segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

[Curiosidades Literárias] Frases de filósofos que nunca foram ditas

1- “Só os mortos conhecem o fim da guerra”, atribuída a Platão
O culpado: o comandante militar norte-americano Douglas MacArthur, filho de um dos grandes heróis da Guerra da Secessão.



Em um discurso nos anos 60, o militar atribuiu a frase a Platão. No entanto, as palavras foram escritas pelo filósofo, poeta e ensaísta espanhol George Santayana no livro “Solilóquios na Inglaterra”, de 1922. Pouco após o fim da Primeira Guerra Mundial, Santayana escreveu: “E os pobres coitados acham que estão a salvo! Eles acham que a guerra acabou! Apenas os mortos viram o fim da guerra”. Nada a ver com o nosso filosofighter grego. “A frase não me parece nem vagamente adequada à expressão das principais ideias do discípulo de Sócrates”, diz Gianpaolo Dorigo.

2- “Creio porque é absurdo”, atribuída a Santo Agostinho
O culpado: a mania de tentar resumir o pensamento dos filósofos em uma frase.



Antes de ser colocada na boca de Agostinho de Hipona, a frase havia sido atribuída a Tertuliano, autor romano das primeiras fases do Cristianismo. Esse caso curioso de reatribuição de citação tem a ver com a valorização da fé expressa pelos dois pensadores cristãos, que declaravam crer em coisas que parecem incríveis, como a ressurreição de Cristo. O problema é que tentaram resumir as ideias de ambos através de uma sentença curta que não aparece explicitamente nas obras de nenhum deles. O mais próximo que Tertuliano chegou disso foi quando disse “E o Filho de Deus morreu, o que é crível justamente por ser inepto; e ressuscitou do sepulcro, o que é certo porque é impossível”.

3- “Deus está morto”, atribuída a Nietzsche
O culpado: a descontextualização.



Aqui, o problema não é a frase, mas o conceito atribuído a Nietzsche. O mal-humorado filosofighter de fato diz isso: a frase apareceu pela primeira vez em “A gaia ciência” e está também em sua famosa obra “Assim falou Zaratustra”. Mas as palavras têm sido muito mal interpretadas. Nietzsche não se referia à morte literal de Deus nem à morte de Jesus Cristo, e essa não era uma simples declaração de ateísmo. Logo em seguida, o filósofo completa: “Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós!”. Ele queria dizer que a humanidade havia deixado de ter Deus como força ordenadora do mundo e fonte de valores. Com a morte de Deus, ele metaforiza a morte dos valores sagrados para os homens. Assim, eles deixariam de crer em quaisquer valores impostos.

Esse tipo de mal entendido é comum quando se fala em Nietzsche. “O seu hábito de efetivamente utilizar máximas e aforismos agressivos em seus livros acabou por transformá-lo em um pensador muito citado e pouco compreendido”, explica Gianpaolo. “E suas máximas, mesmo quando citadas corretamente, muitas vezes se perdem: o que para o pensador alemão era sobretudo uma provocação, para muitos se torna uma verdade incontestável e guia para a vida, no mais puro e estilo autoajuda”, completa.

4- “Os fins justificam os meios”, atribuída a Maquiavel
O culpado: a tentativa de simplificar a ideia de “O Príncipe”.



A mais famosa frase atribuída a Nicolau Maquiavel nunca foi dita por ele. Segundo o professor Gianpaolo, trata-se de uma tentativa de condensar a ideia de sua obra “O Príncipe”, em especial do capítulo 18, em que aparecem os trechos: “…um príncipe  (…) não pode observar todas as coisas pelas quais os homens são chamados de bons, precisando muitas vezes, para preservar o Estado, operar contra a caridade, a fé, a humanidade, a religião. Aqui, “preservar o Estado” refere-se aos fins e “operar contra a caridade etc…” é interpretado como utilizar quaisquer meios. No mesmo capítulo, Maquiavel ainda diz: “nas ações de todos os homens, especialmente nas dos príncipes, quando não há juiz a quem apelar, o que vale é o resultado final”. É uma simplificação bem empobrecedora.

5- “Se Deus não existe, tudo é permitido”, atribuída a Dostoiévski
O culpado: Jean-Paul Sartre.



Desta vez, um de nossos Filosofighters foi o culpado, e não a vítima, de uma atribuição incorreta. No texto “O existencialismo é um humanismo”, Sartre diz: “Dostoiévski escreveu: ‘Se Deus não existisse, tudo seria permitido’. Eis o ponto de partida do existencialismo”. O escritor russo de fato inspirou os existencialistas, mas ele nunca disse isso. O mais próximo disso, que está em Os Irmãos Karamazov, é: “[...] é permitido a todo indivíduo que tenha consciência da verdade regularizar sua vida como bem entender, de acordo com os novos princípios. Neste sentido, tudo é permitido [...] Como Deus e a imortalidade não existem, é permitido ao homem novo tornar-se um homem-deus, seja ele o único no mundo a viver assim”. 

Bônus:Se não têm pão, que comam brioches”, atribuída a Maria Antonieta
O culpado: a autobiografia de Rousseau.


A famosa frase foi usada como argumento contra Maria Antonieta durante a Revolução Francesa. A rainha a teria dito durante sua coroação, em 1774, quando soube que o povo das províncias francesas não tinha pão para comer. Só que não. A história veio de uma passagem na autobiografia “Confissões”, de Jean-Jacques Rousseau, que diz: “Recordo-me de uma grande princesa a quem se dizia que os camponeses não tinham pão, e que respondeu: ‘Pois que comam brioche’”. Os registros históricos disponíveis, entretanto, mostram que, na época de sua coroação, Maria Antonieta se preocupava com a situação dos pobres. Numa de suas cartas à mãe, ela chega até a criticar o alto preço do pão. Especula-se que Rousseau na verdade se referia a Maria Teresa de Espanha.

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