sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

J.D. Salinger é retratado como egoísta e cruel por sua filha, em biografia

Um egoísta sem sensibilidade, um machista que fez suas mulheres sofrerem e as abandonou, um tipo capaz de converter sua família em uma seita, um iluminado predestinado a fazer de sua vida uma grande obra. Estas revelações de Margaret A. Salinger, filha mais velha de J.D. Salinger, compõem a biografia "Dream Catcher" (2001) --sem edição em português--. As informações foram divulgadas pelo jornal espanhol "El País".

O volume é permeado por dois sentimentos: a admiração e o rancor da autora. Margaret descreve seu pai como um homem que acreditava que levar seus filhos por duas semanas de férias para a Inglaterra era o maior sacrifício que poderia fazer. Para a autora, Salinger era como os demais, uma pessoa cruel e miserável.
Margaret define Salinger como um egoísta absoluto e admite a profundidade dos abismos do escritor, presentes em sua obra. Porém, destaca que o que a incomodava é a intensa necessidade de uma pessoa estar andando pela borda do precipício. No entanto, em certa parte do livro, Margaret também declara que seu pai passou a vida escrevendo coisas belas.
Em outra passagem, a autora declara que, para Salinger, ter alguma falha era motivo de repulsa, e ter um defeito, uma espécie de traição. "Não me estranha que seu mundo está tão vazio de pessoas reais nem que seus personagens de ficção se suicidam tanto". Na biografia, Margaret mostra-se como uma mulher que sofreu horrores --frequentes ataques de pânico e cinco abortos.

quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010

Morre o escritor J.D. Salinger aos 91 anos


O escritor J.D. Salinger morreu aos 91 anos, "de causas naturais", em sua casa em New Hampshire, nos EUA.Recluso havia muitos anos, o escritor não dava entrevistas desde 1980 nem se deixava fotografar.

O seu livro mais conhecido, "O Apanhador no Campo de Centeio", foi lançado em 1951, quando ele tinha 32 anos. O personagem principal do livro, o adolescente Holden Caufield, se tornou símbolo da geração de jovens do pós-guerra. obra foi um sucesso mundial, e vendeu mais de 60 milhões de cópias em todo o globo.

O anúncio da morte foi feito pelo filho do autor, a partir de um comunicado emitido pelo representante literário de Salinger, nesta quinta-feira.

quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

[Curiosidades Literárias] "Uma andorinha só não faz verão"

Geralmente, as expressões idiomáticas têm origem popular. Não é este o caso. A primeira menção conhecida ao ditado está no livro Ética a Nicômano, de Aristóteles (384-322 a.C.). Na obra, o filósofo grego escreve que "uma andorinha só não faz primavera", no sentido de que um indivíduo não deve ser julgado por um ato isolado.

A escolha da andorinha não é casual. Na busca por calor, essas aves sempre voam juntas, em grupos de até 200 mil animais. As maiores aglomerações de andorinhas são vistas nas Américas. Em outubro, quando começa a esfriar no norte, elas percorrem 8 mil quilômetros até a América do Sul, de onde voltam em abril.

segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010

A Escola de Atenas, uma foto de amigos

A Escola de Atenas não é só uma conhecida, formidável e enorme obra de arte de sete metros de largura por cinco de altura pintada pelo grande Rafael. A pintura também é uma galeria de personagens clássicos onde o pintor converte os gênios do renascimento contemporâneo e amigos seus nos maiores sábios da antiguidade.


No centro do quadro destacam-se dois personagens. O da direita, que assinala com sua mão à terra (referência a sua filosofia, que trata principalmente de questões terrenas, mundanas, naturais) é Aristóteles e o da esquerda, com o dedo apontando ao céu (referência a sua filosofia, que trata principalmente de questões metafísicas, divinas, da alma) é Platão, ainda que seu rosto seja o do grande Leonardo Da Vinci.

Também no centro, mas mais abaixo encontramos a Heráclito (filósofo pré-socrático considerado o "pai da dialética". Recebeu a alcunha de "Obscuro" principalmente em razão da obra a ele atribuída por Diógenes Laércio, Sobre a Natureza, em estilo obscuro, próximo ao das sentenças oraculares.), que em realidade é o grande Michelangelo. Rafael pintou-o em local tão destacado pelo assombro e regozijo que teve ao ver as pinturas da Capela Sistina antes que Michelangelo tivesse terminado.


O que traça algo com o compasso é Arquimedes (matemático, físico e inventor grego. Foi um dos mais importantes cientistas e matemáticos da Antiguidade e um dos maiores de todos os tempos.), mas com o corpo de Bramante, mestre arquiteto e amigo de Rafael.


O que segura a esfera é Estrabão, geógrafo e historiador grego e o do centro, o "bicão de foto" é o próprio Rafael representando o pintor da antiguidade Apeles.


Todos os rostos representados no quadro são de pessoas reais ainda que muitos não sejam tão conhecidos como os já citados ou simplesmente não foram identificados. De toda forma, a galeria de eminências clássicas poderia continuar. Como por exemplo com este grupo de cientistas onde dá para idenfiticar Hipatia (matemática e filósofa neoplatônica.), (de branco em pé). O do turbante é Averróis (filósofo, médico e polímata muçulmano andaluz conhecido pelo nome de Averróis, distorção latina do antropônimo árabe. Sua filosofia é um misto de aristotelismo com algumas nuanças platônicas) e também Anaximandro (filósofo pré-Socrático. Discípulo de Tales. Geógrafo, matemático, astrônomo e político. Os relatos doxográficos nos dão conta de que escreveu um livro intitulado "Sobre a Natureza"; contudo, infelizmente, esse livro se perdeu.) que está colando do grande Pitágoras (filósofo e matemático grego, fundador da escola pitagórica).


Também há personagens heróicos como Alexandre Magno (maior conquistador da antiguidade) (com o elmo) e Xenofonte (soldado, mercenário e discípulo de Sócrates. É conhecido pelos seus escritos sobre a história do seu próprio tempo e pelos seus discursos de Sócrates.) que não quer nem encarar o conquistador (sabe-se lá suas razões).


sábado, 23 de Janeiro de 2010

Por que os quadrinhos se chamam gibi?


O nome vem de uma gíria do sul do Brasil – era como meninos negros e espertos eram chamados. O termo ganhou popularidade no fim da década de 30, quando virou o título de uma revista de história em quadrinhos. “Ela foi um sucesso tão grande que gibi passou a designar qualquer publicação em quadrinhos”, diz o cartunista Mauricio de Sousa. Porém, a história das HQs no Brasil é bem anterior a essa data. “Costuma-se apontar o trabalho do italiano Angelo Agostini, no século 19, como um dos primeiros do gênero”, diz o professor Waldomiro Vergueiro, do Núcleo de Histórias em Quadrinho da Universidade de São Paulo.

Atualmente, porém, existe uma resistência entre os especialistas no uso da palavra. “Ela está relacionada ao público infantil, e não é toda história em quadrinhos que é destinada às crianças”, afirma Gazy Andraus, também da USP.

Vi aqui

As Anne Franks desconhecidas


Esqueça Hitler, Churchill, Roosevelt e Stálin também. O melhor jeito de saber o que realmente foi a 2a Guerra Mundial não são as histórias das batalhas ou os conchavos políticos, mas o dia-a-dia de gente comum que teve a vida virada de ponta-cabeça pela guerra. É o que mostram os diários destas 3 mulheres – uma francesa, uma judia-polonesa e uma alemã. Para quem tem estômago forte, como o delas.

RESISTÊNCIA

Agnès Humbert é uma heroína da Resistência à ocupação nazista na França. Ela redigiu e distribuiu, clandestinamente, o jornal Résistance, contra o governo controlado pelos alemães. E pagou caro. Denunciada e entregue ao inimigo, Agnès foi condenada a 5 anos de trabalhos forçados, comendo o pão que Goebbels amassou em prisões francesas e, pior ainda, em fábricas alemãs, onde tinha de manusear ácidos que queimavam a pele. Dureza. “Para as mãos, eu precisava de bandagens úmidas, só que não havia água... Tentemos, então, xixi”, escreveu a francesa. Agnès chegou a emagrecer 20 quilos (não havia comida suficiente), e ficar semanas sem tomar banho (não havia água para todo mundo), mas nem por isso entregou os colegas de subversão. E ainda ajudou os americanos a caçar nazistas quando a Alemanha entregou os pontos.

Agnès Humbert

Editora Nova Fronteira, 319 páginas.

O DIÁRIO DE RUTKA

Às vésperas de ser mandada para o campo de concentração de Auschwitz, onde morreria numa câmara de gás em 1943, a adolescente polonesa Rutka Laskier redigiu um diário curto, tipo agenda – típico das meninas da sua idade. Obrigada a viver no gueto judaico de Bedzin, distraía-se do horror em volta escrevendo frivolidades sobre as amigas e seus amores platônicos – que não eram poucos. Mas não deixou de descrever as restrições e o assombro dos judeus, cada vez mais encurralados, e a angústia de quem tem a morte diante de si. Além do diário, o livro traz um posfácio generoso, com um resumo da história dos judeus na Polônia, as manifestações anti-semitas que persistiram no país após o fim da guerra e uma explicação sobre como se formou o iídiche, o dialeto judeu que combina alemão antigo e hebraico.

Rutka Laskier

Editora Rocco, 83 páginas.

UMA MULHER EM BERLIM

Se os nazistas foram terríveis com judias e estrangeiras, a vida das alemãs na Berlim de 1945 também não foi moleza. Com a derrota nazista e a chegada do Exército russo à cidade, as moças tiveram que se virar para evitar o pior. Mas o pior invariavelmente acontecia. Pelotões russos movidos a vodca não perdiam oportunidade para descontar nas derrotadas os meses de abstinência sexual e a fúria contra qualquer um que falasse o idioma de Hitler. O diário de uma berlinense anônima, testemunha e vítima desses últimos dias da guerra, revela um cotidiano de estupros, medo e vergonha. A própria autora passa a explorar o sexo como ferramenta de proteção, atraindo oficiais para a cama – e para a escada, e para o sofá – a fim de evitar a violência. “Tudo isso devemos ao führer”, comenta ela.

Autora anônima

Editora Record, 285 páginas.

quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010

Cuba e EUA assinam acordo para conservar obras de Hemingway

Instituições culturais de Cuba e dos Estados Unidos assinaram um acordo de cooperação para conservar milhares de documentos, fotografias e livros do escritor Ernest Hemingway, que viveu na ilha durante mais de 20 anos, informou a imprensa local.
Hemingway, que ganhou o Nobel de Literatura em 1954, viveu na pitoresca Finca Vigía, uma mansão nas redondezas de Havana convertida em museu, onde fica grande parte de sua obra, de livros e manuscritos até troféus de caça.
"Com o objetivo de contribuir e melhorar o conhecimento sobre a vida e a obra do escritor Ernest Hemingway durante o período em que viveu na ilha, foi assinado um acordo de colaboração entre a Fundação Finca Vigía, dos Estados Unidos, e o Conselho Nacional de Patrimônio Cultural de Cuba", disse o Granma.
O jornal do Partido Comunista cubano disse que o contrato será por três anos e dará continuidade ao trabalho de conservação das obras e objetos que ficaram na casa.
Mary Jo Adams, diretora-executiva de Finca Vigía, e Fernando Royas, vice-ministro da Cultura de Cuba, estiveram presentes na assinatura do contrato.
Cuba disse que os trabalhos de restauro e digitalização dos livros que pertenceram ao aclamado escritor norte-americano permitiram colocar à disposição de acadêmicos e especialistas mais de 3.000 documentos inéditos, que incluem a correspondência do autor de "O Velho e o Mar".
Hemingway se mudou para Franca Vigía em 1939 e voltou aos Estados Unidos em julho de 1960, pouco depois da revolução cubana encabeçada por Fidel Castro em 1959.
O romancista norte-americano se suicidou em julho de 1961, aos 61 anos, em Idaho.

quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010

"Crepúsculo" ganha versão em quadrinhos nos Estados Unidos

Será lançado nos Estados Unidos a graphic novel baseada nas obras de Stephenie Meyer. "Twilight: The Graphic Novel (Vol. 1)" foi prometido pela Hachette Book Group para o dia 16 de março.

Por se tratar de uma adaptação do primeiro volume da saga de sucesso "Crepúsculo", a história foi dividida em duas partes, sendo que a segunda ainda não tem data para chegar ao público.

O texto foi selecionado do original e as ilustrações são assinadas pelo coreano Young Kim, fazendo uma fusão de estilos em quadrinhos, mantendo o preto e branco característico do Oriente, mas deixando um toque de cor.

Meyer acompanhou todo o processo de adaptação e foi consultada pelo ilustrador ao transformar suas palavras em desenhos. "Young fez um trabalho incrível transformando o que eu escrevi em belas imagens. Os personagens e cenários estão muito próximos do que eu imaginava enquanto eu criava a série", comentou a autora.

Veja abaixo a capa do quadrinho divulgada pela editora.





terça-feira, 19 de Janeiro de 2010

[Grandes Autores] Asimov: Ficcionista e visionário do futuro


Ele escreveu 470 livros. Seu conto O cair da noite, escrito em 1941, foi considerado pela Associação dos Escritores de Ficção Científica da América como a melhor história de todos os tempos. E a trilogia Fundação, do período 1951/1953, foi premiada com um Hugo, a mais cobiçada homenagem prestada pela Convenção Mundial de Ficção Científica, como a melhor série já escrita. Ao todo, foram oito prêmios de alto significado como reconhecimento público. Mas resumir a importância de Asimov a esses feitos seria subestimá-lo, pois ele não foi apenas ficcionista. Foi também um pioneiro na popularização dos conhecimentos e um visionário, e como tal influenciou o próprio desenvolvimento da ciência.

A melhor prova disso foram suas histórias sobre robôs, justamente aquelas que lhe conquistaram a popularidade, no início dos anos 40. Antes dele, a ficção científica era influenciada pelo chamado complexo de Frankenstein, pois os robôs geralmente eram pintados como simples monstros, que acabavam se voltando contra seus criadores. Asimov rompeu com o mito ao descrever robôs que também eram dóceis, inteligentes e dignos. Elaborou, além disso, as três leis da robótica: um robô não pode ferir uma pessoa, nem, por omissão, permitir que ela sofra; deve obedecer aos humanos, exceto quando houver conflito com a primeira lei; deve proteger sua própria existência, ressalvadas as regras precedentes. Esses conceitos tiveram o efeito de um clarão sobre as possibilidades do futuro, lembra um dos pais da inteligência artificial, o americano Marvin Minsky, hoje professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

“A primeira vez que tomei contato com as idéias de Isaac foi há cinqüenta anos, quando estava entrando na adolescência. As histórias sobre espaço e tempo me fascinaram, mas sua concepção sobre robôs me impressionou demais.” Depois disso, diz o cientista, nunca mais parou de pensar sobre como a mente trabalha. Como os robôs iriam pensar? Como construir os robôs com senso comum, intuição, consciência e emoção? Como o cérebro faz essas coisas? Para Asimov, em contraposição, foi gratificante a velocidade com que tais idéias se concretizaram, pois não acreditava que os robôs habitariam a Terra em seu tempo de vida. “Mas eles estão aí”, escreveu no segundo volume de sua autobiografia, publicado em 1980: In Joy Still Felt (Ainda com alegria, em tradução livre). O primeiro volume, In Memory Yet Green (Na memória ainda fresca) havia sido lançado um ano antes.

São robôs industriais, criados para realizar tarefas específicas, e não criaturas sensíveis. Mas já representam máquinas complexas e têm, inclusive, salvaguardas embutidas — um eco das leis de Asimov. “Eu fui o primeiro a retratar robôs assim”, pleiteia ele com toda a justiça. Apesar da empolgação que sentia ao ver o avanço da robótica, Asimov sempre recusou os convites de Minsky para conhecer os robôs em operação. “Eu lia avidamente tudo sobre Marvin e seus robôs, mas não fazia questão de vê-los funcionando. Seria como entrar em contato com o material da ficção. Talvez eu não goste da invasão do mundo real na minha ficção científica.”

Publicados originalmente na revista Astounding Science Fiction, editada por John Campbell, os contos sobre robôs foram reunidos, em 1951, no segundo livro de Asimov, “Eu, Robô”. Campbell era conhecido por sua habilidade em descobrir e incentivar novos talentos, e muitas das histórias de Asimov, antes de irem para o papel, foram debatidas longamente com ele. As três leis da robótica surgiram numa dessas conversas e Asimov atribuiu sua criação a Campbell, que se tornou seu amigo. Fora da ficção científica, Asimov rompeu com o mito de Frankenstein em outro sentido — descrevendo os cientistas como pessoas comuns, e não como magos, muitas vezes esquisitos.

O próprio Dr. Frankenstein criado por Mary Shelley em 1818, parecia mais um alquimista do que um pesquisador moderno. Em seus livros de divulgação, Asimov escreveu sobre quase todas as áreas do conhecimento humano. Explicou o que é um buraco negro, os corpos mais densos que podem existir; falou sobre o valor exato de pi, a razão entre a circunferência e o diâmetro; ensinou a nomenclatura da Química orgânica; e discorreu até mesmo sobre o número de batimentos cardíacos de um gato ao longo da vida. Se não conhecia um assunto, comprava alguns livros e não parava de ler enquanto não pudesse escrever a respeito.

“Para todos nós ele era um monumento”, elogia o prêmio Nobel de Física de 1988 e professor da Universidade de Chicago, Leon Lederman. “Muitos cientistas americanos foram levados para a ciência por causa dos livros de Asimov. Ele era notável pela sua capacidade de popularizar e entreter.” Para o astrônomo Carl Sagan, outro monstro sagrado da divulgação científica, Asimov era motivado por um forte impulso democrático. “Ele dizia que a ciência era muito importante para ficar na mão dos cientistas”, escreveu Sagan em um artigo publicado na revista inglesa Nature logo após a morte de Asimov.

Os dois eram amigos desde o início dos anos 60, quando o astrônomo, leitor ávido das aventuras intergaláticas narradas por Asimov, deu início a uma correspondência que se tornaria freqüente. Com sua típica falta de modéstia, Asimov costumava dizer que em toda a vida só encontrara dois homens mais inteligentes que ele: Carl Sagan e Marvin Minsky. E completava: “Não quer dizer que sejam mais talentosos que eu”. Menino de memória fotográfica, ele aprendeu a ler sozinho aos 5 anos, entrou na faculdade aos 15, e publicou sua primeira história aos 18.

Bem longe do local em que passaria a infância, ele havia nascido em Petrovich, a 200 quilômetros de Moscou, filho de Judah e Anna Rachel Asimov. Comemorava seu aniversário em 20 de janeiro, mas pode ter nascido em qualquer dia entre 4 de outubro de 1919 e 2 de janeiro de 1920, devido à mudança do calendário na Rússia. Aos três anos, emigrou com os pais para os Estados Unidos e se instalou na área judaica do Brooklyn. Aí, seu pai adquiriu a primeira da série de mercearias que teria.

Foi na banca de jornais e revistas, ao fundo da loja, que ele entrou em contato com as revistas de ficção científica. Lia as histórias com cuidado para não amassar as revistas, que seriam vendidas poste-riormente. A infância não foi fácil. Durante todos os dias, até mudar-se de No-va York em 1942, Asimov ajudava o pai, e suas obrigações na loja o impediam de fazer amigos. Solitário, passava a maior parte do tempo lendo e escrevendo. Anos mais tarde, ele admitiu que isso ajudou a torná-lo um escritor compulsivo, pois a loja ficava aberta dezesseis horas por dia, sete dias por semana.

“De alguma forma, eu assimilei esse horário como normal, e me orgulho de ter um despertador que nunca uso, apesar de acordar sempre às 6 horas. Eu continuo mostrando pro meu pai que não sou um vagabundo.” E não era mesmo. Acostumado aos apertos, ele passou metade da vida procurando uma garantia de estabilidade, mesmo que isso representasse muito trabalho e pouco tempo junto à máquina de escrever. O fato é que até se tornar escritor em tempo integral, em 1958, Asimov não acreditava que poderia viver apenas da literatura. Por causa disso, em 1942, ele suspendeu a tese de doutorado em Bioquímica na Universidade Columbia e aceitou um cargo de pesquisador na Marinha, no Estado da Filadélfia.

Havia se formado em Química três anos antes, e aos 21 anos concluíra o mestrado. Naquela época, ainda se debatia com o fracasso em entrar para a faculdade de Medicina e satisfazer o desejo da família. Esse complexo só iria desaparecer em 1950, quando pôde presentear o pai com seu primeiro livro, Pebble in the Sky (Cavernas de Marte em português). A década anterior havia sido conturbada. No início de dezembro de 1941, os japoneses atacaram a base americana de Pearl Harbour, no Pacífico, e o Congresso aprovou a declaração de guerra contra o Japão, Alemanha e Itália.

Assim, ao aceitar o trabalho de pesquisador na Marinha — onde trabalhou com Robert Heinlein e Sprague de Camp, já então dois grandes grandes nomes da ficção científica —, Asimov afastou temporariamente a ameaça de convocação. Também garantiu um salário providencial: tinha acabado de conhecer Gertrude Blugerman, com quem se casaria após cinco meses de namoro. Em 1946, finalmente, conseguiu dar baixa, retomar o estudo em Columbia e concluir o doutorado em Bioquímica. Sua primeira pesquisa foi a busca de uma vacina para a malária, que logo depois abandonou, com um desempenho apenas modesto, e aceitou o cargo de professor e pesquisador na Universitade de Boston.

Mas, então, seu interesse pela ciência tomaria um impulso avassalador com o sucesso soviético no lançamento do satélite Sputnik, em 1957. Os americanos reagiram de pronto com a criação de uma agência espacial, a NASA, e a ficção científica ganhou o coração de milhões de pessoas. Além disso, Asimov havia escrito um artigo sobre Genética e as raças humanas, e ganhou gosto pela divulgação da ciência. Como resultado afastou-se da pesquisa e aumentou a produção literária. Já não precisava correr atrás dos editores, que o procuravam espontaneamente pedindo histórias e artigos. Nada mais natural que acelerasse o passo na literatura, terminando a década de 50 com 32 livros publicados. Na década seguinte, foram 70 livros; nos anos 70, 109; e nos últimos doze anos de vida, 259.

Para sustentar esse ritmo, Asimov jamais tirava férias sem levar consigo a máquina de escrever portátil, e enquanto todos se divertiam, ficava trabalhando. Na maioria das vezes, a mulher Gertrude e os filhos, David, de 1951, e Robyn, quatro anos mais nova, viajavam sozinhos. Esses desencontros só terminaram com a separação e com o retorno de Asimov a Nova York, em 1970. É verdade que a ausência do escritor nas viagens não se devia apenas ao trabalho: embora fosse idealizador de naves espaciais e impérios galácticos, Asimov era acrófobo — passava mal só de pensar em entrar num avião. Ele só voou uma vez na vida: quando estava na Marinha e uma recusa significaria corte marcial.

Outra esquisitice era uma espécie de paranóia que o fazia pular da cama para ver se a porta do apartamento estava trancada. Se sua segunda mulher, a psiquiatra e escritora Janet Jeppson, demorava a chegar em casa, logo pensava que ela tinha caído num buraco. Amigos desde os anos 50, casaram-se em 1973, quando a fama e a influência de Asimov chegou ao auge.

Nas muitas palestras que era convidado a fazer, ele passou a disseminar uma inestimável confiança no conhecimento e na democracia. Ateu, recusava crenças de qualquer tipo — “duendes, diabos e bruxas” —, e dizia que a única coisa que merecia ser chamada de Deus era a racionalidade. “Houve um tempo que o mundo nos parecia repleto de inteligências superiores à nossa. Agora, que sabemos tanto a respeito do Universo, podemos nos concentrar nos males reais.” O homem que foi ao delírio quando o russo Yuri Gagárin subiu pela primeira vez ao céu, acreditava que no espaço se encontraria solução para boa parte dos problemas terrestres. Imaginava que a colonização da Lua e de Marte seria uma válvula para a superpopulação. E propunha colocar captadores de energia solar em órbita co-mo saída para se obter energia limpa.

Pessoalmente, sua realização foi ter escrito livros, como ele mesmo declarou enfaticamente numa conversa em quesua primeira mulher lhe perguntou como se sentiria se, depois de gastar tanto tempo escrevendo, percebesse que perdera toda a essência da vida. Ele respondeu: “Para mim a essência da vida é escrever. Se eu publicar 100 livros e depois morrer minhas últimas palavras vão ser: só 100!” Na verdade, quando a morte sobreveio, em 6 de abril de 1992, por insuficiência renal, o número havia chegado a 468 e ainda estava crescendo.

domingo, 17 de Janeiro de 2010

Mafalda, a pequena notável


Sempre que pode, o cartunista argentino Quino diz não se arrepender de ter parado de desenhar Mafalda nove anos depois da primeira tirinha, quando seu personagem tinha um número crescente de fãs. Entretanto, ele admite que se arrepende de algo que fez nas primeiras tiras da personagem: ter criticado tão duramente a presidência de Arturo Illia, que comandou a Argentina entre 1963 e 1966. E não é que aquele governo tenha sido assim tão bom. Quino é que não sabia que, depois do golpe militar que encerrou o mandato de Illia, a situação iria piorar tanto.

Mafalda apareceu pela primeira vez em 29 de setembro de 1964, na mais importante revista semanal argentina da época, a Primeira Plana. No ano seguinte, as tiras passaram a ser diárias, veiculadas no jornal El Mundo. Em 1967 Mafalda foi para a revista semanal Siete Días Ilustrados, onde ficou até a última historieta, publicada no dia 25 junho de 1973. Suas 1 928 tiras já foram publicadas em mais de 20 idiomas, incluindo russo, polonês e norueguês. Praticamente todas essas histórias, que ainda saem em jornais ao redor do mundo, estão reunidas na hilária coletânea Toda Mafalda.

Depois do golpe, as histórias da personagem e de seus amigos revelam as diferentes fases da ditadura argentina: a ineficácia do governo, a crise econômica, o endurecimento do regime. Durante quatro governos militares, Mafalda não se intimidou e permaneceu questionando a situação do país e fazendo perguntas bombásticas a seus pais. Para acompanhar a trajetória desse difícil trecho da história argentina, Toda Mafalda é uma verdadeira enciclopédia. Apesar de já ser quarentona, a personagem continua muito atual quando o assunto é a insatisfação diante da realidade social e política da América Latina.

Mudança de ares

Enquanto permaneceu no comando da Argentina, Arturo Illia sofreu críticas de todos os lados. Era comum que, dada sua lentidão em tomar decisões, ele fosse comparado a uma tartaruga – justamente o animal de estimação que Quino deu a Mafalda e batizou de “Burocracia”. “De um lado, Illia foi um presidente honesto e cauteloso, que evitou transformações abruptas num momento em que nacional e internacionalmente elas significariam riscos grandes”, afirma Júlio Pimentel Pinto, professor de História da América Latina da Universidade de São Paulo. “De outro, teve uma atuação inexpressiva na condução da economia e da política interna e externa.” Apesar do cenário desanimador, os argentinos pelo menos estavam vivendo um período de liberdade – algo muito valioso num país que tinha assistido a golpes de Estado nas três décadas anteriores. A imprensa aproveitava para satirizar Illia, coisa que Quino fazia muito bem.

Isso tudo tinha data para acabar. Não tardou para que os militares tomassem o poder e resolvessem as coisas à sua moda: o general Juan Carlos Onganía assumiu a presidência em 1966, onde permaneceu até 1970. Seus colegas de farda ficariam no poder até as eleições de 1973. A ascensão dos militares foi, como de costume, acompanhada por repressão. Quino respondeu à nova realidade de várias formas. Uma das mais geniais foi a última personagem criada por ele para a turma de Mafalda. Filha de hippies e esquerdista, ela tem duas características que a tornam uma metáfora explícita: é muito pequenina (tem menos da metade do tamanho de Mafalda) e se chama Liberdade.

Crise sem fim

Durante os nove anos das aventuras da Mafalda, foram várias as crises econômicas presenciadas pelos argentinos e registradas por Quino. Em 1964, por exemplo, havia uma conjunção de desvalorização constante da moeda e fraco desempenho agrícola. A conseqüente recessão deixou desempregados quase um terço dos trabalhadores. Apesar de alguns períodos mais prósperos (como em 1966, quando a taxa de crescimento anual foi de 5,6%), o que predominou, como podemos ver em Toda Mafalda, foi a crise generalizada e a estagnação. Quando tomou o poder, o general Onganía lançou seu Plano de Estabilização e Desenvolvimento. Uma das principais medidas foi facilitar a entrada de produtos estrangeiros no país, o que causou a falência de centenas de empresas argentinas, incapazes de competir com os importados.

O personagem que Quino melhor usa para falar de economia é Manolito, que trabalha na mercearia do pai, freqüentada pela turma de Mafalda. Seu sonho é ter uma cadeia de supermercados e ganhar muito, muito dinheiro – em busca desse objetivo, não é raro que ele tente enganar seus clientes. Manolito, que adora o modo como a inflação faz aumentar o preço das mercadorias que vende, vai muito mal na escola e não dá valor a “superfluosidades” – tais como as canções dos Beatles.

Repressão em alta

A partir de 1966, a Argentina viu sua liberdade ser dramaticamente reduzida. Estudantes viravam alvos da polícia, jovens desapareciam de um dia para o outro, jornais eram censurados – fenômenos bastante parecidos com o que ocorreu no Brasil e em outros países latino-americanos no mesmo período. As medidas autoritárias e impopulares do general Onganía, como o congelamento de salários, incomodavam muito os trabalhadores. Com a justificativa de combater o “comunismo”, o governo militar criou a Dipa (Direção de Investigação de Políticas Antidemocráticas) para perseguir, encarcerar e torturar militantes políticos e sindicais contrários ao governo. Onganía dissolveu partidos políticos e interveio nas universidades com ações violentas.

Dois episódios marcaram o aumento de violência do regime e foram, de maneira mais ou menos velada, retratados por Quino em tiras presentes em Toda Mafalda. O primeiro, ocorrido em 29 de julho de 1966, ficou conhecido como La Noche de Los Bastones Largos (ou “a noite dos cacetetes compridos”). Professores, diretores e alunos da Universidade de Buenos Aires foram arrancados das faculdades pela polícia, que tinha a ordem de não economizar no uso de seus bastones.

Três anos depois, um protesto semelhante aconteceu em Córdoba, com conseqüências ainda mais desastrosas. O ápice da truculência policial e militar foi batizado de Cordobazo e é considerado o equivalente argentino dos conflitos que marcaram o mês de maio de 1968 na França. Em 29 de maio de 1969, a maior manifestação de estudantes e trabalhadores já vista no país foi violentamente reprimida pelo exército (pois a polícia já havia se rendido diante da força dos manifestantes) e deixou dezenas de mortos e centenas de feridos. Marco na história recente da Argentina, o Cordobazo acabou tendo um efeito multiplicador, incitando manifestações país afora e enfraquecendo o regime militar.

Intragável censura

Mafalda odeia sopa. Todos os (muitos) dias que sua mãe insiste em lhe servir a iguaria, a menina faz questão de mostrar seu descontentamento. Esse foi um dos modos que Quino encontrou para manifestar seu desgosto com relação à ditadura. A sopa, segundo o cartunista, era “uma metáfora do autoritarismo militar”, assunto que não permitia abordagens muito diretas. Durante a ditadura, os veículos de comunicação que publicavam as tiras de Mafalda deixavam os limites bem claros: “Logo me advertiram que havia temas, como sexo, militares e repressão, em que não se podia tocar”, disse Quino em entrevista publicada no jornal argentino Clarín em 28 de julho de 2004.

Em Toda Mafalda, entretanto, existem tirinhas que dão a impressão de que os censores argentinos não eram assim tão rigorosos. Quino é bastante incisivo em certas alusões à tortura e à falta de liberdades democráticas, por exemplo. No fim dos anos 60, cartuns com esse conteúdo dificilmente poderiam ser publicados no Brasil – onde, após o Ato Institucional nº 5, de 1968, toda a produção jornalística e cultural foi ferozmente censurada. “Pode-se dizer que, no período que vai de 1968 até 1976, a censura foi um pouco mais branda na Argentina do que aqui”, diz o historiador Júlio Pimentel. “Entretanto, com o golpe militar argentino de 1976, a situação por lá ficou realmente complicada.” Quino acabou dando sorte, já que, nessa época, Mafalda não era mais publicada.

Mafalda se cala

Em 1973, Quino decidiu que era hora de deixar de desenhar Mafalda. Na época, ao se justificar, o cartunista disse que, diante do novo panorama argentino, a personagem teria de presenciar coisas que não suportaria. O curioso é que Quino não se referia a mais uma medida infeliz dos militares. A ditadura havia acabado e Héctor Cámpora havia sido eleito presidente em março daquele ano. O problema é que ele era um mero fantoche nas mãos de Juan Domingo Perón, líder populista que já tinha governado a Argentina por duas vezes. No exílio havia quase 18 anos, Perón tinha sido proibido pelos militares de se candidatar.

Em 20 de junho, Perón retornou ao país, vindo da Espanha. Uma recepção havia sido armada no Aeroporto de Ezeiza, nos arredores de Buenos Aires. Mas o local acabou sendo palco de um sangrento confronto entre facções rivais de peronistas. O evento, que ficou conhecido como Massacre de Ezeiza, deixou um saldo desconhecido de mortos e feridos. O ex-presidente pousou em outro local, mas o estrago já estava feito, revelando a grave crise no peronismo. Como Quino suspeitava, o retorno de Perón (que em setembro, após a renúncia de Cámpora, voltaria a ser eleito presidente) traria instabilidade à Argentina. Cinco dias depois do massacre, Mafalda despediu-se de seus fãs. Quino só voltaria a desenhá-la raríssimas vezes, como numa campanha do Unicef (o Fundo das Nações Unidas para a Infância) realizada em 1977 para divulgar a Declaração dos Direitos das Crianças.


"M" de Mansfield
Quino criou Mafalda para uma campanha publicitária

Foi só aos 7 anos, ao ingressar na escola primária, que o argentino Joaquín Salvador Lavado descobriu que não se chamava Quino. Haviam lhe dado esse apelido logo após o nascimento, em 17 de julho de 1932, para que não fosse confundido com seu tio Joaquín Tejón, que era desenhista publicitário. Além do primeiro nome, Quino compartilhou com ele desde cedo a vocação para o desenho. Aos 13 anos, enquanto retratava vasos e naturezas mortas na Escola de Belas Artes de Mendoza, o jovem descobriu a revista de quadrinhos Rico Tipo e decidiu que queria ver seus desenhos publicados nela. Em 1951, depois de ter abandonado a Belas Artes, Quino visitou todas as redações de Buenos Aires em busca de emprego como cartunista, sem sucesso. Só em 1954 ele veria seu primeiro desenho publicado, no semanário Esto Es. A partir daí, seus trabalhos passariam a sair em diversos veículos, incluindo a Rico Tipo – onde começou a colocar texto em suas tiras. Em 1960, se casou e passou a lua-de-mel no Brasil, onde entrou em contato com colegas e editores estrangeiros pela primeira vez. Dois anos depois, publicou a primeira compilação de seus desenhos. O cartunista criou sua mais conhecida personagem em 1963, para estrelar uma campanha publicitária da marca de eletrodomésticos Mansfield (a empresa exigia que o nome de sua mascote também começasse com “M”). Como a campanha não vingou, Mafalda só apareceria no ano seguinte, na revista Primeira Plana – as tiras dessa época, consideradas ruins pelo próprio autor, não estão em Toda Mafalda. Hoje, mais de 30 anos após ter parado de desenhar regularmente sua mais famosa criação, Quino continua fazendo tiras que abordam temas como a vida moderna, o poder e a corrupção. Mas elas não têm personagens fixos.

Retirei daqui

sábado, 16 de Janeiro de 2010

Protetora de Anne Frank morre aos 100 anos

A principal protetora da menina judia Anne Frank e sua família, Miep Gies, morreu nesta segunda-feira (11), aos 100 anos, na Holanda.
Miep Gies era a única sobrevivente do pequeno grupo de pessoas que conheciam o esconderijo onde os Frank viveram por dois anos, em Amsterdã, na Holanda, durante a Segunda Guerra Mundial.
Gies era secretária do pai de Anne Frank, Otto, e ajudou sua família e outras quatro pessoas a se manterem escondidas dos nazistas, levando comida, jornais e outros mantimentos, de 1942 a 1944.
Depois que uma denúncia anônima levou os alemães à descoberta do esconderijo e à prisão dos Frank e seus companheiros, Gies encontrou no local o diário e outras anotações de Anne, cujo conteúdo virou um dos livros mais lidos do mundo.
Porta-voz
Em uma entrevista em fevereiro de 2009, Miep Gies disse que não merecia toda a atenção dada a ela e lembrou que outras pessoas fizeram muito mais para proteger os judeus holandeses durante a Segunda Guerra.
Gies virou uma espécie de "porta-voz" dos Frank, viajando pelo mundo para falar de Anne e para fazer campanha contra a negação do Holocausto e contra boatos de que o diário teria sido inventado.
Nunca se descobriu quem fez a denúncia anônima sobre o esconderijo.

Orwell versus Huxley







HQ Original

sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010

O teatro completo de Gogol

A palavra russa póshlost não tem equivalente exato em português – ou em qualquer outra língua. No Brasil, no entanto, não é difícil compreender do que se trata. Basta olhar para os políticos com propina enfiada na meia ou na cueca. A vulgaridade, a indecência, a hipocrisia desses personagens – tudo isso junto, enrolado em um novelo, constitui o póshlost. Dos grandes escritores russos, o mais associado ao combate a essa praga é Nikolai Gógol (1809-1852). Sua arma é o humor. E a maneira como ele a maneja pode ser observada no delicioso volume do seu Teatro Completo (tradução e organização de Arlete Cavalieri; Editora 34; 408 páginas; 52 reais), que acaba de chegar às livrarias.
Apropriadamente nascido num 1º de abril, e dono de um célebre nariz pontudo (tão pontudo que ele era capaz de tocá-lo com o lábio inferior), Gógol foi, nas palavras de seu conterrâneo e discípulo Vladimir Nabokov, "o mais singular poeta-prosador que a Rússia já produziu". Sua obra é compacta. Há um punhado de contos, entre os quais o mais célebre é O Capote, sobre um pequeno funcionário mofino e de "cor hemorroidal", que definha, e por fim se transforma em fantasma, depois que o sobretudo em que gastou todas as suas economias lhe é roubado. Há um único romance, a obra-prima Almas Mortas, sobre o patife Chichikov, que percorre o interior da Rússia com o plano de lucrar com um negócio absurdo – a compra de servos mortos. E há as cinco peças que compõem o volume agora lançado no Brasil. Apenas uma é bem conhecida: a comédia O Inspetor Geral. Os Jogadores e O Casamento são igualmente comédias, ao passo que Saída do Teatro e Desenlace de O Inspetor Geral são curiosas reflexões sobre o teatro e a serventia, por assim dizer existencial, do riso.
O Inspetor Geral e Os Jogadores são povoadas de corruptos e escroques. Na primeira, um vilarejo inteiro confunde Klestákov, um jovem estúpido, com um emissário do governo. Um a um, os luminares do lugar lhe oferecem suborno para que ele faça vista grossa aos seus "pecadilhos". Os Jogadores se passa numa hospedaria na qual se encontram vários homens que vivem, todos eles, pela lei da trapaça. Nenhuma das peças tem um único personagem positivo. A frase de um dos anti-heróis de Os Jogadores descreve bem o mundo onde se movem esses personagens: "Que terra infestada!". Quanto a O Casamento, seus protagonistas são dois homens que, ambos patéticos, são, no entanto, o negativo um do outro. Ao cortejar a mesma mulher, eles transformam a própria ideia de amor em algo grotesco.
As três comédias de Gógol dão vazão a um humor intensamente corrosivo, ancorado não só nas peripécias do enredo, mas numa linguagem repleta torções e trocadilhos. ("Permita-me observar que eu... até certo ponto... sou casada", diz a mulher do prefeito a Klestákov). Ao longo da vida, o próprio Gógol nunca se sentiu muito confortável com as implicações mais radicais de seu humor. Assim, escreveu Saída do Teatro e Desenlace de O Inspetor Geral, nos quais tenta propor uma teoria construtiva ou edificante do riso. Esse último texto, em especial, ele desejou que fosse encenado em seguida a cada apresentação de O Inspetor Geral – pedido nunca atendido. Nele, Gógol sugere que os personagens da peça sejam vistos como paixões ruins, abrigadas no peito de cada pessoa. Haveria um meio para expulsá-las: "Com o riso, temido por nossas paixões mais mesquinhas". Há diversas razões possíveis para que ele tenha formulado essas ideias – do medo da censura e da rejeição do público às preocupações religiosas. Entre os que mais se opuseram à transformação de O Inspetor Geral numa espécie de alegoria, estava um amigo de Gógol, o ator Chtchépkin. "Não me faça alusões de que eles não são funcionários, mas nossas próprias paixões. São gente de verdade, estão vivos." Não é difícil simpatizar com a opinião de Chtchépkin. Sobretudo quando se olha em volta e se vê tanta gente que merece, de fato, o riso demolidor de Gógol.

[Curiosidades Literárias] Museu Pablo Neruda


Pablo Neruda (1904-1973) dizia que não era um colecionador, mas um "coisista". Ele gostava de juntar objetos que estimulavam suas memórias e de organizá-los de maneiras únicas. Uma das casas onde o poeta chileno morou, que tem forma de barco e fica na localidade de Isla Negra, é um bom exemplo dessa mania: carrancas de navios decoram a entrada. No corredor, fica uma coleção de barquinhos, guardados dentro de garrafas posicionadas para que, quando vistas, provoquem a sensação de estar em alto-mar. Comprada por Neruda em 1939 e fechada após sua morte, em 1973, a casa é um museu desde 1990.

Site oficial: www.neruda.cl

Peixe para todo lado

Fascinado pelo mar, Neruda transformou o peixe na figura-símbolo de seu brasão. Em Isla Negra, ele aparece na entrada da casa, no jardim e até no telhado, onde o tradicional galo que indica a direção do vento é substituído pelo animal.

Lembrança de infância

Peças diversas faziam parte da coleção do escritor, que tinha uma sala inteira dedicada a brinquedos. Destaque para um cavalo de papel marchê em tamanho natural, que decorava uma loja em Temuco (sul do Chile) e era objeto de fascinação do poeta quando criança.

Formatos estranhos

Garrafas coloridas estão espalhadas por toda a casa. No bar, é possível ver uma extensa coleção, de vários formatos. Algumas delas parecem mãos segurando facas, veleiros e botas. Outros modelos, mais comuns, ficam no corredor que conduz ao escritório.

Palavras flutuantes

A portinhola de uma embarcação trazida pela correnteza marítima foi transformada em mesa de trabalho e posicionada em frente a uma janela com vista para o oceano Pacífico. Ali nasceram algumas obras-primas, como o livro Canto Geral (1950).

Homenagem ao pai

Além do mar, os trens seduziam o chileno, que era órfão de mãe e foi educado pelo pai, o ferroviário José Reyes Morales. No jardim, uma locomotiva gigante homenageia José. E alguns cômodos da casa se parecem com um vagão, em especial os quartos que têm portinholas pequenas e janelas gigantescas voltadas para o mar.

Estátuas vivas

Um dos aspectos mais impressionantes do acervo é a coleção de carrancas retiradas de proas de navios. Todas elas possuem nomes e estão dispostas em diversos cômodos, sendo que grande parte encontra-se na sala de visitas. O poeta dizia que, uma vez por ano, o espírito delas retornava do mar para fazer uma grande festa.

Poesia visual

Os muros de madeira que cercam a residência são cheios de frases deixadas pelos visitantes. Depois de alguns passos, a poesia continua no ar. Na entrada, uma pequena coleção reúne objetos de várias partes do mundo, incluindo um quadro que faz referência à tela Guernica, de Pablo Picasso (1881-1973).

Para a posteridade

A estrutura de madeira que sustenta a casa é talhada com frases e nomes. Logo na entrada é possível ver inscrições como "PM - 1958" ("Pablo e Matilde"; Matilde Urrutia foi a última das três esposas do escritor) ou "Construyendo la alegria" ("Construindo a alegria").

Amor pelo mar

Esta âncora fica no jardim, com vista para o oceano. Apesar de ser apaixonado pelo mar, Neruda tinha pavor de entrar em suas águas. Ele costumava dizer: "Há anos coleciono conhecimentos que não me servem muito, porque navego sobre a terra".

Coleção na entrada

Pouco antes de entrar na casa, que fica no alto de um morro, o visitante depara com uma pequena galeria de quinquilharias. A maior parte dos objetos são touros dos mais diversos tamanhos e materiais, adquiridos pelo poeta em diferentes partes do mundo.

terça-feira, 12 de Janeiro de 2010

A descoberta da Literatura


As vezes me sinto assim também.

[Grandes Autores] A vida infernal de Dante

No século 14, ele escreveu os versos mais famosos do mundo e fundou a língua italiana moderna. Mas, em vez de ser aclamado em seu tempo, o poeta foi perseguido e acabou morrendo no exílio.


De alguma forma, todos os criadores de “mundos virtuais” em Hollywood e na indústria de jogos eletrônicos são herdeiros do gênio criativo de Dante Alighieri. A diferença é que o universo descrito por Dante em sua obra poética Divina Comédia permanece vivo no imaginário do Ocidente há mais de 700 anos. “Ele teve um papel revolucionário ao mudar os padrões da representação medieval da realidade”, diz Giuseppe Mazzotta, professor de Literatura e Língua Italiana da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, e presidente da Sociedade Dante da América. “A Divina Comédia não era mais uma daquelas histórias de cavaleiros imaginários.”

No livro, com ajuda do poeta clássico Virgílio (seu guia durante parte da “viagem”), Dante percorre os diversos níveis do Inferno, do Purgatório e do Paraíso. Sua descrição dessas três áreas é tão vívida que serviu de inspiração a pintores de todas as épocas, dos góticos aos modernistas. De quebra, sua obra é considerada fundadora da língua italiana moderna. É que, ao optar por escrevê-la em italiano vulgar (na época, o latim ainda era a língua clássica da literatura), Dante deu o empurrão para a difusão do idioma que hoje é escrito e falado pelos tetracampeões mundiais. Não é à toa que até quem nunca leu uma linha de sua Divina Comédia – que, aliás, não é nem um pouco engraçada – conhece a expressão “inferno de Dante” para descrever um lugar (ou uma situação) de sofrimentos intermináveis. O adjetivo “dantesco” continua sendo usado como sinônimo de horrores diabólicos.

O que nem todo mundo sabe é que a vida do próprio Dante foi um drama repleto de tragédias provocadas por desencantos amorosos e ferrenhas disputas políticas que culminaram com um melancólico fim de vida no exílio. Sua trajetória pessoal seguiu o rumo oposto ao percorrido por ele na Divina Comédia. Enquanto o Dante da ficção começa sua saga no Inferno e vai até o Paraíso, o Dante real foi feliz quando jovem e amargou um profundo sofrimento na velhice.

Paraíso (1265-1302)

Além dos relatos de que ele nasceu em Florença em 1265 e perdeu a mãe aos 5 anos de idade, sendo educado por tutores religiosos, os primeiros anos da vida de Dante continuam envoltos em mistério. Mas os pesquisadores sabem ao menos que o fato mais significativo dessa época, que iria marcá-lo para o resto da vida, não teve nada a ver com a morte da mãe – e sim com uma paixão precoce fulminante. Tudo aconteceu nas ruas de Florença quando ele tinha apenas 9 anos e viu uma bela menina chamada Beatriz. Foi amor à primeira vista. O problema é que, apesar de ainda ser uma criança para os padrões de hoje, Dante já estava comprometido com uma noiva, Gemma Donati, num relacionamento arranjado por seu pai. Respeitando a vontade familiar, eles se casaram aos 14 anos. A união renderia três filhos, mas nunca contaria com a entrega total do poeta.

Quando completou 18 anos, Dante teve um último encontro com a amada Beatriz. Ao vê-lo em uma rua de Florença, sua musa teria apenas acenado. Depois desse gesto, o convívio entre os dois acabou sem que eles jamais tivessem trocado uma palavra. Até hoje os biógrafos não têm certeza sobre a verdadeira identidade do amor de Dante – especula-se que a jovem fosse Beatriz Portinari, que se casou com um aristocrata florentino. Inspirado por ela, Dante passou a estudar filosofia e escreveu os versos de Vida Nova, um texto com referências autobiográficas. “Apesar de os eventos desse pequeno livro não serem relatos confiáveis da vida de Dante, eles sugerem que uma das principais ocupações dele durante o fim de sua adolescência e começo da idade adulta era pensar e escrever sobre Beatriz”, afirma Ronald Martinez, tradutor da Divina Comédia para o inglês e professor de Literatura Italiana na Universidade de Brown, nos Estados Unidos.

Em 1290, Dante recebe a notícia da morte de Beatriz. Como ele ainda estava escrevendo a obra Vida Nova, seu livro incorporou vários poemas angustiados sobre a perda de sua musa inspiradora. No último capítulo, o poeta faz uma promessa: nunca mais escreveria nada sobre Beatriz até que fosse capaz de dedicar a ela algo que “nunca tivesse sido escrito sobre nenhuma mulher”. A promessa foi cumprida anos depois, com sua Divina Comédia.

Assim que Beatriz morreu, o poeta já havia trocado o latim pelo italiano em seus textos, tendo sido provavelmente inspirado por outros intelectuais da época, como o escritor Guido Cavalcanti, que se tornou seu grande amigo. Outro amigo teria sido o filósofo Brunetto Latini, ex-professor de Dante e referência entre os pensadores florentinos do século 13. Apesar da amizade que mantinha com ambos, Dante colocou Latini e o pai de Cavalcanti no Inferno da Divina Comédia.

Mas seu destino trágico seria selado ao se envolver com a violenta e corrupta política florentina, cujas disputas, naquela época, costumavam ser resolvidas em conflitos armados. Nesse tempo, a Itália não passava de um amontoado de cidades-estados autônomos que viviam guerreando entre si. Como toda a região, Florença estava dividida entre os partidários do papa, chamados de guelfos, e os que apoiavam o imperador do Sacro Império Romano, chamados de guibelinos – dois séculos depois de Dante, a rivalidade entre os dois grupos inspiraria o inglês William Shakespeare a criar os Capuletto e os Montecchio de Romeu e Julieta.

Após a vitória dos guelfos, grupo do qual Dante fazia parte, o futuro parecia promissor para o jovem poeta. O problema é que, uma vez no poder, os guelfos passaram a brigar entre si, divididos em duas facções: os neri (“negros”, em italiano), que apoiavam uma influência maior do Vaticano na cidade, e os bianchi (“brancos”, à qual a família Alighieri pertencia), que lutava por maior autonomia para Florença.

Apesar da disputa entre as facções, Dante consegue ser eleito, aos 35 anos, para o cargo de prior da República de Florença (a cidade era governada por seis priores, “presidentes” organizados num conselho). Mas, ao chegar ao poder, ele teve que tomar algumas decisões duras. A primeira foi expulsar líderes políticos que ainda tumultuavam a cidade. Entre os bianchi exilados estava seu grande amigo Guido Cavalcanti, e, entre os neri, Corso Donati, parente de sua mulher e aliado de primeira hora do papa. Para piorar a situação, o papa Bonifácio VIII estava furioso com a autonomia dos priores de Florença, que desafiavam sua autoridade. Daí em diante, o futuro de Dante seria nada promissor.

Purgatório (1302-1313)


Em 1301, forças francesas estavam às portas de Florença. Diante da ameaça, Dante foi ao Vaticano pedir ao papa que convencesse o exército francês a não ocupar a cidade. Mas Bonifácio VIII não tinha a mínima intenção de ajudar. Na verdade, ele iria apoiar a invasão. A comitiva de Dante foi liberada, mas o papa o obrigou a ficar no Vaticano. O pontífice temia que, se retornasse a Florença, o poeta poderia denunciar sua aliança com a França.

Na ausência de Dante, os franceses entraram na cidade e permitiram que os neri, opositores de Dante, retomassem o poder. No início de 1302, depois de se recusar por duas vezes a se apresentar diante do novo governo florentino, Dante teve seus bens confiscados e foi condenado ao exílio e à morte (caso fosse encontrado no exterior por soldados de Florença). “O banimento para o resto da vida foi justificado com falsas acusações de corrupção”, afirma Jeffrey Schnapp, professor de Literatura na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. “Dante era uma figura muito proeminente para algum dia voltar à cidade enquanto seus inimigos estivessem no poder.”

Em tempos sem telefone, internet ou mesmo um serviço de correio regular, ser desterrado era uma punição gravíssima. “Para o mundo pré-moderno, não havia punição mais severa do que o exílio. Em um sentido muito real, era uma sentença de morte em um tempo em que a mobilidade – de capital, pessoas, poder – era extremamente limitada”, diz Schnapp. Os anos de exílio foram amargos. Dante nunca mais viu sua mulher e apenas muitos anos depois conseguiu reatar contato com seus filhos.

Logo depois da expulsão, o poeta iniciou uma campanha para juntar tropas com o objetivo de retomar o poder sobre Florença, mas acabou desistindo da idéia. A partir daí, miserável, vagou de cidade em cidade, entre elas Pádua, Verona e Lucca. “Ele literalmente mendigava e oferecia seus serviços nas cortes de vários senhores no norte da Itália: como secretário, escrivão de documentos, embaixador etc.”, afirma Giuseppe Mazzotta.

Em 1310, o líder do Sacro Império Romano, Henrique VII de Luxemburgo, estava prestes a invadir a Itália. Dante viu no maior adversário do papa um possível libertador de Florença. Para ajudá-lo, iniciou uma campanha, escrevendo cartas públicas em que incitava o imperador a atacar sua cidade natal. Seu objetivo não era que Florença fosse destruída, apenas que seus inimigos fossem expulsos do poder. Mas o teor dos textos não agradou em nada os florentinos. Com a ameaça de invasão, o governo de Florença perdoou a facção dos bianchi, permitindo o retorno de todos eles. Com exceção de um: Dante Alighieri.

Inferno (1313-1321)

Quando Henrique VII morreu, em 1313, as últimas esperanças que Dante tinha de retornar a Florença terminaram. Segundo Karl Kossler, autor de An Introduction to Dante and His Times (“Uma introdução a Dante e seu tempo”, inédito no Brasil), a morte do imperador foi o episódio mais doloroso da vida do poeta, superando até a morte de Beatriz. Segundo Kossler, foi após esse acontecimento que o poeta pôs-se a escrever o livro que chamou de Comédia – e que só ganharia o adjetivo “divina” no século 16.

Antes de morrer, contudo, Dante teve duas chances de ser perdoado. A primeira proposta dizia que ele poderia retornar a Florença, desde que aceitasse pagar uma multa e participar de uma cerimônia religiosa em que seria tratado como inimigo público. Dante preferiu o exílio. Da segunda vez, propuseram revogar sua sentença de morte. Em troca, o poeta deveria jurar que jamais pisaria em Florença novamente. Dante deu de ombros. Como punição, o exílio se estendeu a seus filhos. Expulsos da cidade, eles, pelo menos, tiveram a oportunidade de se reencontrar com o pai.

Dante passou os últimos três anos de sua vida em Ravena. Ali terminou a Divina Comédia e morreu aos 56 anos, em setembro de 1321, provavelmente de malária – naquela época, uma doença comum e misteriosa (ninguém sabia que era transmitida por mosquitos). Começou a ser reconhecido apenas um século depois de sua morte. Mas o culto em torno dele como o maior poeta da língua italiana é mais recente. “A grande onda da influência cultural e literária de Dante ocorreu no século 19 e no início do século 20, englobando o movimento romântico e o período do alto modernismo”, afirma Ronald Martinez. “Desde as duas grandes guerras, Dante se tornou um autor para quem leitores e escritores se voltam a fim de conhecer os estados extremos do sofrimento humano.”

O desterro de Dante é uma espécie de pedra no sapato dos florentinos até hoje. A cidade se ressente por não ter conseguido reaver os restos mortais de seu cidadão mais ilustre. Como forma de se redimir, há estátuas dele espalhadas pela capital da Toscana. Mas há quem, mesmo concordando com a genialidade do poeta, ainda insista em condená-lo. “A cada 100 anos, os florentinos fazem um julgamento, uma espécie de debate público, para decidir se Dante realmente merecia ou não ser condenado ao exílio. E eles sempre decidem que seus ancestrais estavam certos em expulsá-lo de Florença, confiscar seus bens e tentar matá-lo”, afirma Giuseppe Mazzotta. Talvez eles tenham razão. Se a vida do poeta não tivesse sido um inferno dantesco, coroado pelo exílio, provavelmente a Divina Comédia jamais tivesse sido escrita.

Amigos, amigos, Inferno à parte
Livro não poupou nem as pessoas queridas pelo poeta

A Divina Comédia narra a viagem de Dante em busca de sua falecida amada, Beatriz. Ao atravessar Inferno, Purgatório e Paraíso, ele encontra as almas de amigos, inimigos e personagens históricos. A narrativa se passa em 1300: começa na Sexta-feira Santa e vai até pouco depois do Domingo de Páscoa. Na hora de escolher os personagens condenados aos nove níveis – ou “círculos” – do Inferno, Dante não poupou nem as pessoas de quem gostava. Brunetto Latini, seu respeitado mestre, por exemplo, surge no sétimo círculo. O poeta romano Virgílio, admirado por Dante, também foi colocado no Inferno, na companhia do filósofo grego Platão. Mas pelo menos ambos estão no Limbo, o primeiro círculo, onde ficam as almas dos virtuosos que não eram cristãos (os dois nem poderiam sê-lo, pois morreram antes do nascimento de Jesus). Quem não podia ficar de fora do Inferno era o papa Bonifácio VIII, um dos responsáveis pelo exílio do autor. Depois de achar Beatriz no Purgatório, Dante segue com ela para o Paraíso. Lá, encontra santos e figuras do cristianismo. Sobrou um lugarzinho também para Henrique VII de Luxemburgo, que governou o Sacro Império Romano e foi a última esperança que o poeta teve de voltar para Florença.

Inspiração islâmica?
História tradicional muçulmana pode ter ajudado Dante a criar sua obra-prima

Há quem diga que, mesmo tendo sido escrita por um católico convicto, a Divina Comédia traz referências tiradas da mitologia islâmica. Essa possibilidade foi levantada pelo historiador espanhol Miguel Asín Palácios no livro La Escatologia Musulmana en la Divina Comedia (“A escatologia muçulmana na Divina Comédia”, inédito no Brasil), publicado em 1920. A idéia pareceu um absurdo para os leitores cristãos – afinal, na Divina Comédia, Maomé aparece no oitavo círculo do Inferno. Mas, de acordo com Palácios, a história escrita por Dante se parece com a da Viagem Noturna de Maomé. Nela, segundo a tradição muçulmana, o profeta teria passado uma noite viajando pelo Inferno e pelo Céu ao lado do anjo Gabriel e falado com Abraão, Moisés e Jesus. Na década de 40 foram descobertas versões dessa história em latim, que circularam no século 13. Isso reforçou a suspeita de que Palácios poderia ter razão. Mas, até hoje, não há provas conclusivas de que Dante tenha se baseado nesse texto.

Exílio eterno
Dante foi enterrado em Ravena, que se recusa a devolvê-lo a Florença

“Retornarei poeta e na fonte do meu batismo receberei a coroa de louros.” Essa frase, tirada da Divina Comédia, mostra que Dante acreditava que ainda voltaria, aclamado por seus conterrâneos, à sua cidade natal. Mas ele morreu longe de Florença e foi sepultado sem muitas honras na igreja de São Francisco, em Ravena. No século 15, quando a Divina Comédia começava a ganhar fama, um admirador do poeta construiu uma sepultura numa capela anexa ao templo. Lá, Dante foi enterrado sob a inscrição: “Florença, mãe de pouco amor”. Essa acusação se manteria verdadeira até 1829. Foi quando a cidade do pai da língua italiana resolveu se redimir e construiu um belo túmulo em sua basílica, passando a reivindicar os restos mortais de Dante. Ravena, entretanto, não permitiu a mudança. Segundo Giuseppe Mazzotta, da Universidade de Yale, restou a Florença financiar o óleo da lamparina que queima em cima da sepultura. Ravena, por sua vez, diz estar respeitando a vontade de Dante: ele queria retornar a Florença com honras. Mas em vida.

*GUSTAVE DORÉ é o autor de algumas das mais impressionantes gravuras de todos os tempos, como as ilustrações para a Bíblia e a Divina Comédia. Francês, nasceu em 1832 e morreu em 1883.

Vi Aqui

sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010

Como namorar na Roma antiga

Há 2 mil anos, o poeta romano Ovídio escreveu um grande guia de paquera: o livro a Arte de Amar. As dicas eram para homens e mulheres da Roma Antiga - mas continuam válidas hoje em dia


1. IDE PARA A RUA

“A multidão é útil, jovens beldades. Levem sempre seus passos errantes para fora de casa. O acaso desempenha seu papel em todo lugar: jogue sempre o anzol na água. Onde você menos espera pegar um peixe, haverá um.”

2. BEBEI COM MODERAÇÃO

O vinho prepara os corações e os torna aptos aos ardores amorosos; as preocupações fogem e se afogam nas múltiplas libações. Qual é a justa medida a ser conservada ao beber? Que sua inteligência e seus pés continuem exercendo o ofício deles.”

3. PREPARAI-VOS

Esconda os defeitos, e, o quanto possível, dissimule suas imperfeições físicas. Se você é pequena , sente-se; em pé, evite que a creiam sentada; e estenda sua miúda pessoa sobre o leito. Mesmo lá, deitada, para que não se possa avaliar seu tamanho, jogue sobre si uma roupa que esconda seus pés.”

4. NA ESCURIDÃO, ENGANAI

Não deixe a luz penetrar por todas as janelas no quarto de dormir; muitas partes do seu corpo são favorecidas não sendo vistas à luz do dia. E mesmo você a quem a natureza recusou as sensações de amoroso prazer finja, com inflexões mentirosas, apreciar os doces júbilos. Que seus movimentos e a própria expressão de seus olhos consigam nos enganar!”

5. SEDES UM CORNO MANSO

“O melhor é ignorar tudo. Deixe-a ocultar suas infidelidades e não a force a mudar sua fisionomia para fugir ao rubor da confissão. Razão a mais, jovens, para evitar surpreender suas amantes. Que elas os enganem, e que enganando-os elas pensem que os estão enganando!”

6. SE LEVARDES UM FORA

Evite reler as cartas de sua amante que você guardou; almas firmes ficam abaladas quando relêem tais cartas. Jogue tudo impiedosamente no fogo, por mais que isso lhe custe, e diga ‘Que esta seja a fogueira que amortalhará o meu amor!’”

O maior poeta romano

Publius Ovidius Naso (Sulmo, 20 de março de 43 a.C. — Tomis, 17), conhecido como Ovídio nos países de língua portuguesa, foi um poeta romano que escreveu sobre amor, sedução, exílio, e transformação mitológica. Estudou retórica com grandes mestres de Roma e viajou para Atenas e Ásia exercendo funções públicas com o objetivo de tornar-se um Cícero, mas, para desgosto do pai, resolveu dedicar sua vida à poesia.

Considerado um mestre do dístico elegíaco, Ovídio é tradicionalmente posto ao lado de Virgílio e Horácio como um dos três poetas canônicos da literatura latina. Sua poesia, muito imitada durante a Antiguidade tardia e durante a Idade Média, influenciou a literatura e a arte da Europa, particulamente Dante, Shakespeare e Milton. Seu estilo tem caráter jocoso e inteiramente pessoal — às vezes o eu-lírico de seus poemas são o próprio Ovídio.

O dístico elegíaco é a métrica mais comum em seus poemas: os Amores — Ars Amatoria, Remedia Amoris — são longos poemas didáticos; os Fastos, sobre festivais romanos; o Medicamina Faciei Femineae, sobre cosméticos para mulheres; cartas fictícias escritas por heroínas mitológicas permeiam o enredo das Heróides; e todas suas obras restantes são escritas no exílio e sobre o exílio (Tristia, Epistulae ex Ponto, e Ibis).

Os dois fragmentos restantes da tragédia Medéia (sobre Medéia) estão escritos em triâmetro iâmbico e anapesto, respectivamente; as famosas Metamorfoses estão escritas em hexâmetro dactílico, e são conhecidas como "métrica épica" à exemplo da Eneida de Virgílio e da Ilíada e Odisséia de Homero.

Vivia uma vida boêmia, sendo admirado por toda a Roma antiga como um grande poeta. No ano 8, foi banido de Roma pelo imperador Augusto. Não é sabida a causa do banimento, mas muito provavelmente o imperador tenha achado imoral seus conselhos em Ars Amatoria. Antes de morrer, preparava aquela que seria sua última obra, Haliêutica, sobre a arte da pesca; Caio Plínio Segundo acreditava que este era mais um ato de diversão de Ovídio, que não tinha qualquer interesse pelo tema tratado. Ovídio faleceu no ano 17 em Tomis, atual Constança, Romênia. Hoje, o país considera Ovídio o primeiro poeta romeno.

Tirei daqui

quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010

[Revista Época] Os 10 livros estrangeiros mais marcantes dos anos 00

Ranking elaborado pela Revista Época, no qual a revista elege os livros estrangeiros mais mercantes da década que chega ao fim. Confira abaixo a lista:

1. Harry Potter (série), 1997-2007
A escritora inglesa J.K. Rowling encontrou no aprendiz de bruxo Harry uma maneira de trazer de volta a magia para a literatura infantojuvenil numa fábula atual perfeita. Nesta década, os sete livros deram origem a um verdadeiro culto mundial e se tornaram franquia cinematográfica.

2. O Código Da Vinci, 2003
O maior fenômeno da literatura para adultos da década virou filme e transformou a história de suspense erudita em um fenômeno popular. Vendeu 70 milhões de exemplares no mundo todo.



3. Crepúsculo (quatro volumes), 2005-2009
Quando todos pensavam que seria impossível superar o sucesso das narrativas fantásticas, uma dona de casa do Arizona sonhou com a história de amor entre uma jovem e um vampiro romântico. Surgia a série que contaminou uma geração de adolescentes.

4. O segredo, 2006
A australiana Rhonda Byrne reuniu depoimentos de especialistas de diversas disciplinas para encontrar uma sabedoria comum. Chamou isso de a lei da atração: a capacidade do pensamento em atrair magneticamente tudo o que é desejado.

5. O caçador de pipas, 2003
A partir da história de dois meninos amigos, Khaled Hosseini faz um retrato do Afeganistão antes e depois do domínio dos talebans e aborda os efeitos da opressão religiosa.

6. Travessuras da menina má, 2006
Mario Vargas Llosa conta a trajetória de sua geração num romance repleto de reviravoltas. O peruano Ricardito se apaixona na adolescência por Lily. E a reencontra sob vários disfarces em cidades como Paris, Tóquio e Londres ao longo de 40 anos.

7. Deus, um delírio, 2007
O ensaio do biólogo inglês Richard Dawkins desfere um ataque aos religiosos, que ele afirma sofrerem de uma alucinação coletiva.

8. Reparação, 2001
Vencedor do Man Booker Prize, principal prêmio da comunidade britânica, o romance de Ian McEwan conta a história de um amor frustrado pelo olhar da jovem Briony, que passa a vida se culpando pela infelicidade da irmã. McEwan restaura o poder do romance realista.

9. Complô contra a América, 2004
O romance mais ambicioso de Philip Roth reinventa a história americana. Em vez de Roosevelt, o presidente eleito é o piloto Charles Lindbergh. Por simpatizar com nazistas, ele toma decisões que alteram os rumos dos acontecimentos.

10. As benevolentes, 2006
O romance de estreia do americano Jonathan Littell escrito em francês ganhou os principais prêmios literários da França. É a história, narrada em primeira pessoa, de um carrasco nazista durante a ocupação alemã na França, num campo de concentração da Segunda Guerra Mundial.

quarta-feira, 6 de Janeiro de 2010

[Revista Época] Os 10 livros brasileiros mais marcantes dos anos 00

Ranking elaborado pela Revista Época, no qual a revista elege os livros mais mercantes da década que chega ao fim. Confira abaixo a lista:

1. Budapeste, 2003
Depois de uma trajetória como ídolo na música popular, Chico Buarque se destacou na ficção. Seu principal romance narra as desventuras do ghost-writer José Costa, dividido entre duas mulheres e duas cidades: uma húngara e uma carioca, Budapeste e Rio de Janeiro.


2. As ilusões armadas (quatro volumes), 2002-2004
O experiente jornalista Elio Gaspari mergulha nos arquivos da ditadura militar brasileira (1964-1985) para produzir um painel monumental do período.


3. Nove noites, 2002
Um dos autores de maior relevância na década, o carioca Bernardo Carvalho conjugou ficção com texto jornalístico em seu sexto romance. Trata-se de uma investigação sobre a morte do antropólogo americano Buell Quain, que, sem motivo aparente, enforcou-se na floresta diante de dois índios.


4. Dois irmãos, 2000
O amazonense Milton Hatoum ganhou status de mestre da ficção em língua portuguesa com este romance. A narrativa aborda uma saga familiar contada por um menino, filho de uma empregada.

5. Onze minutos, 2003
O romance narra a busca pelo autoconhecimento de Maria, personagem real que sai do interior do Brasil para acabar se tornando prostituta na Suíça. É o livro de maior sucesso de Paulo Coelho. Foi traduzido para 40 idiomas.


6. 1808, 2008
O jornalista paranaense Laurentino Gomes escreveu uma história saborosa sobre a chegada da família real portuguesa ao Brasil, em 1808. Foi vendido meio milhão de exemplares em 2008. Um êxito para um livro de história.

7. O filho eterno, 2007
O relato poderoso em primeira pessoa do catarinense Cristóvão Tezza sobre a convivência com seu filho primogênito que sofre de síndrome de Down.


8. Não somos racistas, 2006
Com este ensaio o jornalista e sociólogo carioca Ali Kamel lança um ataque contundente ao sistema de cotas raciais criado pelo governo brasileiro. Para ele, em vez de prover a igualdade, geram o ódio racial.

9. Pico na veia, 2002
O escritor Dalton Trevisan atingiu com este livro o ápice da concisão. São 205 contos em 242 páginas. O último se resume a um enigmático travessão: “-”. O leitor que o decifre.

10. O doce veneno do escorpião, 2005
O livro resultou do blog de Bruna Surfistinha, uma adolescente de classe média paulistana que se prostitui. Vendeu 250 mil exemplares no ano de lançamento e vai virar filme em 2010.