sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

[Curiosidades Literárias] Canteiros: música bela e polêmica

 


 A belíssima música Canteiros de "autoria" do cantor cearense Raimundo Fagner é uma das música mais polêmicas da história musical brasileira. Toda essa polêmica não tem haver com a canção em si, que como eu disse, é belíssima, mas com a autoria da mesma. 

A canção foi lançada em 1973, no álbum de estreia do cantor, e, na ocasião, não fez lá muito sucesso. Posteriormente, quando o cantor já havia estourado lá pelas bandas do sudeste, a música se tornou um grande sucesso. Na ocasião, foi aberto um processo criminal contra o cantor, pelas filhas da grande poetisa brasileira Cecília Meireles, por supostamente ter plagiado o poema Marcha, de autoria da mesma.

Em 1979, durante uma audiência, ao ser interrogado no dia pelo Juiz Jaime Boente, na 16a. Vara Criminal, Fagner afirmou que ''sem tirar a beleza dos versos, procurou fazer uma adaptação à música'', reconhecendo o uso indevido do poema Marcha, de Cecília Meireles, na composição Canteiros. O próprio cantor, antes mesmo de ser acusado de plágio já tinha dividido a parceria da letra com Cecília Meireles e inclusive divulgando-a em release de show, em 1977.

Contudo, apesar deste fato, o processo continuou a se desenrolar, e em 1983, um jornal de circulação nacional destacou em letras garrafais: ''Caso Fagner: filhas de Cecília Meireles ganham na Justiça''. O título da matéria se referia ao fato de as herdeiras terem conseguido condenar as gravadoras Polygram, Polystar, Polifar, as Edições Saturno e o cantor a pagar uma multa de Cr$ 101 mil cruzeiros por violação de direitos autorais.

A confusão envolvendo o cantor  e as herdeiras de Cecília Meireles somente chegou ao fim em 1999, quando a gravadora Sony Music fez um acordo com elas para a regravação da música, o que aconteceu em janeiro de 2000, em Fortaleza, no primeiro registro ao vivo das músicas do compositor cearense.  

Na opnião deste subscritor, a confusão foi desnecessária, o próprio Fagner confirmou que se inspirou na obra da Cecília, de forma que, ao meu ver, não houve nenhuma ofensa a memória da grande poetisa. Pelo contrário, a belíssima versão feita pelo Fagner elevou ainda mais o nome de Cecília Meireles. Além disso, não acho que o Fagner seja um grande "plagiador" como muitos afirmam, ele somente se inspirou em uma grande obra, como muitos artistas já fizeram antes e ainda irão fazer.

Abaixo segue a letra da Canteiros e o poema a marcha:  

 Fagner - Canteiros 

Quando penso em você
Fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa
Menos a felicidade

Correm os meus dedos longos
Em versos tristes que invento
Nem aquilo a que me entrego
Já me dá contentamento

Pode ser até manhã
Sendo claro, feito o dia
Mas nada do que me dizem
me faz sentir alegria

Eu só queria ter do mato
Um gosto de framboesa
Pra correr entre os canteiros
E esconder minha tristeza
E eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza ...
E deixemos de coisa, cuidemos da vida
Pois se não chega a morte
Ou coisa parecida
E nos arrasta moço
Sem ter visto a vida

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
São as águas de março fechando o verão
É promessa de vida em nosso coração.

 

Cecília Meireles - Marcha

As ordens da madrugada
romperam por sobre os montes:
nosso caminho se alarga
sem campos verdes nem fontes.
Apenas o sol redondo
e alguma esmola de vento
quebram as formas do sono
com a idéia do movimento.

Vamos a passo e de longe;
entre nós dois anda o mundo,
com alguns mortos pelo fundo.
As aves trazem mentiras
de países sem sofrimento.
Por mais que alargue as pupilas,
mais minha dúvida aumento.

Também não pretendo nada
senão ir andando à toa,
como um número que se arma
e em seguida se esboroa,
- e cair no mesmo poço
de inércia e de esquecimento,
onde o fim do tempo soma
pedras, águas, pensamento.

Gosto da minha palavra
pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando é linda, amarga
como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga, é tudo
que tenho, entre o sol e o vento:
meu vestido, minha música,
meu sonho e meu alimento.

Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudade;
tenho visto muita coisa,
menos a felicidade. 

Soltam-se os meus dedos ristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
já me dá contentameno.


Como tudo sempre acaba,
oxalá seja bem cedo!
A esperança que falava
tem lábios brancos de medo.
O horizonte corta a vida
isento de tudo, isento…
Não há lágrima nem grito:
apenas consentimento.
 

16 comentários:

  1. Parabéns pelo post. Orlando de SP, 27/12/14. email. orlando_gomes@ig.com.br

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  2. DE ACORDO COM O AUTOR DESTE TEXTO A CONFUSÃO FOI DESNECESSÁRIA, ENTÃO SE FOR ASSIM JÁ COMECEI A PESQUISAR GRANDES POETAS PARA COPIAR AS LETRAS E EU COLOCAR AS MÚSICAS. ISSO É SE APROVEITAR DA INSPIRAÇÃO QUE DEUS DÁ A TODOS NÓS. ISSO É INCOMPETÊNCIA.

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    1. Vai tomar no cu seu idiota metido a intelectual do caralho...

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  3. Agradeço pela postagem. Muito Bom. Valeu.

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  4. É evidente que Fagner tinha consciência de que iriam notar a semelhança, sua atitude não foi falta de inspiração e sim uma leitura e interpretação particular que inspirou o compositor a fazer a versão do poema Fato que não gerou danos a obra de Cecilia , na verdade colocou em evidência uma belíssima obra da mesma.

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  5. Esse fagnar é um lixo, nunca fez nada que presta.

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  6. Esse fagnar é um lixo, nunca fez nada que presta.

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    1. E vc então eh o que? Nem lixo seria capaz de adjetivar vc... Monte de merda

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  7. RECONHECEU DEPOIS! POR QUE NÃO ANTES, ERA PLÁGIO

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  8. Sempre senti o estilo marcante de Cecília Meireles na letra de Canteiros, mesmo antes de conhecer a polêmica envolvendo a canção. De tal forma que imaginava haver Fagner apenas colocado a melodia no poema de Cecília, sem mudar nem mesmo o título, como fez com os poemas FUMO e FANATISMO da poetisa portuguesa Florbela Espanca.

    Fiquei bastante surpreso ao descobrir que Fagner apenas inspirou-se em breves trechos de um poema de Cecília para compor uma letra tão ou mais poética que o texto original, expressando inclusive com mais clareza e simplicidade o estilo da autora.

    Como diz o Eclesiastes, "nada há de novo sob o sol". Toda aparente originalidade, intencional ou involuntária, está relacionada a algo semelhante e preexistente.

    Fagner, com sua habilidade de compor a melodia perfeita para cada poema, certamente fez novos leitores para estas autoras (Florbela e Cecília), que de outro modo talvez jamais teriam contato com suas obras.

    Parabéns a este brilhante compositor nordestino, que merece o reconhecimento dos herdeiros das autoras, em vez de processos judiciais.

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