sábado, 27 de fevereiro de 2010

[Especial Filosofia] O que Hugo Chávez e Platão têm em comum?


Platão foi o principal discípulo de Sócrates, e o responsável pela salvação da filosofia Socrática, uma vez que, Sócrates morreu sem ter nada escrito, todo o pensamento Socrático a que temos acesso atualmente, foi nos repassado por Platão em suas obras. Daí a desconfiança que muitos possuem de que, na verdade, grande parte da ideias atribuídas a Sócrates sejam na verdade de Platão ou que, talvez, Sócrates nem mesmo tenha existido.

Platão, em sua filosofia, prima pelo Idealismo. Ele deu seguimento as ideias metafísicas de seu mestre e acabou criando uma complicada filosofia dualista, onde existiam dois mundo: O Mundo dos Sentidos e o Mundo das Ideias.

Platão acreditava também na imortalidade da alma, e em algo parecido com o Céu e o Inferno. Ao morrer, toda alma seria enviada ao Além (Hades) para ser julgada por um tribunal por seus atos em vida. Aos justos, haverá a Ilha dos Bem Aventurados (Os Campos Elísios, que é o equivalente ao Céu do Cristianismo), aos Injustos (Pecadores) haverá o Tártaro (Não, eles não terão problemas dentários e sim irão para o Inferno).

Resumindo a parada, antes que o leitor fique com sono ou loks de drogas, a Filosofia Platônica é basicamente o embrião das grandes religiões ocidentais: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo.

Mas o que me traz aqui hoje, na verdade, é o desejo de mostra o The Dark Side of Platão. Sabe aquele seu ator favorito que fez uma ponta em um filme Trash dos anos 80 (Algo tipo Jhonny Depp em "A hora do pesadelo"), e que, quando você está discutindo o talento dele com seus amigos cinéfilos impotentes você sempre "esquece" de citar essa fase negra da vida dele? Pois bem, Platão também tem a sua fase "negra" que os seus defensores sempre esquecem de citar.

Em seu livro mais conhecido, "A República", Platão traça um esboço de como seria a sociedade ideal (A minha já existe: chama-se Suécia). Para ele, a sociedade ideal deveria ser governada por um filósofo (Bem espertinho esse Platão, eim? Também acho que a sociedade ideal deveria ser governada por mim. Tenho tantos talentos...). Deveria ser governada por um filósofo, pois somente o filósofo têm condições de decidir o que bom ou mal para a sociedade (Não sabia que o Chávez era filosofo!). Apenas o filósofo têm condições de decidir que livros devem ser lidos; que músicas serão escutadas; que espetáculos podem ser vistos (Que mané história do Brasil, essa matéria deveria se chamar: filosofia Platônica!). Onde o filósofo platônico governa não são necessárias leis, pois sua vontade é a vontade do estado (Porra, o Putin também é filosofo?), as leis somente deverão ser usadas como alternativa viável a falta de um homem sábio (Ah! agora tá explicado! Por isso o Brasil tem tantas leis, nossos governantes não são lá muito sábios... Pra não dizer outro coisa).

Pois é, leitores queridos, mas uma parte desse pequeno especial de filosofia chega ao fim. Agora, toda vez que vocês verem na televisão pessoas como Hugo Chávez, Vladimir Putin, ou aquele baixinho chato, que usa um par de ridículos tamancos (Ênfase no ridículo!!) da Coreia do Norte, cujo o nome é impossível de escrever sem consultar o Google, lembrem-se: eles não são apenas ditadores sanguinário, e sim homens sábios, discípulos de Platão, tentando criar sociedade ideal.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

[Especial Filosofia] Sócrates no banco dos réus


Um dos maiores jornalistas investigativos dos Estados Unidos, Isidor Feinstein Stone, ou Izzy Stone para os íntimos, acabara de se aposentar. Era 1971 e ele, embora começasse a sofrer de problemas cardíacos, não conseguia largar o vício de repórter, apurado por décadas chafurdando em documentos do governo americano sobre as guerras da Coréia e do Vietnã. Com o mesmo espírito curioso com que se dedicou ao jornalismo, Stone decidiu “cobrir” um dos casos mais importantes da humanidade: o julgamento de Sócrates, pai da filosofia ocidental, em 399 a.C.

O objetivo do jornalista era entender por que o filósofo fora condenado à morte pelas idéias que defendia, já que vivia em pleno berço da democracia e liberdade de expressão. “Como pôde Atenas trair seus princípios de tal modo?”, perguntava-se Stone. Para encontrar a resposta, passou uma década estudando freneticamente latim e grego arcaico. O esforço resultou em uma espécie de milagre jornalístico: um “furo de reportagem” quase 2400 anos depois do fato que o originou, descrito no livro O Julgamento de Sócrates. É possível entender a dimensão da descoberta reexaminando a imagem de Sócrates.

O mito

Um homem superior, que enfrenta a multidão ignorante com serenidade e senso de humor. Um verdadeiro santo profano. Foi essa a visão de Sócrates imortalizada por seu mais importante e famoso biógrafo, Platão. O discípulo não poupa talento literário ao descrever a sapiência e espirituo-sidade com que seu professor demolia as crenças dos cidadãos de Atenas. O Sócrates dos diálogos platônicos é um dos personagens heróicos mais bem construídos da literatura ocidental.

Nos escritos menos literários de outro de seus alunos, Xenofonte, Sócrates é “apenas” o mais sábio dos homens. Afirmou o Sócrates de Xenofonte: “Interrogava a meu respeito o Oráculo de Delfos. Respondeu Apolo que não havia homem mais livre, mais justo nem mais sensato que eu”. Depois de ouvir isso do Oráculo, a entidade mística pela qual os deuses falavam aos homens, Sócrates passou a questionar todos os cidadãos de Atenas para descobrir se a mensagem era realmente verdadeira. E começou a se comparar a uma parteira, capaz de trazer à luz os pensamentos de seus interlocutores.

Se o sujeito era um homem sábio, preocupado com o progresso intelectual de seus companheiros e que passou a vida inteira em busca da verdade e do conhecimento, por que então mandá-lo a julgamento como má influência para a juventude da cidade? Talvez porque o Sócrates histórico seja apenas uma sombra do Sócrates real.

O idiota

A verdade mesmo é que Sócrates era um idiota. Mas a palavra “idiota” – derivada do grego idiotes – não tinha naquela época o significado de hoje. Na Grécia clássica, idiotes era usado para designar os cidadãos que não participavam dos debates políticos da cidade. E Sócrates, que não costumava elevar a voz nas assembléias públicas e desdenhava o debate, certamente era considerado um. Só que isso, embora mal visto na Grécia, não era razão para condenar ninguém. Os motivos que levaram Sócrates ao tribunal foram mais complexos.

Sócrates era um homem feio, narigudo e desleixado. Andava sempre descalço e usava apenas uma mesma túnica durante o ano inteiro. Pai de três filhos, desprezava sua esposa Xantipa, a quem chamava de megera. Chegou aos 70 anos sem nunca ter tido um único trabalho. Passava os dias no ócio, conversando e bebendo com os amigos. Apesar disso, criticava os sofistas, os professores de retórica e filosofia que cobravam para dar aulas. Também desprezava todo tipo de trabalho manual, a exemplo dos aristocratas da época.

Segundo Stone, registros mais populares da Grécia revelam um outro Sócrates. “Os fragmentos que chegaram até nós da chamada comédia antiga ateniense do século 5 a.C. mostram que seus concidadãos sempre o consideraram um excêntrico, um esquisitão, embora simpático, um ‘personagem’ local. Era assim que o viam seus contemporâneos, e não pelas lentes douradas dos diálogos platônicos”, escreve.

Além disso, os “questionamentos socráticos” nem sempre eram bem-vindos. Não eram todos os que gostavam de ser interpelados em público por Sócrates, muitas vezes visto como arrogante por lançar-se na missão que recebera do Oráculo de Delfos – que ele dizia comunicar-se pessoalmente com ele – de testar a inteligência alheia. “A missão divina que o oráculo lhe impôs seria na época o que hoje chamamos de egotrip”, escreve Stone. E seu método de trazer à luz os pensamentos dos outros, à semelhança de uma parteira, também nem sempre era bem-sucedido. “No Laques, como em tantos outros diálogos platônicos, Sócrates sufoca-os um por um à medida que emergem do útero dialético. A parteira parece ser perita em abortos.”

Mas também não foi por aborrecer cidadãos em público que Sócrates foi parar no tribunal. Isso era fichinha para os gregos, acostumados a ser parodiados e criticados até nas peças públicas de teatro. O problema de Sócrates não era a liberdade que tinha em relação aos outros. Na verdade, o que fez dele um réu foi o contrário: suas críticas em relação à liberdade alheia.

O antidemocrático

A Atenas do século 5 a.C. tinha um oponente econômico, político e militar bem claro: Esparta. Cidade em que a disciplina dos guerreiros era muito mais valorizada que a liberdade de expressão, Esparta representava tudo o que os políticos democráticos de Atenas mais detestavam. No entanto, diversos episódios de golpes contra a democracia ateniense ocorreram nos anos 411, 404 e 401 a.C. E em todos eles estavam envolvidos políticos simpáticos aos ideais espartanos, vários deles alunos de Sócrates. “Entre os discípulos de Sócrates, contavam-se Crítias e Alcibíades, e ninguém causou tantos males ao Estado quanto eles”, escreveu Xenofonte. As teorias antidemocráticas estavam tão identificadas com Sócrates que o dramaturgo Aristófanes chegou até a descrever assim os jovens aristocratas atenienses alinhados a Esparta: “Laconômanos, andavam cabeludos, famélicos, sujos, socratizados, com porretes nas mãos”.

A situação de Sócrates ficou ainda pior por ele não ter feito absolutamente nada nos períodos de golpe político em Atenas. “O homem mais tagarela de Atenas calou-se quando sua voz era mais necessária”, escreve Stone. Se levarmos em consideração o autoritarismo da obra política de Platão, a posição do filósofo fica quase indefensável. Para entender o grau de autoritarismo de seu pensamento, basta ler o que o Sócrates platônico diz sobre o método mais rápido e fácil de formar a sociedade ideal: “Todos os habitantes com mais de 10 anos de idade serão enviados para o campo, e os reis-filósofos se encarregarão das crianças, subtraindo-lhes os costumes de seus pais e educando-as segundo seus próprios costumes e leis”. A respeito dessa idéia excêntrica, que na verdade pode pertencer mais a Platão que a Sócrates, afirma Stone: “Um método fácil? Só mesmo um solteirão como Platão, que nunca na vida trocou uma fralda, poderia levar a sério uma proposta dessas”. Foram idéias assim, influentes junto aos jovens, a principal causa de Sócrates ter ido a julgamento.


O vitorioso

O ano é 399 a.C. Um homem de 70 anos entra no tribunal de Atenas, acusado de desrespeitar os deuses da cidade (por ter um oráculo pessoal, a comunicação direta com Delfos) e, principalmente, por corromper a juventude ateniense. Diante do júri, preo-cupa-se mais em ironizar seus acusadores e desmoralizar os atenienses que em se defender da acusação. Veredicto: culpado, por uma vantagem pequena de votos. Penas possíveis: banimento da cidade ou morte. Antes de a pena ser anunciada, Sócrates ironiza ainda mais o júri. Pena final: morte, por maioria esmagadora de votos.

Depois de um julgamento completamente atípico, restou uma pergunta a ser respondida. Quem foi realmente julgado: Sócrates ou a democracia ateniense? “Sócrates pura e simplesmente queria morrer”, afirma Stone. Daí o motivo pelo qual não fez nada para se defender. Apesar das idéias antidemocráticas e da crença em um oráculo pessoal, não cometera nenhum crime além de expressar livremente seu pensamento. Segundo Stone, se tivesse usado esse fato como argumento, provavelmente seria absolvido. Mas Sócrates não acreditava na expressão livre do pensamento, e preferiu a morte à incoerência. Sócrates morreu sem negar o que acreditava. Mas a democracia grega negou seus próprios valores ao condená-lo. “Uma nódoa indelével manchou o nome da democracia. É esse o crime trágico de Atenas”, diz Stone.

Silêncio no tribunal
O pai da filosofia se deu mal e recebeu o pior veredicto possível

Um tribunal composto de 500 jurados e três acusadores foi o palco do famoso episódio. “Nenhum outro julgamento, à parte o de Jesus, deixou impressão tão forte na imaginação do homem ocidental quanto o de Sócrates”, escreve Stone. O “pai da filosofia” foi acusado de corromper a juventude ateniense e desrespeitar os deuses da cidade. Tudo o que temos para entender o que se passou ali vem de relatos posteriores. Não se conhecem os argumentos da acusação nem os autos do processo. Mas sabe-se muito bem quem mais sofreu naquele dia: a democracia ateniense.

Réu e defensor

Sócrates negou-se a abandonar a cidade antes do julgamento e não quis o auxílio de nenhum advogado para enfrentar a acusação. Passou todo o julgamento atacando os acusadores, as instituições atenienses e até mesmo o próprio júri. Como resultado, recebeu o veredicto máximo: morte por envenenamento com cicuta.

O escrivão

Platão, aluno mais brilhante e influente de Sócrates, assistiu ao julgamento inteiro de seu ídolo. Depois escreveu a principal obra a respeito: Apologia. Traumatizado com o tratamento dado a seu mestre, e temendo o mesmo futuro para si, abandonou Atenas assim que o julgamento terminou.

Três contra um

Os principais cidadãos de Atenas uniram-se para acusar Sócrates. Lícon representava os oradores. Meleto, os poetas. E Ânito, os artesãos e líderes políticos. A acusação de Ânito pode ter sido motivada por uma ofensa de Sócrates: “Predigo que o filho de Ânito não permanecerá no ofício servil em que seu pai o colocou”.

Placar apertado

O júri, formado por 500 pessoas sorteadas entre a população ateniense, condenou Sócrates por poucos votos de diferença: 280 a 220. Mas, depois de Sócrates pegar pesado na ironia no momento da definição da pena, mais 80 jurados votaram a favor da pena de morte. Placar final: 360 x 140.

Matéria Publicada Aqui

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

[Especial Filosofia] Sofista X Socráticos: a batalha silenciosa que decidiu o destino do ocidente


Há milhares de anos atrás, aconteceu na Grécia uma discussão filosófica que mudou o destino da humanidade nos dois milênios seguintes. Saiba mais sobre os embates entre os Sofistas e os Socráticos.

Os Sofistas podem ser considerados os primeiros professores da história. Eles eram filósofos, que viajavam de cidade em cidade, oferecendo seus serviços na arte da retórica. A retórica é a técnica (ou a arte, como preferem alguns) de convencer o interlocutor através da oratória. Tal técnica era fundamental na Grécia antiga, onde os cidadãos (leia-se homens ricos) eram extremamente politizados e a política se desenvolvia através de grandes debates públicos. Ocorre que os Sofistas cobravam por esses serviços e, assim, tal filosofia só era de conhecimento das camadas mais abastadas da sociedade grega. Por isso, eles sofreram diversas críticas dos filósofos socráticos, que normalmente ofereciam seus conhecimentos de uma forma gratuita.

A filosofia sofista era bem simples. Para eles, não existia uma verdade universal, a justiça era sempre relativa, não existindo justo ou injusto, certo ou errado. Não havia, para eles, uma moral universal. Somente a maioria das pessoas de um determinado local era que poderiam dizer se uma coisa era justa, sendo assim,o conceito de justiça era temporário e relativo, modificando-se de acordo com a época e local. Tudo dependia do contexto histórico e cultural do local. Desse modo, a moral, o certo ou errado, poderia ser modificado por quem controlasse a maioria das pessoas. Por isso, os sofistas davam tanta importância ao poder de argumentar.

Já os Socráticos eram os filósofos discípulos de Sócrates (ou Platão, visto que não há como saber quem é quem. Sócrates, se houver mesmo existido, não deixou nenhuma obra escrita). Ao contrário dos Sofistas, eles não cobravam por seus ensinamentos.

Sócrates defendia que existia uma verdade única e universal, que nunca variava. A virtude seria sempre virtude, não importava o local ou a cultura. A filosofia socrática, portanto, retirava o poder dos homens e o repassava a uma "entidade" superior e eterna.

Durante muitos anos, uma silenciosa batalha filosófica ocorreu na Grécia antiga. A batalha acabou com a vitória dos socráticos e suas consequências foram sentidas nos dois milênios seguintes. Os sofistas foram considerados os vilões da filosofia, só sendo reabilitados no século XX, após a 2º grande guerra. Já as ideias socráticas foram sendo desenvolvidas ao longos dos séculos seguintes e acabaram por influenciar boa parte do pensamento cristão ocidental. Ao ponto de muitos considerarem a filosofia platônica o embrião do cristianismo.

[Especial Filosofia] Sócrates

Foi o primeiro dos três grandes filósofos gregos que estabeleceram as bases do pensamento ocidental (os outros dois foram Platão e Aristóteles). Sócrates nasceu em Atenas por volta do ano 470 a.C. e, de acordo com o romano Cícero, "fez com que a filosofia descesse dos céus para a terra". Em outras palavras, ele conduziu a transição do pensamento dos antigos cosmologistas gregos, que viviam refletindo sobre a origem do universo, para preocupações maiores com a ética e a existência humana, adotando o famoso lema: "Conhece-te a ti mesmo". O filósofo não deixou nada escrito para a posteridade e quase tudo que se sabe sobre suas idéias e sua personalidade vem das obras de Platão, seu principal discípulo, e do livro Memorabilia, do historiador clássico grego Xenofonte. O problema é que esses dois autores eram cerca de 40 anos mais novos que Sócrates e só testemunharam mesmo a última década da vida do filósofo. "A atividade dele consistia em debater temas de filosofia, principalmente noções e conceitos morais.

Numa época em que surgiram os primeiros profissionais do saber, que recebiam por seus ensinamentos (os chamados sofistas), Sócrates discutia livremente com todos os interessados, sem exigir pagamento algum", afirma o filósofo Marco Antônio de Ávila Zingano, da Universidade de São Paulo (USP). Os especialistas acreditam que ele foi casado, teve três filhos e que, além de gostar do confronto de idéias, também gostava de batalhas de verdade, tanto que serviu como soldado de infantaria na Guerra do Peloponeso - conflito entre as cidades de Atenas e Esparta no século 5 a.C. Apesar de ter sido descrito por Platão como "o homem mais justo e honrado de sua época", Sócrates acabou sendo indiciado em 399 a.C. por "impiedade", ou seja, heresia. A denúncia, provavelmente baseada em uma boa dose de ciúme e inveja intelectual, incluía duas acusações: "negligenciar a adoração dos deuses cultuados pela cidade" e "corromper os jovens".

O filósofo acabou condenado a cometer suicídio bebendo uma mistura com a erva venenosa cicuta. Uma forma de evitar a execução chegou a ser sugerida, mas Sócrates recusou, alegando que a sentença, embora injusta, havia sido pronunciada por um tribunal legítimo e assim deveria ser cumprida - o que aconteceu em Atenas naquele mesmo ano de 399 a.C.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

[Especial Filosofia] Os dez nomes fundamentais da filosofia ocidental

469 a.C. - Sócrates

Embora desde o século 6 a.C. nomes como Heráclito e Pitágoras já tentassem buscar o princípio material das coisas (physis), Sócrates é considerado o marco da filosofia – mesmo sem ter deixado obra escrita. Segundo ele, todo comportamento ilegal ou imoral é um erro, o conhecimento é a virtude e ninguém faz o mal por querer. Sócrates deixa o mundo físico de lado e se volta para a metafísica e a moral.

427 a.C. - Platão

É ele quem apresenta ao mundo as reflexões de Sócrates. Apontado como um dos pilares da filosofia ocidental, ele divide seu pensamento entre o mundo sensível (onde vivemos) e o das idéias (acessível somente para a alma), além de fundar sua própria escola, a Academia, onde transmitiria suas idéias para futuros filósofos.

384 a.C. - Aristóteles

Embora tenha sido seguidor e aluno de Platão na Academia, Aristóteles nunca foi seu discípulo incontestável – não concordava com a idéia defendida sobre o mundo superior e se concentrou nas ciências da natureza. Fundou o sistema-base dos estudos de lógica até o século 19, que utiliza o silogismo, como em: “Todos os homens são mortais; Sócrates é homem; logo, Sócrates é mortal”.

354 - Santo Agostinho

As reflexões do pensador são um marco na transição entre a filosofia praticada anteriormente e o período medieval (época em que a atividade esteve muito relacionada à teologia, suplementar à religião). Moldando as idéias platônicas de acordo com sua abordagem, combina a fé (fundamental para a filosofia cristã) e a razão (sem a qual a fé não se consolida).

1596 - René Descartes

É considerado o pilar da filosofia moderna e um dos responsáveis por libertá-la do pensamento teológico. Autor da frase “penso, logo existo”, elabora uma teoria racionalista e defende o dualismo em que mente e corpo têm naturezas distintas: a essência do “eu” seria o pensamento, e a do corpo, a extensão.

1632 - John Locke

Contrário ao pensamento de que o homem possui idéias natas, Locke funda o empirismo, sucedendo o racionalismo de Descartes – é autor de Ensaio Sobre o Intelecto Humano, uma das obras que mais colaboraram para essa escola. Sua atenção se volta para questões como as capacidades da mente e a natureza do conhecimento, influenciando o pensamento britânico da época.


1724 - Immanuel Kant

Suas reflexões surgem no momento em que a filosofia estava dividida entre as duas idéias anteriores: o empirismo de Locke (adotado na Grã-Bretanha) e o pensamento racional da Europa. O filósofo faz uma síntese das correntes: reconhece a idéia empírica de que a experiência é a origem das crenças e rejeita a afirmação de que verdades são determinadas apenas pela razão.

1770 - Friedrich Hegel

Filósofo idealista alemão influenciado pelo pensamento de Kant, Hegel acreditava que a mente ou o espírito constituíam o que chamava de realidade última. Suas idéias influenciam o pensamento europeu com a dialética do absoluto, sistema em que tudo estava inter-relacionado – filosofia, religião e arte formam meios de compreensão absolutos.



1844 - Friedrich Nietzche

Coloca em questão a história da filosofia, criticando os valores morais defendidos por Sócrates. Ataca a crença da realidade imutável e estimula a confiança no senso comum como uma forma eficaz de entender o mundo.

1905 - Jean-Paul Sartre

Símbolo da influência existencialista de Nietzsche, com Sartre a existência humana não necessita mais de justificativa exterior e o aqui e agora é a questão da vez. Sua pergunta primordial é: “O que é existir como ser humano?”. Publica uma das obras de referência do existencialismo, O Ser e o Nada, e descreve o que denomina a realidade dos homens de modo geral.

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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

[Especial Filosofia] Pequena enciclopédia filosófica


Cartesianismo: Duvidar de tudo, negar tudo que não resiste à dúvida, como queria o francês René Descartes , o principal dos filósofos modernos. No livro Meditações Metafísicas, de 1641, Descartes propôs que todo conhecimento começasse de volta, do zero, recusando todos os “argumentos de autoridade”, aquilo que o homem acreditava por tradição ou por imposição de alguma autoridade ou religião. Para perceber o impacto da idéia, basta saber que, depois de Descartes, o mundo passou a viver séculos de revoluções em várias áreas, botando abaixo tudo o que não resistia à dúvida, seja a idéia de que a Terra é o centro do Universo, seja a de que os reis são pessoas superiores. Para o historiador francês Alexis de Tocqueville, a Revolução Francesa, por exemplo, foi “feita por cartesianos que saíram das escolas e desceram à rua”. Se você usa uma camiseta com o Che Guevara, mude já a estampa: revolucionário mesmo foi Descartes e sua idéia de duvidar de tudo.

Cinismo: Doutrina de filosofia grega que considerava a honestidade o único requisito para a felicidade. Único, mas único mesmo: os cínicos eram filósofos-mendigões, ascetas radicais que não estavam nem aí para roupa, dinheiro, família, costumes, tradição e higiene. Viviam conforme a natureza, como cachorros vira-latas, e não apenas aceitaram o rótulo como tomavam o bicho como símbolo de sua idéia de virtude, daí o nome (do grego cyon, “cachorro”). Diógenes (412-323 a.C.), o maior dos cínicos, era realmente um morador de rua e teve várias histórias famosas: quando perguntaram a ele como resistir aos desejos da carne, ele se masturbou em público e disse: “Se ao menos eu pudesse matar minha fome esfregando a barriga...” Quando Alexandre, o Grande, perguntou a Diógenes se podia lhe fazer algum favor, o cínico respondeu: “Sim, saia da frente do meu sol”. A fama dura até hoje.

Conservador: Vá ao verbete “modernidade”. Foi? O contrário de ser moderno é ser conservador. Não se trata tanto de uma posição política, mas de outro jeito de olhar o ser humano. Se os modernos achavam que o homem pode ser melhorado se a sociedade mudar, os conservadores preferiam pensar como na Idade Média: que o homem é naturalmente mau, e a sociedade (a polícia, a hierarquia, a religião) serve para civilizá-lo, contê-lo. É por isso que, para os conservadores, uma mudança lenta e gradual é sempre preferível à revolução, que, para eles, deixam à solta a tendência destrutiva do homem. “É impossível estimar a perda que resulta da supressão dos antigos costumes e regras da vida”, escreveu no século 18 o inglês Edmund Burke. Os conservadores são o grupo mais fora de moda nos últimos séculos, mas, a favor deles, está o fato de que, como previram, da Revolução Francesa até as revoluções do século 20, não foram poucas as que acabaram em tragédia, opressão e assassinatos em massa.

Deus: Platonismo com rosto .

Dialética: Diálogo. É a arte de debater, argumentar e contra-argumentar. Sócrates foi o homem que estabeleceu o costume do diálogo nas rodas de intelectuais da Grécia. Por isso, muita gente o chama de pai da filosofia. Antes de Sócrates, valia mais a retórica, a arte do bem falar, do que os argumentos em si. Séculos depois, no século 18, “dialética” passou a significar uma dinâmica em que as coisas se sobrepõem, uma substituindo outra. Como quando as crianças, em círculo, colocam em seqüência as mãos, uma acima da outra.

Ética: Definir o que é certo e o que é errado. Simples, não? O problema é que a idéia de certo e errado muda sempre, dependendo de como enxergamos o mundo. Por exemplo: os gregos achavam que o homem deveria se integrar à harmonia do Cosmos. Por isso, usavam a natureza para saber o que era certo ou errado. Se, na natureza, havia hierarquia entre animais mais fortes que outros, então era muito bem aceitável que, entre os homens, houvesse escravidão. Já na Idade Moderna, quando o homem se considera superior à natureza, a escravidão torna-se, aos poucos, uma idéia absurda.

Epicurismo: Para Epicuro (340-270 a.C.), o ideal do bem é viver sem medo e sem dor, aproveitando o dia de hoje. “Quem menos sente a necessidade do amanhã mais alegremente se prepara para o amanhã”, diz Epicuro. Parece culto ao prazer, mas ele dizia também que, para viver bem, o jeito é se abster de grandes prazeres, evitando assim a frustração quando eles não puderem ser obtidos. Essas palavras fizeram muito sucesso na Roma antiga, quando o prazer falava acima de quase tudo.

Estoicismo: Diferentemente do epicurista, o estóico acredita que o mundo é governado por uma lógica divina, ou seja, Deus está no mundo e sua manifestação é a ordem das coisas. Assim sendo, o negócio é estar do lado da natureza, mesmo que isso possa implicar desconforto mental ou físico. O estoicismo prega que somente pelo desapego, ignorando dor e prazer, é que se descobre a verdade.

Hermenêutica: Interpretação de texto. É a parte da filosofia que pensa no que o autor realmente quis dizer com um discurso, um filme ou um evangelho escrito 2 mil anos atrás. Por exemplo: na Bíblia, o fato de os judeus serem os traidores de Jesus é encarado como uma estratégia para os evangelhos caírem no gosto dos romanos, que, na época, perseguiam os judeus.


Humanismo: Fenômeno que começou no século 16 e colocou o ser humano no centro do Universo. Se você já leu várias vezes essa explicação sem entender muito bem, tente pensar numa época antes do humanismo: a Idade Média. A vida humana então não tinha tanto valor quanto hoje: os filhos só eram batizados se persistissem em sobreviver, já que a maioria morria nos primeiros anos. A idéia de infância não existia – as crianças vestiam roupas de adultos e, nas obras de arte, eram representadas como adultos pequenos. Como os pintores trabalhavam por devoção a Deus, e não por um reconhecimento pessoal, muitas pinturas não eram assinadas. E a idéia de que Deus decidia tudo era tão forte que ninguém imaginava que poderia melhorar de vida, progredir por esforço próprio. Se você nascesse um camponês pobre, encararia isso como uma decisão divina, sem imaginar que poderia agir para ser diferente. Com o humanismo, o ser humano aos poucos virou o centro das atenções – pinturas (assinadas) do rosto de pessoas ficaram cada vez mais comuns, assim como o estudo do corpo humano e suas medidas (lembra-se daquele desenho do Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci?). A idéia é de que quem determina o que é certo ou errado não é Deus nem as tradições, mas as pessoas e sua capacidade individual de pensar. Um exemplo é Maquiavel (1469-1527), autor de O Príncipe. Ele rejeitou a moral bíblica para que seu príncipe conquistasse um bem permanente pelas vias do mal passageiro – o famoso “os fins justificam os meios”. Também surge com o humanismo a idéia de que o ser humano pode trazer o céu à terra. Foi nessa época que o termo “utopia” foi inventado, pelo inglês Thomas Moore (1478-1535) – o livro Utopia descreve uma ilha em que tudo seria perfeito.

Imanência: Repare neste fragmento de Tales de Mileto: “Todas as coisas estão cheias de deuses”. Imanência é isso: a idéia de que Deus ou algum princípio divino, ou qualquer ideal, está aqui, entre nós, presente no mundo, nas leis da física, nas pessoas, nos seres vivos e talvez em todas as coisas. Por isso, para os gregos da época de Tales, era preciso abrir os olhos para o mundo, ou seja, apreciar a ordem natural das coisas, a harmonia da natureza. Não é à toa que a palavra teoria vem do grego to theion, ou “eu vejo o divino”. E que os filósofos dessa época, como Tales, se dedicaram a estudar os princípios da natureza, como na geometria .

Iluminismo: Nos séculos 16 e 17, as pessoas se sentiam perdidas no escuro. As descobertas científicas de Newton, Kepler e Galileu derrubaram a idéia de que o mundo era uma coisa pronta e ordenada por Deus. Começamos a olhar o Universo como um lugar sem ordem, em que forças da física a todo momento se debatem. Então, o que fazer? Iluminar-se, criar uma ordem para o mundo. É o que propõem os filósofos da época, principalmente Emmanuel Kant , com o livro Crítica da Razão Pura. Por meio da ciência, da razão, o ser humano passou a tentar a explicar o mundo e catalogá-lo – vêm daí os primeiros museus e disciplinas científicas.

Modernidade: Pegue os verbetes humanismo, cartesiano e iluminismo e misture-os bem. Modernidade são os últimos 5 séculos, época em que o ser humano começou a se achar o centro do mundo, passou a usar a razão para conhecer o mundo e a acreditar que a mudança, o progresso, conduz a uma coisa melhor que o passado. O espírito da modernidade é a idéia de que a ciência – todas as ciências, da psicologia à arquitetura – pode melhorar a sociedade e até mexer com a alma humana, melhorando o próprio homem.

Materialismo: Lembra-se do Kléber Ban-Ban, aquele do Big Brother que dizia “faz parte” a toda hora? Materialismo é acreditar que o sonho acabou e, como faz o ex-BBB, dar de ombros aos problemas da vida. Literalmente, é acreditar na matéria, amar o mundo tal como ele é. O materialista não tem utopias, tenta esperar pouco da vida. “Esperar é desejar sem fruir, sem saber e sem poder”, afirma o filósofo André Comte-Sponville, a voz do materialismo no século 20. O problema do materialismo contemporâneo é: como amar a realidade em momentos como o genocídio de Ruanda sem dizer “faz parte” ou recorrer a utopias?

Metafísica: O nome certo era para ser “primeira filosofia”, como Aristóteles a chamava. Mas, quando o filósofo Andrônico de Rhodes foi organizar os livros de Aristóteles na biblioteca de Alexandria, simplesmente colocou esses volumes à direita da “física” aristotélica e escreveu: “os livros que vêm depois da física”. Os romanos entenderam tudo errado: achavam que a tal “metafísica” era o estudo das coisas “além do mundo físico” – em outras palavras, coisas inventadas, como os deuses. Na verdade, é a metafísica que faz as perguntinhas mais amplas, tipo “quem somos, de onde viemos?”

Niilismo: É negar a realidade, dizer não ao mundo real em prol da imaginação de um mundo perfeito, de um ideal transcendente, do “nada” – que em latim é nihil. Os niilistas proliferaram no século 19, com as grandes ideo­logias políticas, e seu maior inimigo foi Friedrich Nietzsche . Pense com ele: depois da modernidade, quando deixamos de explicar o mundo por atos de Deus, tivemos de arranjar outros ídolos, outros ideais sublimes para dar à vida uma sensação de eternidade. Em vez do paraíso da Bíblia, o novo ideal virou o nacionalismo, o cientificismo (pensar que a ciência resolveria todos os problemas do homem) ou o comunismo. Nietzsche chega a tratar o comunismo como uma religião, com apenas uma diferença do cristianismo: atribuir nossos problemas aos outros ou a nós mesmos – “a primeira coisa faz o socialista, a segunda o cristão”, afirma ele em Crepúsculo dos Ídolos. Niilismo também significa achar que nada tem valor – que não há motivos para respeitar tradições, leis ou princípios morais. É a perigosa idéia de que “se Deus não existe, então não há crime, não há pecado; tudo é permitido”, como diz um personagem do livro Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski, outro grande crítico do niilismo.


Platonismo: Ver o mundo em duas partes. Platão (427-347 a.C.) dividia o mundo em dois: para ele, antes das coisas reais, do mundo real em que vivemos, existem as idéias das coisas, que são eternas e vivem no “mundo das idéias”. Esse mundo das idéias seria o único de fato verdadeiro; e este aqui, em que vivemos, seria uma sombra, uma ilusão. Platão também acreditava na imortalidade da alma, que, de vez em quando, era aprisionada em corpos humanos. O platonismo lembra muito uma religião, não? Pois é exatamente a visão de mundo de Platão que o judaísmo, o cristianismo e o islamismo se apropriaram. Séculos depois de Platão, suas idéias se misturaram com crenças judaicas, que deram ao mundo das idéias uma cara, uma forma de pessoa: Deus.

Pós-Modernidade: Sabe alguém que não gosta de usar celular, toma remédio de homeopatia e, nas férias, percorreu a pé o Caminho de Santiago? Pois eis aí um belo pós-moderno. Na teoria, o pós-modernismo é uma recusa à modernidade, uma desconfiança dos valores do iluminismo. Na prática, ele aparece em toda parte, principalmente como uma recusa às grandes correntes . Em vez das grandes religiões tradicionais, doutrinas orientais como o budismo. Na moda, é aquela camiseta única, cuja estampa você mesmo inventou. Na arquitetura: em vez dos prediões de linhas retas e funcionais do começo do século 20, linhas curvas. E até no turismo: em vez do pacotão da CVC, uma experiência única, como fazer o Caminho de Santiago ou percorrer a França de bicicleta .

Transcendência: contrário da imanência, é a idéia de que Deus é algo separado do mundo (ou seja, “transcende” a ele) e que o mundo segue por sua própria conta as regras criadas por Ele. Depois dos livros de Kant, transcendência passou a significar também pensar não nas coisas em si, mas na relação entre as coisas como elas são vistas e o que existe de fato. Ou seja, “transcender” o senso comum não filosófico, atingir a verdade por trás das coisas.

Verdade: O objetivo final da filosofia – apesar de que, para alguns filósofos, acreditar na verdade é cair num grande mal-entendido. Ou não.

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