sexta-feira, 19 de março de 2010

[Grandes Autores] Liev Tolstoi, o Espírito Santo

Quando comecei a escrever essa biografia, estava fazendo aquela coisa estilo Wikipédia "Liev Tolstói também conhecido como Léon Tolstói ou Leão Tolstoi ou Leo Tolstoy, Lev Nikoláievich Tolstói (Yasnaya Polyana, 9 de setembro de 1828 — Astapovo, 20 de novembro de 1910) é considerado um dos maiores escritores de todos os tempos...". Mas ai eu pensei, porra! pra isso já existe a Wikipédia. Por isso, resolvi fazer essa biografia ao meu modo. Além do mais, Tolstoi era um cara que merece mais do que um cópia e cola da Wikipédia. Sim, meus amigos, Tolstoi foi grande, foi um gênio humano, um ser admirável.

É impossível não gostar desse cara. Primeiro, porque é impossível não gostar de alguém que tenha essa barba de Vovô bondoso, que se veste Papai Noel no Natal e sai distribuindo doces para os netinhos:



Segundo, porque a vida e, principalmente, a morte deste cara é digna de filme. A vida de Tolstói é bem simples, nasceu rico (era conde) mas ficou orfão muito cedo. Quando ficou mais velho, lá pelos 20 anos, resolveu fazer que nem o Ferris Bueller, ou seja, resolveu curtir a vida adoidado. Alistou-se no exercito russo, passou a beber todas e gastar toda a grana dos pais em jogos e putas. Pode-se dizer que, nessa época, na cidade em que Tolstói passava, não existia puta pobre.

Ficou mais velho, casou, teve filhos e aquietou o rabo. A mulher era uma chata, por isso eles passaram boa parte da vida conjugal brigando e discutindo. Sem ter o que fazer, ele passou a escrever e nessa brincadeira escreveu alguns dos maiores clássicos da literatura mundial, como Guerra e Paz e Anna Karenina.

A meia idade foi chegando e o velho continuou a escrever e começou a desenvolver algumas teorias que fizeram as pessoas o considerarem um anarquista cristão (Você deve estar se perguntando, wtf? Cristão Anarquista?). Em linhas gerais, o velho passou a criticar os Dogmas (Verdades Absolutas e Incontestáveis das Igrejas Cristã, tipo o fato de Maria ter engravidado de um Anjo ou Jesus ter ressuscitado). De tanto criticar, o velho foi excomungando pela Igreja Ortodoxa Russa, religião dominante no seu país.

O velho entendia como dogmas irracionais, que serviam apenas para dominar o povo, alguns dos conceitos mais caros à Igreja. Considerava e seguia a doutrina de Jesus, mas achava impossível, por exemplo, que Jesus pudesse ser um homem e Deus, ao mesmo tempo. Para Tolstoi, Deus estava nas próprias pessoas e em suas ações e Jesus teria sido, para ele, o homem que melhor soube exprimir uma conduta moral que gerasse justiça, felicidade e elevasse espiritualmente a todos os homens.

O Anarquista, por sua vez, advém do fato dele achar que os Estados, as Igrejas, os Tribunais e os dogmas eram apenas ferramentas de dominação de uns poucos homens sobre outros, porém repudiava a classificação de seus ideais como sendo anarquistas.

Seu cristianismo exacerbado, no fim de sua vida, assemelhava-se ao cristianismo primitivo. Em alguns trabalhos publicados, seus textos foram muito mais longe que suas atitudes pessoais, como em "Sonata a Kreutzer", que mostra uma tendência a exaltar o celibato, porém o escritor ainda teve filhos depois desta obra . Pouco antes de sua morte, seus amigos o aconselharam a se retratar com a Igreja, este porém, recusou-se (além de tudo era macho).

Enfim, o velho era foda. Mas agora vem a parte que eu mais gosto da história do Tolstoi, a sua morte. Quando ficou velho (82 anos) Tolstói se cansou da vida e resolveu fugir de casa, pois não acreditava mais na vida que vivia. O velho então pegou as malas e saiu viajando de trem pela Rússia. Durante alguns dias a fuga foi um sucesso. Nos trens e nas estações por que passava, Tolstoi era reconhecido por todos, já que era o homem mais famoso da Rússia. Porém, devido a sua preferência em viajar em vagões de terceira classe, onde havia frio e fumaça, o já debilitado escritor contraiu uma pneumonia, que foi agravando rapidamente. No dia 20 de novembro de 1910, o velho escritor morreu durante a fuga, de pneumonia, na estação ferroviária de Astapovo, província de Riazan.

O trem funerário que trazia seu corpo foi recebido por camponeses e operários que viviam próximos à propriedade dos Tolstoi. Seu caixão foi carregado seguido por uma multidão de 3 a 4 mil pessoas. O número teria sido ainda maior se o governo de São Petesburgo não tivesse proibido a vinda de trens especiais de Moscou para o enterro do escritor. Sua morte foi noticiada nos principais jornais do mundo.

Em homenagem ao mestre russo, o escritor Mário Quintana escreveu esse poeminha:

Poema da Gare do Astapovo

O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo,
Contra uma parede nua...
Sentou-se... e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Glória,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E então a Morte,
Ao vê-lo sozinho àquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali à sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A Morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta...)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se até não morreu feliz: ele fugiu...
Ele fugiu de casa...
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade...
Não são todos os que realizam os velhos sonhos da infância!

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