terça-feira, 4 de Janeiro de 2011

[Clássicos de Literatura] Crime e Castigo


Sinopse

Publicado em 1866, Crime e Castigo é a obra mais célebre de Fiódor Dostoiévski. Neste livro, Raskólnikov, um jovem estudante, pobre e desesperado, perambula pelas ruas de São Petesburgo até cometer um crime que tentará justificar por uma teoria: grandes homens, como César e Napoleão, foram assassinos absolvidos pela História. Este ato desencadeia uma narrativa labiríntica que arrasta o leitor por becos, tabernas e pequenos cômodos, povoados de personagens que lutam para perservar sua dignidade contra as várias formas da tirania.

Informações adicionais sobre o livro (CUIDADO!! Algumas partes contêm revelações do enredo. Leia por sua conta e risco :])

1. A Rússia no século XIX


Em 1865 a Rússia encontrava-se em um estado de completo atraso em relação aos demais países da Europa. Enquanto o resto da Europa estava em plena revolução industrial o então império russo ainda se encontrava na idade media. O país ainda era divido em feudos e a maioria da população era rural, para se ter uma ideia, enquanto o resto da Europa já havia praticamente abolido o absolutismo e o constitucionalismo já começava a dar seus primeiros passos, inclusive com o surgimento dos direitos e garantias fundamentais de 1ª geração, na Rússia até o ano de 1861 existiu o sistema de servidão que forçava os Mujiques(camponeses) a permanecerem nas terras sem que tivessem o direito de possuí-las, os senhores feudais podiam vender as terras juntamente com os servos que nela trabalhavam. Além disso, tinham o direito de tratar os camponeses da forma que eles quisessem, desde que não os matassem.

Além disso, o império russo era formado por mais de 100 etnias diferentes, não existindo assim um forte sentimento nacionalista como em outros países europeus da época, e devido a isso a Rússia da época passava por um forte processo de europeização, podemos notar que há várias correntes teóricas no livro.

2. O Autor

Fiódor Mikhailovich Dostoiévski, Moscou, 11 de Novembro de 1821 — São Petersburgo, 9 de Fevereiro de 1881. Fiódor foi o segundo dos sete filhos nascidos do casamento entre Mikhail Dostoyevski e Maria Fedorovna. Mikhail era um pai autoritário, então médico no Hospital de pobres Mariinski, em Moscou, e a mãe era vista pelos filhos como um paraíso de amor e de proteção do ambiente familiar.

Seu pai tornou-se um nobre em 1828. Até 1833, Fiódor foi educado em casa, mas com a morte precoce da mãe por tuberculose em 1837, e a decorrente depressão e alcoolismo do pai, foi conduzido, com o irmão Fiódor Mikhail, à Escola Militar de Engenharia de São Petersburgo, onde começou a demonstrar interesse pela Literatura.

Em 1839, quando tinha dezoito anos, recebeu a notícia de que seu pai havia morrido. É aceito hoje, porém sem provas concretas, que o doutor Mikhail Dostoiévski, seu pai, foi assassinado pelos próprios servos de sua propriedade rural em Daravói, indignados com os maus tratos sofridos.Tal fato exerceu enorme influência sobre o futuro do jovem Fiódor, que desejou impetuosamente a morte de seu progenitor e em contrapartida se culpou por isso, fato que motivou Freud a escrever o polêmico artigo Dostoiévski e o Parricídio.

Dostoiévski sofria de epilepsia e seu primeiro ataque ocorreu quando tinha nove anos. Suas experiências epiléticas serviram-lhe de base para a descrição de alguns de seus personagens, como o príncipe Myshkin no romance O idiota, e de Smerdyakov na obra Os Irmãos Karamazov.

Dostoiévski foi detido e preso em 23 de abril de 1849 por participar de um grupo intelectual liberal chamado Círculo Petrashevski, sob acusação de conspirar contra o Nicolau I da Rússia. Depois das revoluções de 1848, na Europa, Nicolau mostrou-se relutante a qualquer organização clandestina que poderia pôr em risco sua autocracia.

Em 23 de abril de 1849, ele e os outros membros do Círculo Petrashevski foram presos. Dostoiévski passou oito meses na prisão até que, em 22 de dezembro, a sentença de morte por fuzilamento foi anunciada. Dostoiévski teve de situar-se em frente ao pelotão de fuzilamento com uma venda e até mesmo ouvir os seus disparos. No último momento, as armas foram abaixadas e um mensageiro trouxe a informação de que czar havia decidido poupar a vida do escritor. Sua pena foi comutada para cinco anos de árduo trabalho em Omsk, na Sibéria

A influência de Dostoiévski é imensa, de Hermann Hesse a Marcel Proust, William Faulkner, Albert Camus, Franz Kafka, Yukio Mishima, Roberto Arlt, Ernesto Sábato e Gabriel García Márquez, para citar alguns autores. Na verdade, nenhum dos grandes escritores do século XX foram alheios ao seu trabalho (com algumas raras exceções, tais como Vladimir Nabokov, Henry James ou D.H. Lawrence). O romancista americano Ernest Hemingway também citou Dostoiévski em uma de suas últimas entrevistas como uma das suas principais influências.

Nietzsche referiu-se a Dostoiévski como "o único psicólogo com que tenho algo a aprender: ele pertence às inesperadas felicidades da minha vida, até mesmo a descoberta Stendhal." Certa vez disse, referindo a Notas do Subsolo: "chorei verdade a partir do sangue". Nietzsche refere-se constantemente a Dostoiévski em suas notas e rascunhos no internato entre 1886 e 1887, além de escrever diversos resumos das obras de Dostoiévski. "Um grande catalisador: Nietzsche e neo-idealismo russo", disse Mihajlo Mihajlov.

Com a publicação de Crime e Castigo em 1866, Fiódor se tornou um dos mais proeminentes autores da Rússia no século XIX, tido como um dos fundadores do movimento filosófico conhecido como existencialismo. Em particular, Memórias do Subsolo, publicado pela primeira vez em 1864, tem sido descrito como o trabalho fundador do existencialismo. Para Dostoiévski, a guerra é a revolta do povo contra a idéia de que a razão orienta tudo.

3. O Espaço


O livro se passa em São Petersburgo, então capital do império russo. São Petersburgo foi construída sobre um pântano e por isso exalava mau cheiro, excepcionalmente em sua parte pobre. Raskolnikov morava em um pequeno quarto na parte mais miserável da cidade. Os locais que ele costumava frequentar são geralmente claustrofóbicos e degradantes, como o Mercado do Feno, frequentado pela escoria da sociedade da época, como os bêbados, a baixa soldadesca e as prostitutas.

É nesse ambiente que a ação se desenvolve.

Toda essa miséria e degradação acabam por interferir nos personagens, que se dividem em dois grandes grupos: o primeiro é composto por aqueles que se deixaram levar pela miséria e acabam por sofrer um processo de degradação interna, transformando-se em seres amorais. O segundo grupo é composto por aqueles que não se conformam com a situação de miséria a que são submetidos e, a sua maneira, tentam reagir de alguma forma.

Há também, durante todo o livro, uma imensidão de personagens com ideologias diferentes. Existem os niilistas, os socialistas, os religiosos, os existencialistas etc. Durante todo o romance esses personagens travam uma verdadeira “guerra” filosófica entre suas ideologias, especialmente entre o espiritualismo (Representando por Sônia, a prostituta boazinha) e o niilismo (Raskolnikhov).

4. O Personagem


No livro somos apresentados a Raskolnikov. Raskolnikov, nome que em russo significa "ruptura" ou "divisão" , é um jovem pobre e estudante de direito que mora em uma pensão miserável na então capital do império russo: São Petersburgo. Ele é do interior, e sobrevive na cidade graças ao pouco dinheiro que é enviado pela sua mãe e irmã. Certo dia ele resolve abandonar a universidade e passa meses trancados em seu pequeno quarto desenvolvendo uma teoria e planejando um modo pôr-la em prática

Era um homem solitário e sem amigos, que evitava a companhia das pessoas sempre que possível. Era, também, um homem muito orgulhoso e que se achava um homem melhor que as outras pessoas. O seu estado de extrema pobreza o incomodava e também o oprimia. E, talvez, tenha sido o seu estado de extrema pobreza que tenha desemcadeado os assinantos, na medida em que ao receber uma carta de sua mãe, narrando que a sua irmã irá se casar com um homem rico, mas cruel, para ajudar a financiar os seus estudos, é que o personagem teve a percepção de que falhou com sua família, que havia depositado toda a esperança de um futuro melhor em seu sucesso como estudante.

Além disso, com o passar do tempo em conseqüência dessa pobreza ele acaba desenvolvendo uma doença que quase o mata, tendo cometido os crimes ainda sob o efeito desta.

5. A Teoria

No mundo, segundo ele, existem duas subdivisões de pessoas: as ordinárias e as extraordinárias. Segundo o próprio personagem, “à primeira, pertencem , em geral, os conservadores, os homens de ordem, que vivem na obediência e têm por ela um culto. (...) As pessoas desse grupo não acrescenta nada ao mundo.

No segundo grupo se encontram as pessoas que vieram ao mundo para modificá-lo, essas pessoas estão acima da lei e podem, inclusive, em defesa de suas ideias, cometer qualquer crime.

O primeiro grupo é composto pelos senhores do presente, já o segundo grupo é composto pelos senhores do futuro.

6. O Crime


Cansado e desiludido com sua vida, Raskolnikov resolve abandonar a universidade e as aulas que costumava lecionar para complementar a sua renda e entregá-se a miséria absoluta, passando a viver com o pouco dinheiro que é enviando por sua família, dinheiro este que logo revela-se insuficiente. Sem alternativa, ele acaba tendo que penhorar seus poucos bens para uma velha usuraria.

Esta velha é descrita como uma criatura má e caprichosa, que se aproveitava da desgraça alheia. Emprestava, ela, por um objeto um quarto do seu valor de mercador e apesar de ser pequena e franzina, frequentemente batia em sua irmã mais nova, a quem tratava como uma empregada.

Devido a isso ele a considera como um “piolho” social. Um ser que não é útil a ninguém; pelo contrário, é prejudicial a todos e por isso ele decide matá-la e roubar o dinheiro que ela havia ganho explorando a desgraça alheia e, com isso, esperava iniciar uma nova vida. Depois de planejar por cerca de um mês, ele decide por seu plano em prática e em uma noite, completamente febril e quase delirando devido uma doença, dirige-se a casa da velha, que se encontrava sozinha em casa, com a desculpa de penhora um objeto e a mata com golpes de machados, mas inesperadamente a irmã da usuraria chega ao apartamento ele acaba a matando também, após o duplo assassinato ele foge, sem ser visto, com alguns objetos da vitima.

7. O Castigo


Após cometer o duplo homicídio, Raskolnikov evadiu-se do local e passou a perambular pela cidade em um estado paranóico. Completamente histérico, ele livra-se de todas as provas que possam ligá-lo ao crime e volta para casa onde é encontrado quase morto devido a sua doença por um amigo.

Alguns dias depois, já restabelecido de sua doença, ele começa a ter a exata noção do crime que cometeu e passa a andar pela cidade refletindo sobre seus atos. Frise-se que o seu crime foi quase perfeito, pois não havia testemunhas e nem suspeitas sobre sua pessoa e, além disso, outra pessoa assumiu a autoria do crime. Durante esse tempo Raskolnikov sofre uma imensa tortura psicológica, sentindo-se culpado pelo crime que cometeu, especialmente em relação à morte não planejada da irmã da usuraria, passando a repensar a sua vida e suas atitudes.

Depois de muito pensar e de sofrer uma imensa tortura psicológica, ele resolve entregar-se, unicamente por não mais agüentar o castigo moral que ele mesmo se impôs. Após entregar-se, é julgado, tendo sua pena atenuada por ter apresentado-se espontaneamente a polícia e por bom comportamento antes do crime, tendo inclusive salvado algumas pessoas de um incêndio, e é enviado para a Sibéria. Lá, é presenteado com uma bíblia e finalmente encontra sua redenção, ao arcar com seus atos perante não só aos homens como a Deus. (Dostoiévski e sua maldita mania de exaltar o Cristianismo.)

8. Conclusão

Talvez, na cabeça de Raskolnikov, não houvesse crime em nenhum momento. O que o atormentava nem chegava a ser a velha, mas a possibilidade de ser pego. Assim, o crime em si não pareceu afetá-lo diretamente, mas pensar que não era um ser extraordinário, nem tão sangue frio como imaginava.

Isso mostra que Raskolnikov foi leal, até ao fim, ao seu delírio de arrancar uma erva daninha do solo e devolver a ele várias mudas de árvores. E, como sua ideia não transcorreu do modo como imaginara, resolveu pagar pelo crime em troca de um pouco de paz. Bem verdade, que podemos alegar que ele se compadeceu dos inocentes presos e também da memória das duas vítimas. Qual das possibilidades é a mais correta? Nunca saberemos.Tais perguntas são impossíveis de serem respondidas. Cada novo leitor interpretará a obra a sua própria maneira.

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