sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Legado de Leon Tolstói é revisto em centenário

Em 20 de novembro de 2010, será comemorado o centenário da morte de Liev Nikolaiévitch Tolstói. Em 1899, pouco mais de dez anos antes de morrer, Liev Tolstói (1828-1910) lançava seu último romance. Em maio de 2010, ano em que a morte do escritor completa cem anos, o texto de "Ressurreição" vai aparecer pela primeira vez em português traduzido do russo, pelo escritor e tradutor Rubens Figueiredo, 53.

Na época em que "Ressurreição" foi lançado, Tolstói, já célebre, era mais conhecido pelas críticas sociais e religiosas do que propriamente como escritor de ficção, como lembra o professor de história em Oxford Orlando Figes em seu "Natasha's Dance" [a dança de Natacha, estudo que parte de uma coreografia do tolstoiano "Guerra e Paz" para examinar a construção cultural da Rússia].

A imagem que foi fixada nesses cem anos de Tolstói como uma figura moralista tem mudado provavelmente com o fortalecimento da própria noção de Tolstói como escritor antes de polemista.

"A falha na recepção de Tolstói não é do Brasil: nós a aprendemos das tradições críticas dos países mais ricos e dotados de mísseis e aviões bombardeiros. Trata-se de insistir na visão de um Tolstói doutrinador religioso, moralista, cuja carreira se divide em duas partes: uma do escritor e a outra do pregador", diz Rubens Figueiredo.

"É uma simplificação que deixa de lado o caráter mais marcante da obra de Tosltói: seu cunho questionador dos pressupostos da sociedade moderna _um questionamento de espírito polêmico e feito de um ângulo que, às vezes, se assemelha ao de um antropólogo."

Para o o cientista político Paulo Sergio Pinheiro, coordenador do Núcleo de Estudos da Violência da USP, que assina o texto da quarta capa de "Ressurreição", trata-se de "um dos maiores romances de todos os tempos, ao demonstrar a interdependência entre privilégio e violência, através de um preciso desvendamento das relações de poder na sociedade".

"Tolstói foi um grande ficcionista. Ele tem que ser apreciado como ficcionista. Há momentos em que o pregador aparece, mas são poucos", aponta o tradutor Bóris Schnaiderman, 92, que lança em maio lança sua "retradução" de "Khadji Murat" (Cosac Naify).

"Em 'Felicidade Conjugal' ele se entregou plenamente a essa capacidade de transmitir as nuances das vivências humanas", afirma. "Tolstói tinha uma habilidade extraordinária de compreender as fraquezas humanas. [O cineasta Serguei] Eisensentein disse que 'Anna Kariênina' era de um moralismo feroz, e é verdade, é uma condenação do adultério. Ao mesmo tempo, tem uma compreensão, uma capacidade de transmitir as nuances, os sentimentos humanos, diante das quais essa finalidade inicial quase desaparece."

Primeira obra de Tolstói que Schnaiderman traduziu, "Khadji Murat" "saiu com o título de 'O Diabo Branco', pela Vecchi, em 1948", diz o professor aposentado pela USP, que refaz suas traduções.

O personagem-título é um tchetcheno que tem de decidir entre se aliar a russos para salvar a família sequestrada ou render-se a Imam Schamil (1797-1871), líder da resistência contra o Império Russo no século 19.

Para Schnaiderman, o texto merece mais atenção que a que tem recebido no Ocidente. "É um tema que nos toca hoje mais de perto. Tem havido mais atenção, Harold Bloom trata desse livro no seu 'Cânone Ocidental'."

Sem comentários:

Enviar um comentário