabeça transformada em caveira. Percy Shelley redigiu o hoje pouco conhecido Fragmento de uma História de Fantasma. Byron elaborou o fragmento da história de um nobre imortal, Augustus Darvell, que se alimentava do sangue de suas vítimas. Mas, para Mary, a tarefa chegou perto da obsessão. A ponto de, dois anos depois, a escritora ter aproveitado um sonho macabro que teve em Villa Diodati para publicar o romance que daria origem ao gênero do cientista louco na cultura popular.

Autoria polêmica

Em 1819, começou a circular pela Europa o conto The Vampyre, creditado a lorde Byron. O texto contava a história de lorde Ruthven, um viajante inglês que arruina a vida de um jovem cavaleiro chamado Aubrey. O sucesso foi estrondoso. No ano seguinte, a história ganhava uma continuação em que o nobre realiza uma turnê em busca de sangue por diversas cidades, de Florença a Bagdá. Nos anos seguintes, o nobre vampiresco se tornaria uma verdadeira coqueluche nos teatros europeus. E assim Byron passava a ser mencionado como o autor de mais um sucesso estrondoso com o público. O problema é que o conto não havia sido escrito por ele.

O excêntrico John Polidori era o braço direito de Byron durante as férias suíças. Como responsável por organizar os papéis do grande poeta, ele leu o manuscrito elaborado na Villa Diodati. Polidori já tivera contato com um romance alemão de 1801, chamado Der Vampyr, de Theodor Arnold, e conhecia alguns dos monstros folclóricos que, durante vários séculos e nas mais diversas culturas e civilizações, eram conhecidos por viver do sangue das vítimas. Mas, na hora de desenvolver o conto do antigo mestre, John, de apenas 20 anos, sintetizou as características mais duradouras dos vampiros modernos. Seu personagem era um nobre bonito (ainda que muito pálido) e sedutor, que atacava donzelas indefesas por onde passava. O conto foi redigido em 1819, três anos depois de o médico ser demitido por Byron. "Escrevi em duas ou três manhãs livres", ele relataria depois.

O nome do vilão, lorde Ruthven, era um ataque ao próprio Byron. Afetado e arrogante, o vampiro de Polidori sabia ser desagradável e repulsivo. Talvez tenha sido por isso que, quando o conto foi publicado como se fosse criação sua, Byron refutou enfaticamente a autoria. Ao que tudo indica, o engano foi provocado pelo editor da obra, que queria pegar carona na fama do poeta inglês. Polêmicas literárias à parte, o conto iniciado à beira do lago Genebra marcou as décadas seguintes. Ao longo do século 19, escritores de peso, como Edgar Allan Poe, Alexandre Dumas, Guy de Maupassant e H.G. Wells criariam personagens inspirados no vampiro de Polidori. Até que, em 1897, lorde Ruthven ganhou seu descendente mais famoso: o conde Drácula, inventado pelo escritor irlandês Bram Stoker.

Drama e paixão


Se a criação do vampiro moderno envolveu dois nobres e alguma dose de rancor, a história por trás das origens de Frankenstein tem elementos de novela mexicana, com traição, luxúria, morte e dor, muita dor. Os protagonistas são Percy Shelley e sua namorada Mary.

Nascido em 1792, Percy era um poeta e ativista radical que, nos idos de 1814, estava na rua da amargura e lidava ainda com um casamento em pandarecos. Quando conheceu o filósofo e escritor William Godwin, famoso por defender o ateísmo e o anarquismo, estava precisando de pão, ombro e carinho. Godwin apadrinhou Shelley, emprestando-lhe dinheiro e abrindo as portas de sua casa. O protegido acabaria se apaixonando pela filha do padrinho, Mary. Cinco anos mais nova que o poeta, ela também enfrentava seus demônios pessoais, tendo perdido a mãe dias depois de nascer.

O pai dera a Mary uma rica educação, mas não parecia se preocupar com a crueldade de Mary Clairmont, sua segunda esposa, que encarnava com perfeição o estereótipo de madrasta malvada. Mergulhar nos estudos era uma das únicas distrações da moça, que falava francês e italiano fluentemente. Não era surpresa, então, que Mary estivesse em volta da mesa nas muitas ocasiões em que seu pai e Percy Shelley passavam horas debatendo temas políticos na casa da família, em Londres. Godwin, porém, era bem menos liberal na prática que na teoria. Logo ele proibiria a filha de encontrar o protegido. "Mary viveu uma tremenda distância emocional e se tornou uma adolescente sedenta de emoção e aventura. Percy Shelley apareceu feito um cometa em sua vida", diz Miranda Seymour, autora de uma das mais respeitadas biografias da escritora.

Mary não só desobedeceu às ordens do pai como fugiu com Percy para uma viagem pela Europa, em 1814. No ano seguinte, tiveram uma filha, Clara, que morreu com poucas semanas de vida. Em 1816, porém, Percy e Mary finalmente se casaram depois de Harriet, a primeira mulher do poeta, morrer afogada - a versão oficial, ainda hoje bastante questionada, é a de que ela se suicidou em um lago do Hyde Park, em Londres. Antes de oficializar a união, aceitaram o convite de lorde Byron para a temporada à beira do lago Genebra.

Estavam acompanhados da misteriosa Claire Clairmont, a meia-irmã de Mary cujo papel nos últimos anos emergiu como algo bem maior que uma simples companheira de viagem. De acordo com estudos recentes de acadêmicos britânicos, as duas não só disputavam as atenções de Percy como dividiam a cama com ele. A moça também não escapou das atenções de lorde Byron - com quem ele teria uma filha, Allegra, nascida no ano seguinte.

Na temporada suíça, Mary era uma ouvinte atenta das conversas entre lorde Byron e Percy Shelley sobre o que era conhecido como galvanismo, uma teoria sobre a possibilidade de trazer organismos à vida com o uso de descargas elétricas. Por sinal, cientistas da época viam-se engajados em debates sobre as fronteiras da vida e da morte. A primeira mulher de Percy, por exemplo, tinha sido levada para um hospital de Londres em que experimentos de ressuscitação com vítimas de afogamento eram comuns.

Frio e chuva

Aliado às conversas, havia o tempo do lado de fora. Tempestades fenomenais foram comuns naquele 1816, que acabou conhecido como "o ano sem verão": a chuva caiu em 130 dos 183 dias em que a temperatura deveria ser quente. As sessões com lorde Byron eram, então, veneno antimonotonia. Especialmente porque o anfitrião era um verdadeiro pop star do século 19. O britânico era um dos mais populares poetas da Europa graças a suas posições contestadoras, em especial a defesa do amor livre, o que invariavelmente atraía as atenções do público para seu estilo de vida. Byron era conhecido pelo hábito de sair com senhoras casadas e pelas tendências bissexuais. O poeta contava ainda com uma astúcia fora do comum, inclusive para lidar com os muitos críticos de sua obra e de sua conduta. "Li uma crítica que me derrubou. Em vez de ter um aneurisma, tomei três garrafas de vinho e comecei a escrever uma resposta", disse ele num de seus mais famosos comentários.

O charme de Byron, porém, não resistiria ao poder dos boatos. Sua separação de Annabella Milbanke resultou em uma imensa lavagem de roupa suja em público, apimentada por uma série de intrigas espalhadas pelos advogados dela. Sua imagem no Reino Unido ficou arranhada e suas finanças, arruinadas. Quando chegou à Suíça, em 1816, Byron era um intelectual à procura de refúgio (reza a lenda que ele partiu de mala e cuia pouco antes da chegada de credores que vinham tomar sua casa). Porém, até que as chuvas isolassem a casa, o grupo não conseguiu privacidade total: Villa Diodati era observada por curiosos com lunetas, e nos arredores do lago Genebra era comum ouvir histórias de orgias e uso de láudano (um tipo de ópio) no casarão.

A farra no verão gelado inspirou Mary a escrever seu grande romance, mas não acabou com as tempestades em sua vida. Ainda em 1816, sua meia-irmã Fanny cometeu suicídio. No ano seguinte, morreu sua terceira criança, Clara, enquanto a segunda, William, faleceria três anos depois, vítima de malária. Em 1822, Percy Shelley morreria afogado durante um acidente num passeio de barco na Itália.

Berço em comum

Mary enfrentava ainda a dor da falta de reconhecimento. Já em 1824, seis anos depois da publicação da primeira edição de Frankenstein, e quando começavam a surgir as primeiras adaptações teatrais, críticos creditavam a autoria do livro a seu marido. Um debate que, por sinal, persiste. Em 2007, o acadêmico John Lauritsen publicou um livro cujo título, O Homem que Escreveu Frankenstein, já era provocativo por si só. Lauritsen, porém, ia além de argumentos discutidos à exaustão, como o fato de o manuscrito estar repleto de anotações feitas por Percy. Para ele, a profundidade e a complexidade de Frankenstein estavam além da capacidade de uma escritora amadora. "A grande pista é que toda a produção posterior de Mary Shelley é ordinária em comparação com o primeiro trabalho", ele afirma.

E assim, de forma curiosa, lorde Ruthven e Frankenstein compartilham a polêmica em torno da paternidade. Quanto ao berço, que eles também têm em comum, a Villa Diodati ainda existe e continua sendo observada de longe. A mansão fica no fim de uma estrada particular e os donos não permitem visitas, com raras exceções para grupos de estudos literários.


Festa estranha, gente esquisita
As personalidades que se reuniram em Villa Diodati

O assistente

Britânico de ascendência italiana, John Polidori (1795-1821) viajava pela Europa como secretário pessoal de lorde Byron, a quem admirava. Deprimido e cheio de dívidas de jogo, morreu em Londres, aos 26 anos.

O pop star

Lorde Byron (1788-1824) era o exemplo vivo do Romantismo. O autor de Don Juan lutou ao lado da organização italiana Carbonários. Faleceu na Grécia, enfrentando o Império Otomano.

A aprendiz

Depois de Frankenstein, seu romance de estreia, Mary Shelley (1797-1851) escreveu uma novela apocalíptica, O Último Homem, e um livro com registros de viagens. Não resistiu a um tumor cerebral.

A musa


Claire Clairmont (1798-1879) foi a única do grupo a alcançar a terceira idade (ela morreu com 80 anos). Teria sido amante do cunhado, a ponto de um amigo da família, o escritor Thomas Hogg, falar de "Percy e suas duas esposas".

O conquistador


Popular, o autor de Prometeu Libertado era um guru das novas gerações. Há quem diga que Percy Shelley (1792-1822) previu sua própria morte antes de desaparecer navegando na costa da Itália, a bordo de sua escuna Don Juan.

terça-feira, 17 de Novembro de 2009

Os amores de Maomé


No auge da cultura árabe, um homem com mais de 50 anos pede em casamento uma menina de nove. Mesmo contra a vontade dela, os dois se unem e passam a enfrentar as intrigas dos invejosos e as acusações de uma religião que acabava de nascer - o islamismo. Esse é o ponto de partida do livro "A Joia de Medina" (Editora Record), da jornalista americana Sherry Jones. Ele já seria incomum, mas a importância dos protagonistas torna a trama ainda mais excepcional.

O homem em questão é ninguém menos que o profeta Maomé (570-632), fundador do Islã. A menina escolhida para ser sua esposa é A'isha, que se casou apaixonada por outro pretendente, mas com o tempo passou a amá-lo. Por sua coragem, tornou-se excelente guerreira e também conselheira do profeta. Foi por meio de seus relatos que a jornalista resolveu contar esse momento marcante da história da humanidade - uma escolha que lhe rendeu a reação negativa de seguidores do islamismo, para quem as mulheres devem ocupar posição secundária.

Também as editoras se afastavam como o diabo foge da cruz. Exemplo: depois de firmar um contrato de US$ 100 mil, a conceituada editora americana Random House recusou-se a publicar o livro. Na Inglaterra, outra casa editorial teve o prédio atacado após anunciar que lançaria a obra. "A Joia de Medina" acabou indo para as estantes sob a chancela da Beaufort Books. Tornou-se best-seller e chega agora às livrarias brasileiras.


Para os radicais muçulmanos, há diversos pontos delicados no livro: eles não aceitam o fato de a criação do Islã ser contada por uma mulher nem a afirmação de que uma das esposas de Maomé estava desejando outro homem. Mas talvez o principal motivo de protesto tenham sido as passagens em que A'isha descreve seus jogos sensuais com o profeta: "Fui à porta receber Maomé usando apenas minha roupa de dormir, sem nada por baixo, a não ser a pele.

Quando ele entrasse, eu deixaria a túnica cair ao chão e ficaria em pé diante dele, completamente nua." Convidada pela Random House para fazer uma avaliação do romance, Denise Spellberg, professora de história do Oriente Médio na Universidade do Texas, o reprovou de forma taxativa: "Não se pode pegar a história sagrada e transformá- la em pornografia soft."

Os defensores da obra também protestaram e a polêmica teve a participação de Salman Rushdie, o escritor anglo-indiano que passou a ser perseguido por religiosos iranianos depois de escrever "Os Versos Satânicos". Ele declarou: "É censura causada pelo medo e cria um precedente muito ruim." De sua parte, a Random House não nega o temor de represálias. Ela justificou-se dizendo que não queria incitar "atos de violência de segmentos radicais" e se disse preocupada com a segurança da autora, dos empregados, dos vendedores e de todos os envolvidos no processo de distribuição desse romance histórico.

A professora Denise afirmou que o texto faz piada com os muçulmanos e a trajetória de seu povo: "Essa deliberada má interpretação da história tornou-se problemática." Reação diferente - e, sobretudo, insuspeita - teve o editor-chefe do site islâmico altmuslim.com, Shahed Amanullah. "A melhor resposta a um discurso livre é simplesmente outro discurso."

"A Joia de Medina" é um livro bem escrito, que desde a primeira página consegue envolver o leitor e transportá-lo no tempo até a região onde nasceu o Islã. Apesar do fôlego jornalístico impresso à saga de A'isha, a autora não se furta a um tom lírico que, geralmente, está ausente em obras do gênero. Ela começou a pesquisa em 2002, devido à quantidade de reportagens sobre os muçulmanos publicadas depois dos ataques terroristas do dia 11 de setembro.

Acabou se impressionando com a submissão das mulheres nos países islâmicos. A biografia de A'isha, uma das 12 mulheres e concubinas de Maomé, é simbólica, já que ela enfrentou suas limitações, foi de espada em punho ao campo de batalha enfrentar os inimigos e chegou a ser conhecida como Mãe dos Pobres. Numa das raras ilustrações que retratam Maomé com suas esposas, A'isha aparece em um plano inferior a Fátima, a filha de Maomé com sua primeira mulher, Khadija.

O curioso é que tanto ela como o profeta estão com o rosto coberto por véus - ao mostrá-los assim, os artistas muçulmanos evitavam que a representação do criador do islamismo aparecesse inexata ou sacrílega. "É grande a força dessa mulher - a inteligência e a coragem. Além disso, o seu senso de humor me atraiu imediatamente", disse a autora em uma de suas entrevistas. As cenas de alcova talvez sejam excessivas tratando-se de uma narrativa com tantos outros atrativos, mas diante da opressão feminina da época compreende-se a sua opção. Trata-se daquele tipo de livro em que é inevitável a solidariedade do autor para com os personagens.

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

Enciclopédia de Mário de Andrade dedicada ao Brasil é concluída


O escritor Mário de Andrade (1893-1945) iniciou, em 1939, um trabalho epopeO escritor Mário de Andrade (1893-1945) iniciou, em 1939, um trabalho epopeico: criar a primeira enciclopédia inteiramente dedicada ao Brasil. O projeto nasceu quando o autor de "Macunaíma" trabalhava no Instituto Nacional do Livro.

A obra seria similar à "Encyclopédie" francesa, do século 18, e à alemã "Brockhaus", cuja primeira edição é do início do século 19. Mas, após a morte do escritor, em 1945, colaboradores só persistiram por mais cinco anos, sem ultrapassar os verbetes da letra "A".
Quando se deparou, em 2003, com centenas de páginas guardadas na Fundação Biblioteca Nacional, no Rio, explicando detalhadamente "introdução, diretrizes e normas gerais" da "Enciclopédia Brasileira", o professor e tradutor espanhol José Luis Sánchez, no Brasil há sete anos, achou que o sonho de Mário poderia renascer --com modificações.
"Logo soube que não daria para aproveitar tudo o que o Mário fez, porque em 70 anos o trabalho envelhece, nem para fazer exatamente o que ele pretendia, pois o prazo que teríamos [cinco anos] seria curto, mas a inspiração e o entusiasmo dele foram o nosso ponto de partida", diz Sánchez.
Com o apoio da Biblioteca Nacional e da editora espanhola Oceano, Sánchez e a compatriota Meritxell Almarza montaram, em 2004, uma equipe com 29 pesquisadores brasileiros, além de mais de 50 profissionais, entre designers, fotógrafos, redatores e revisores.
A principal mudança em relação ao projeto original foi no modelo e na abordagem da enciclopédia. A equipe abandonou a ideia de uma obra de A a Z e adotou a divisão por temas: geografia, população, economia, política, história, artes, sociedade, esportes, mídia e cultura popular.
A "Enciclopédia do Brasil" compreende cinco volumes com mais de 1.200 páginas no total, além do conteúdo multimídia, que tem três CDs (com um Atlas do Brasil e do mundo, 300 perfis biográficos e o conteúdo digital da obra) e um DVD (documentário de 50 minutos sobre reservas naturais do país). Também foi criado um site, no qual a enciclopédia será atualizada regularmente.
O preço de venda da "Enciclopédia do Brasil" ainda não foi definido. Mário de Andrade,"talvez o maior nome do modernismo no Brasil", segundo a enciclopédia, sonhava com uma obra que pudesse ser comprada por qualquer brasileiro. Talvez essa parte do sonho do escritor não se realize. "Mas tenho certeza de que o Mário ficaria feliz ao ver a enciclopédia finalmente acabada.

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

Trainspotting: autodestruição e violência


Junção das palavras train (trem) e spotting (observando), Trainspotting significa, literalmente, observar trens, atividade comum entre jovens escoceses sem emprego e dinheiro. Em 1993, a expressão batizou um dos livros mais inovadores de seu tempo, que deu origem a um filme marcante sobre a geração drogas, sexo e música eletrônica. Juntos, filme e livro apontaram o rumo da cultura pop no apagar do século 20.

Trainspotting é uma coletânea de histórias sobre autodestruição e violência. Algumas estão entrelaçadas. Outras servem para retratar a falta de aspirações de uma turma de amigos de Edimburgo. O cinismo do texto ajuda a retratar vidas sem idealismo ou divagações filosóficas, resumidas na frase de Mark Renton: “Escolho não escolher a vida. Eu escolho outra coisa. E os motivos? Não há motivos. Quem precisa de motivos quando você tem heroína?” É século 21 na veia.

Curiosidades


• Trainspotting, o filme, chegou ao Brasil em 1996. Mas o livro só ganhou publicação aqui em 2005. A culpa pela demora seria a dura missão de traduzir Welsh, que escreve inspirado no inglês falado nas ruas da Escócia. O texto original é quase impossível de ser entendido por não-nativos.

• O Booker Prize, mais tradicional prêmio literário do Reino Unido, colocou Trainspotting na lista de candidatos em 1994. O livro não ficou entre os finalistas. Nenhum motivo especial foi divulgado, mas especulou-se que duas integrantes do júri teriam ficado ofendidas com as declarações machistas de Welsh.

• As histórias de Trainspotting vinham sendo publicadas em jornais, revistas e fanzines pelo menos três anos antes de virarem livro pelas mãos da editora Secker&Warburg – que não via na obra potencial para fazer grande sucesso.

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Soldado: George Orwell


No Natal de 1936, o britânico George Orwell tirou férias diferentes. Deixou sua vida de ex-policial e escritor pobretão na Inglaterra para lutar contra o fascismo na Guerra Civil Espanhola. Durante 6 meses, teve fome, frio e piolhos até na cueca. Também teve uma bala atravessada na garganta num tiroteio perto de Barcelona. Como soldado do Poum (Partido Obrero de Unificación Marxista), o que ele menos fez foi combater. O grupo tinha só um bocado de metralhadoras e fuzis velhos. Orwell passava o dia escrevendo memórias, que viraram o livro Lutando na Espanha . Os textos mostram que a guerra o inspirou a descer a lenha no totalitarismo e na imprensa, temas de sua obra-prima, 1984. “Toda guerra sofre de uma espécie de degradação progressiva a cada mês que passa, porque coisas como a liberdade individual e uma imprensa confiável simplesmente não são compatíveis com a eficiência militar”, escreveu.

Gringos guerreiros
Outros figurões na Guerra Civil Espanhola

Ernest Hemingway (1899-1961)

Viajou 3 vezes à Espanha como correspondente de guerra. Mesmo como repórter, estava na linha de tiro. Além de ajudar a proteger as Brigadas Internacionais, em Madri, ele rodou o mundo arrecadando dinheiro para as forças de esquerda.

Antoine Saint-Exupéry (1900-1944)

O autor de O Pequeno Príncipe chegou à Espanha no começo da guerra, em agosto de 1936. Lá, defendeu os republicanos, contrários ao general Franco, e escreveu sobre os horrores da guerra a um jornal de esquerda francês.

Apolônio de Carvalho (1912–2005)

Foi voluntário das Brigadas Internacionais de 1937 a 1939. De volta ao Brasil, lutou contra Getúlio Vargas, a ditadura militar e foi um dos fundadores do PT. Apolônio morreu no ano passado, aos 93 anos.


A Guerra Civil na Espanha - 1936 - 1939





A Guerra Civil espanhola (1936-39) foi o acontecimento mais traumático que ocorreu antes da 2ª Guerra Mundial. Nela estiveram presentes todos os elementos militares e ideológicos que marcaram o século XX.

De um lado se posicionaram as forças do nacionalismo e do fascismo, aliadas as classes e instituições tradicionais da Espanha (O Exército, a Igreja e o Latifúndio) e do outro a Frente Popular que formava o Governo Republicano, representando os sindicatos, os partidos de esquerda e os partidários da democracia.

Para a Direita espanhola tratava-se de uma Cruzada para livrar o país da influência comunista e da franco-maçonaria e restabelecer os valores da Espanha tradicional, autoritária e católica. Para tanto era preciso esmagar a República, que havia sido proclamada em 1931, com a queda da monarquia.

Para as Esquerdas era preciso dar um basta ao avanço do fascismo que já havia conquistado Itália (em 1922), a Alemanha (em 1933) e a Áustria (em 1934). Segundo as decisões da Internacional Comunista, de 1935, elas deveriam aproximar-se dos partidos democráticos de classe média e formarem uma Frente Popular para enfrentar a maré de vitorias nazi-fascistas. Desta forma Socialistas, Comunistas (estalinistas e troskistas) Anarquistas e Democratas liberais deveriam unir-se para chegar e inverter a tendência mundial favorável aos regimes direitistas.

Foi justamente esse conteúdo, de amplo enfrentamento ideológico, que fez com que a Guerra Civil deixasse de ser um acontecimento puramente espanhol para tornar-se numa prova de força entre forças que disputavam a hegemonia do mundo. Nela envolveram-se a Alemanha nazista e a Itália fascista, que apoiavam o golpe do Gen. Franco e a União Soviética que solidarizou-se com o governo Republicano.

Antecedentes da guerra


A Espanha ainda nos 30 era um anacronismo histórico. Enquanto a Europa ocidental já possuía instituições políticas modernas, no mínimo a um século a Espanha era um oásis tradicionalista, governada pela "trindade reacionária"(O Exército, a igreja católica e o Latifúndio), que tinha sua expressão última na monarquia burbônica de Afonso XIII. Vivia nostálgica do seu passado imperial grandioso, ao ponto de manter um excessivo número de generais e oficiais (1 general para cada 100 soldados, o maior percentual do mundo), em relação às suas reais necessidades.

A igreja, por sua vez, era herdeira do obscurantismo e da intolerância dos tribunais inquisitoriais do santo Oficio, era uma instituição que condenava a modernidade como obra do demônio. E no campo, finalmente, existiam de 2 a 3 milhões de camponeses pobres, los braceros, submetidos às práticas feudais e dominados por uns 50 mil hidalgos, proprietário de metade das terras do país.

Como resultado da grave crise econômica de 1930 (iniciada pela quebra da bolsa de valores de N. Iorque, em 1929), a ditadura do Gen. Primo de Rivera, apoiada pelo caciquismo (sistema eleitoral viciado que sempre dava seus votos ao governo), foi derrubada e, em seguida, caiu também a monarquia. O Rei Afonso XIII foi obrigado a exilar-se e proclamou-se a República em 1931, chamada de "República de trabajadores".

A esperança era que doravante a Espanha pudesse alinhar-se com seus vizinhos ocidentais e marchar para uma reforma modernizante que separasse estado e igreja e que introduzisse as grandes conquistas sociais e eleitorais recentes, além de garantir o pluralismo político e partidário e a liberdade de expressão e organização sindical. Mas o país terminou por conhecer um violento enfrentamento de classes, visto que à crise seguida por uma profunda depressão econômica, provocando a frustação generalizada na sociedade espanhola.

Os partidos políticos

As esquerdas, obedecendo a uma determinação do Comintern (a Internacional Comunista controlada pela URSS), resolveram unir-se aos democratas e liberais radicais num Fronte Popular para ascender ao poder por meio de eleições. As esquerdas espanholas estavam divididas em diversos partidos e organizações, entre as quais:

PSOE (Partido Socialista Obreiro Espanhol) Socialistas
PCE (Partido Comunista Espanhol) Comunistas
POUM (Partido Obreiro da Unificação Marxista) Comunistas-trotsquistas
UGT (União Geral dos Trabalhadores) Sindical Socialista
CGT (Confederação Geral dos Trabalhadores) Sindical Anarquista
FAI (Federação Anarquista Ibérica) Anarco-Sindicalista


Elas aliaram-se com os Republicanos (Ação republicana e Esquerda republicana) e mais alguns partidos autonomistas (Esquerda catalã, os galegos e o Partido Nacional Basco). Essa coligação, venceu as eleições de fevereiro de 1936, dominando 60% das Cortes (O parlamento espanhol), derrotando a Frente Nacional, composta pelos direitistas.

A Direita por sua vez estava dividida agrupada na CEDA (Confederação das Direitas autônomas), no partido agrário, nos monarquistas e tradicionalistas (carlistas) e finalmente pelos fascistas da Falange espanhola (liderados por José Antônio).

O golpe militar e a guerra civil



Motivado pela intensificação da luta de classes, especialmente entre anarquistas e falangistas que provocou inúmeros assassinatos políticos contribui para criar uma situação de instabilidade que afetou o prestígio da Frente Popular. Provavelmente as desavenças internas dos integrantes do Fronte Popular mais tarde ou mais cedo fariam com que o governo desandasse.

Mas a direta espanhola estava entusiasmada com o sucesso de Hitler (aplastamento das esquerdas na Alemanha, remilitarização da Renânia, etc...) que se somou ao golpe direitista de Dolfuss na Áustria, em 1934. Derrotados nas eleições os direitistas passaram a conspirar com os militares e a contar com o apoio dos regimes fascistas (Portugal, com Oliveira Salazar, Alemanha com Hitler e a Itália de Mussolini). Esperavam que um levante dos quartéis, seguido de um pronunciamento dos generais, derrubariam facilmente a República.

No dia 18 de julho de 1936, o Gen. Francisco Franco insurge o Exército contra o governo republicano. Ocorre que nas principais cidades, como a capital Madri e Barcelona, a capital da Catalunha, o povo saiu as ruas e impediu o sucesso do golpe. Milícias anarquistas e socialistas foram então formadas para resistir o golpe militar.

O país em pouco tempo ficou dividido numa área nacionalista, dominado pelas forças do Gen. Franco e numa área republicana, controlada pelos esquerdistas. Nas áreas republicanas ocorreu então uma radical revolução social. As terras foram coletivizadas, as fábricas dominadas pelos sindicatos, assim como os meios de comunicação. Em algumas localidades, os anarquistas chegaram até a abolir o dinheiro.

Em ambas as zonas matanças eram efetuadas através de fuzilamentos sumários. Padres, militares e proprietários eram as vítimas favoritas dos "incontroláveis", as milícias anarquistas, enquanto que sindicalistas, professores e esquerdistas em geral, eram abatidos pelos militares nacionalistas.

A intervenção estrangeira

Como o golpe não teve o sucesso esperado, o conflito tornou-se uma guerra civil, com manobras militares clássicas. O lado nacionalista de Franco conseguiu imediato apoio dos nazistas (Divisão Condor, responsável pelo bombardeamento de Madri e de Guernica) e dos fascistas italianos (aviação e tropas de infantaria e blindados) enquanto que Stalin enviou material bélico e assessores militares para o lado republicano.

A pior posição foi tomada pela França e a Inglaterra que optaram pela "Não-Intervenção". Mesmo assim, não foi possível evitar o engajamento de milhares de voluntários esquerdistas e comunistas que vieram de todas as partes (53 nacionalidades) para formar as Brigadas Internacionais (38 mil homens) para lutar pela defesa da República.

A crise entre as esquerdas

Stalin temia que a revolução social desencadeada pelos anarquistas e trotsquistas pusesse em perigo a defesa da República. Ordenou então que o PC espanhol comandasse a supressão das milícias (que seriam absorvidas por um exército regular) e um expurgo no POUM (uma pequena organização pró-trotsquista). O que foi feito em maio de 1937. Essa divisão íntima das esquerdas, entre pró-revolução e pró-república, debilitou ainda mais as possibilidades defensivas do governo republicano.

O fim da guerra


A superioridade militar do Gen. Franco, a unidade que conseguiu impor sobre as direitas, foi fator decisivo na sua vitória sobre a República. Em 1938 suas forças cortam a Espanha em duas partes, isolando a Catalunha do resto do país. Em janeiro de 1939, as tropas do gen. Franco entram em Barcelona e, no dia 28 de março, Madri se rende aos militares depois de ter resistido a poderosos ataques (aéreos, de blindados e de tropas de infantarias), por quase três anos. As baixas da Guerra Civil oscilam entre 330 a 405 mil mortos, sendo que apenas 1/3 ocorreu na guerra. Meio milhão de prédios foram destruídos parcial ou inteiramente e perdeu-se quase metade do gado espanhol. A renda percapita reduziu-se em 30% e fez com que a Espanha afundasse numa estagnação econômica que se prolongou por quase trinta anos.

domingo, 1 de Novembro de 2009

Cartas de T.S. Eliot desmentem fama de marido cruel e insensível


Uma série de cartas inéditas que o poeta e prêmio Nobel de literatura Thomas Stearns Eliot escreveu nos anos 20 comprovam sua preocupação com a mulher doente e desmentem a fama de marido cruel e insensível, pelo menos até a sua internação psiquiátrica.

As cartas divulgadas na edição dominical do "The Sunday Times" mostram um Eliot desesperado com o avanço dos problemas médicos de Vivien, com quem o autor de "The Waste land" (A Terra Inútil) casou-se em 1915, aos 26 anos.
Em uma delas, enviada ao romancista e crítico John Middleton Murry, Eliot conta que sua mulher tinha passado mal durante três dias e que ele teve a sensação de que sua mente tinha deixado o corpo.
Eliot deixou registrada sua própria angústia: "matei deliberadamente meus sentidos, me matei deliberadamente, para poder seguir com esta vida que é só externa".
A fama de marido insensível que terminaria internando sua esposa em um asilo psiquiátrico ficou presente na obra teatral "Tom e Viv", de Michael Hasting, de 1984, e que levaria depois ao sucesso no cinema com Willem Dafoe no papel de Eliot e Miranda Richardson como Vivien.
As cartas, compiladas com ajuda da segunda mulher do poeta, Valerie, foram publicadas nesta semana.
Eliot, funcionário do banco Lloyds de Londres, continuou trabalhando, mesmo sem gostar, porque precisava do dinheiro para sustentar a sua mulher doente enquanto escrevia poesia e se ocupava da revista literária "The Criterion".
O responsável pela publicação das cartas, John Haffenden, disse não ter certeza sobre se de fato são textos de Eliot, embora tenha afirmado que "essas e outras cartas deixam explícito seu desespero e angústia".
Há cartas da própria Vivien, em que ela revela ao poeta sua preocupação e seu amor. Em uma delas, datada em 1925, Vivien pede desculpas por deixá-lo louco.
Um mês depois, Vivien escreve dizendo que amava e sempre amaria o marido.
Segundo o editor das cartas, tanto Eliot como sua mulher estavam doentes, mas o certo é que o poeta e seu cunhado terminaram internando-a em um centro psiquiátrico, no qual permaneceu de 1938 a 1947, um ano antes do poeta ganhar o prêmio Nobel.
Eliot nunca a visitou, embora tenha mantido o casamento.
O segundo lote de cartas será publicado em dois anos, e uma das principais revelações, segundo o editor, é que Eliot, considerado um anti-semita, tinha amigos judeus.
A correspondência com seus amigos, o acadêmico americano Horace Kellen, mostra que durante a Segunda Guerra Mundial o poeta ajudou refugiados judeus.
"Não há provas de anti-semitismo algum na correspondência que examinei", explica Haffenden.
Esse episódio não convence Anthony Julius, que escreveu um livro explorando os sentimentos anti-semitas na obra de Eliot e concretamente em poemas como os titulados "Gerontion", Burbank With a Baedeker: Bleistein With a Cigar" e "Sweeney Among the Nightingales".