domingo, 3 de janeiro de 2010

[Grandes Autores] Nicolai Gogol


Nicolai Vassilievitch Gogol nasceu em Sorotchinsky, na Ucrânia, em 1809 e morreu em Moscou em 1852.

Contista genial, romancista e teatrólogo, é considerado, juntamente com Aleksandr Púchkin, um dos fundadores da moderna literatura russa. Devido a seu pai, antigo oficial cossaco, desenvolveu seu gosto pela literatura, e apesar do seu modo tipicamente temerário, nunca fora o amparo na infância de Gogol, ainda que o jovem nutrisse por ele o mais delicado afeto. Sua mãe transmitiu-lhe a fé religiosa, que veio a desencadear, à beira da sua morte, em um misticismo doentio. Os seus progenitores, seriam, portanto uma falaz influência em toda a obra do então jovem Gogol.

Depois de estudos medíocres, este jovem de fisionomia austera deixa a Ucrânia e encontra um modesto emprego de escritório ministerial em São Petersburgo. A distância de seu país natal e a nostalgia que dela resulta inspiraram alguns dos seus escritos. A panóplia de obras e romances do então funcionário desterrado avivaram a sua carreira como autor, e após haver conhecido pessoalmente o romântico Aleksandr Púchkin, a sua obra despoletaria em um realismo próprio - não diremos insuflado, mas pejado de uma fonte riquíssima em artifícios paradoxais, tal como Dostoiévski havia traçado em sua obra. Prova desse realismo tipicamente gogoliano seria a novela O Capote, cujo herói tornou-se o arquétipo - desterrado e visivelmente perturbado com as novas ideias modernas - do pequeno funcionário russo.

Somente após muitas tentativas (quis ser ator, poeta, funcionário público), conseguiu ser contratado para colaborar com alguns jornais, tornando-se conhecido do público leitor. Seu livro de estréia, Numa fazendo perto de Divanka (1832), uma coletânea de contos pitorescos e bem-humorados, foi um enorme sucesso de público, transformando-o da noite para o dia em uma celebridade.

A morte de Púchkin no ano de 1837, em um desinteressante duelo, abala profundamente Gogol. "Agora tenho a obrigação de concluir a obra cuja ideia fora do meu amigo". Referia-se, naturalmente, ao alentado texto de Almas Mortas.

Tenta publicar a obra em Moscovo em 1841, mas o Comité Moscovita de Censura recusa. Somente após uma intervenção dos amigos do autor é que o livro é publicado, em 1842. O romance é uma descrição em detalhe das preocupações do homem russo em uma Rússia profunda; uma sátira, às vezes impiedosa, que porém guarda subjacente o profundo e natural amor de Gogol pelo país.

De 1837 a 1843 vive em Roma. Resgressou à Rússia, doente. Um misticismo religioso acentuado leva-o a abandonar as antigas ideias liberais (como se aí residisse o que é de absolutamente condicionante) para se tornar um defensor da autocracia. Essa crise mística virá a exacerbar-se após a sua viagem à Palestina, em 1849.

As tribulações recomeçam: Itália, França, Alemanha, etc. Em 1848, faz uma peregrinação em Jerusalém. Aos poucos, sua saúde se degrada, grande parte culpa da sua irritável hipocondria que em nada o recompõe; seu sentimento religioso se exalta. Gógol se torna cada vez mais místico. É o seu maior transtorno mental, o fato de ir buscar pelo sentimento religioso a salvação da alma.

De volta a Moscovo, redige a segunda parte de Almas Mortas. Mas seu estado físico e psíquico se degrada incessantemente, mercê desse vício que o acompanha desde jovem idade: apesar de homem absolutamente sadio e regrado, esse vício ou superstição por uma ordem nova das coisas o martiriza. No início de Fevereiro de 1852, num momento de delírio, segundo dizem, ele queima na lareira de seu quarto todos os manuscritos inéditos - inclusive o fim da segunda parte de Almas Mortas.

Mal adaptado ao mundo, em 21 de Fevereiro de 1852 Gogol morreu amargurado, vítima de alucinações, revoltado com seu tempo, a arte e a política russa.

Após sua morte, as autoridades imperiais param as reedições de suas obras e o próprio nome de Gogol e praticamente proibido na impressa (somente após a morte do Czar Nicolau I, em 1855, é que suas obras voltam a ser publicadas). Por causa dessa proibição, Ivan Turguéniev acabou preso em Março de 1852, após escrever um comovido artigo em defesa de Gogol, no jornal Notícias de Moscou, sendo exilado em suas terras um mês depois.

Características literárias


Renovador e vanguardista, trouxe para a literatura russa o realismo fantástico e escreveu algumas obras-primas do conto universal. Os contos O capote - considerado por Jean-Paul Sartre como fundador da literatura moderna - e O Retrato são algumas das peças mais líricas da vertiginosa obra de Gogol.

Dono de uma ironia ácida e de um sarcasmo impressionante, Gogol é o mais brasileiro dos escritores russos. Seus textos facilmente irão fazer o leitor brasileiro se perguntar se realmente estão lendo um texto escrito por um autor russo do século XIX ou uma descrição da sociedade brasileira atual.

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